Espaço Família | Como Cresceram

Psicologia

3 de Fevereiro de 2016

HIPERATIVO OU OPOSITOR?

Nem sempre é fácil estabelecer um diagnóstico infantil, não só porque a linha que separa o normal do patológico é ténue, como também pelo facto de os sintomas serem, muitas vezes, semelhantes em diferentes quadros clínicos. Imaginemos o seguinte exemplo: se tivermos uma dor de estômago, o sintoma é, de facto, a dor localizada neste orgão. Porém, as causas poderão ser várias: a mesma dor de estômago pode ser porque tem fome, porque comeu algo que estava estragado, porque está excessivamente ansioso, porque tem uma úlcera, etc. O mesmo acontece em relação às perturbações psicológicas: apesar dos sintomas poderem ser semelhantes, é importante analisar a constelação de comportamentos com maior rigor para que se possa fazer um diagnóstico correto.

hiperactivo opositor

É muito comum os diagnósticos errados de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) em crianças que, de facto, não o são. As crianças com Perturbação de Oposição e Desafio (POD) são, muitas vezes, erradamente diagnosticadas como Hiperativas, pois estes quadros apresentam algumas características em comum. Isto porque é frequente as crianças com PHDA apresentarem também comportamentos frequentes de oposição. Porém, há algumas diferenças importantes: por exemplo, se na criança com PHDA os problemas de comportamento têm origem na sua impulsividade, no caso das crianças com POD estes comportamentos são deliberados e intencionais. Enquanto que a criança com PHDA se arrepende dos seus erros, a com POD geralmente não assume os seus erros e chega até a culpar os outros dos seus actos. Se a criança com PHDA tem muitas dificuldades em manter a atenção/concentração devido a défices significativos que não consegue controlar, a com POD pode também ter comportamentos de distração, mas devido a desinteresse ou oposição.

Quais são, então, as principais características de uma criança com POD? Em geral, são crianças com problemas de “atitude”, estão sempre a esticar a corda, a testar os limites, especialmente em relação às figuras de autoridade. Se em determinadas idades estes comportamentos são considerados “normais” para o seu estádio do desenvolvimento, como aos 2/3 anos ou no início da adolescência, nos casos de POD estes são mais intensos, generalizados e persistentes. São crianças muito birrentas, que se encolerizam facilmente e que estão sempre a discutir com os adultos, desafiando a sua autoridade e recusando a obedecer às regras. Tentam deliberadamente aborrecer os outros, acusando-os dos seus erros ou maus comportamentos e parecem não sentir culpa ou remorso. Amuam facilmente quando se sentem contrariados, chegando a sentir raiva ou ressentimento excessivo, e guardam rancor, chegando a ser vingativos para com os outros.

Se todas as crianças são de alguma forma “teimosas”, nestes casos, a intensidade e frequência destes comportamentos é de tal ordem que interfere no comportamento da criança e acaba por ter um grande impacto em todos os que a rodeiam. São crianças muito desgastantes para os pais, professores e colegas, devido aos conflitos constantes. Na família, tende a criar-se um ciclo vicioso em que os pais e a criança revelam o pior de cada um… Em geral, quando recuamos no tempo na sua história de vida, este padrão de temperamento difícil já dá sinais desde tenra idade.

Será que estas situações de POD são “fases” que poderão passar com  o tempo? Talvez o melhor não seja esperar… Na maioria dos casos, se não houver uma intervenção especializada, que inclua não só a criança como também a família, este padrão de comportamento não tende a passar por si só. Se identifica muitos destes sinais no seu filho, não hesite em procurar apoio psicológico. É possível viver em família num ambiente mais harmonioso!

 

Susana Matos Duarte

Psicóloga Clínica – Oficina de Psicologia

*artigo exclusivo para Barrigas de Amor®

Logo