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Psicologia

6 de Novembro de 2014

Hiperatividade ou agitação comum na infância? Como resistir à pressão de medicar o seu filho sem necessidade

hiperatividade

Tenho um filho lindo. É esperto e ativo. Fico encantada ao vê-lo a criar brincadeiras com um bocado de madeira qualquer ou uma fita que veio num embrulho de algum presente. O meu querido menino, que se parece fisicamente com o meigo e calmo Pequeno Príncipe, na verdade, pode ser definido assim: Tinha o olho maior que a barriga. Tinha fogo no rabo. Tinha vento nos pés. Umas pernas enormes (que davam para abraçar o mundo) e macaquinhos no sótão. Sim, é O Menino Maluquinho, personagem do Ziraldo não pára. Nunca. Corre todo o dia. Pula sem parar. Pensa que é o Homem-Aranha.

Imagina? Sobe e desce do sofá da sala como se estivesse no mais alto edifício da cidade. E é assim em qualquer lugar.

Remédio para acalmar as crianças?

Claro que às vezes o meu filho tira-me do sério e tenho que respirar fundo, acalmar-me e entender o que se passa com ele. E, por conta desse comportamento, uma vez alguém me perguntou: conhece um “remédio” chamado Ritalina? É muito bom para acalmar as crianças…

Como? Só tem dois anos (na época do ocorrido). Era um bebé no outro dia. É só uma criança a explorar o ambiente! Não quero que se acalme. Quero que seja ativo, que saiba tudo o que está a acontecer ao seu redor! Não, não respondi assim à pessoa. Fiquei muda. Não acreditei que tinha ouvido aquilo. Fingi que não ouvi. Eu, uma simples mortal, que apenas já tinha lido algumas coisas sobre TDAH, ouvi de uma pessoa que estudou quatro anos medicina e sabia muito bem do que se tratava o “remédio”.

Quantas crianças por esse mundo fora estão a ser medicadas apenas para ficarem quietinhas, para não serem inconvenientes diante dos amigos dos pais, na escola, na igreja, no parque? E aí mora o perigo dessa questão. O uso desenfreado de um medicamento que pode tornar a pessoa dependente está a ser distribuído para resolver, muitas vezes, o mau comportamento de crianças e jovens.

(…)

TDAH ou agitação comum da infância?

De acordo com especialistas que acreditam na existência desse problema, o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e que pode acompanhar o indivíduo em toda a sua vida. Os sintomas são desatenção, inquietude e impulsividade. Para tratá-los, os médicos recorrem ao medicamento conhecido como Ritalina que acalma e focaliza a pessoa para uma única atividade. Os efeitos colaterais do uso do remédio são muitos. Entre eles estão: perda de apetite, dores de cabeça, sensação de opressão no peito, taquicardia, tremores e mãos úmidas, boca seca, aumento da ansiedade, entre outros. Pode causar também crise de ansiedade ou pânico, surto psicótico e pensamentos suicidas, especialmente em pessoas que tenham tendência, incluindo crianças e jovens. Para crianças com problemas de desenvolvimento da altura e hormonais a medicação não é recomendada.

Não sei, mas esses efeitos colaterais deixam-me muito preocupada já que o medicamento estará a atuar num corpo tão pequeno como o de uma criança.

O psiquiatra Allen Frances, autor do livro Saving Normal, ainda sem tradução para o português, também se tem preocupado com esse tema. Em 1994 foi o diretor do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, que é a bíblia dos psiquiatras, diz que os diagnósticos mentais estão a engolir a normalidade e que as dificuldades diárias têm vindo a ser resolvidas com medicação tarja preta. Especialmente sobre o TDAH, o psiquiatra diz que 3% das crianças podem ter esse transtorno, mas que nos Estados Unidos, 11% são diagnosticadas com o problema. Mostrando então, que muitas delas são medicalizadas sem necessidade. Sobre isso, Frances afirma: “Fazemos um vasto e descontrolado experimento das nossas crianças, banhando os seus cérebros imaturos com produtos químicos fortes sem saber os seus efeitos de longo prazo. Os pais precisam de tornar consumidores informados e proteger os seus filhos”.

Alternativas ao medicamento

Algumas mudanças na rotina das crianças podem ser alternativas ao medicamento, caso não seja uma opção para a família oferecê-lo à criança. O comportamento dela pode ser melhorado com:

– mudanças na alimentação;

– inclusão de atividades como pintura, música, brincadeiras ao ar livre;

– aprendizagem de algum tipo de luta, aula de meditação;

– ou até mesmo o cancelamento de atividades agendadas;

– Tudo pode ser na companhia de profissionais da área que não queiram em primeiro momento receitar a medicação.

Algumas vezes o problema que a criança está a enfrentar pode ser outro como falta de visão, então não consegue aprender e seguir os colegas na escola, ou ansiedade por discussões e brigas na família. Se o “diagnóstico” surgiu na escola, mais uma vez é importante ter cautela, pois em muitos casos é a escola que não sabe lidar com as diferenças. Cada indivíduo tem a sua personalidade e a sua forma de aprender. Não dá para colocar todos dentro da mesma caixinha. Portanto, o diagnóstico de TDAH precisa de ser melhor estudado.

Pais, não deixem que este ou qualquer outro tratamento direcionado ao seu filho seja dado e definido numa única consulta médica. Pesquise, procure, informe-se antes de tomar qualquer decisão.

Fonte | Família