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Cirurgia Pediatrica

10 de Maio de 2013

Grandes debates à volta do biberão (I)

O J. é quem prepara sempre o biberão à noite. Com a M. queixava-se imenso mas agora com o B. parece que não custa nada sair da cama à quatro da manhã, ferver água, juntar o pó, agitar e voltar a fazer todo o percurso de volta. Hoje, quando voltou para o quarto, soltou um desabafo: “ o que vale é que já não preciso de ferver a água!” Fiquei preocupada…

Com toda a dificuldade em alimentar o MM, normal depois do que ele passou, a única forma de avaliar se ele cumpria os mínimos foi através da alimentação por biberão. Duas questões pertinentes sobre biberões. Esterelizar ou não o biberão? Ferver ou não a água quando é necessário preparar leite de fórmula (ou adaptado)?

Pensem nisto. O mundo em que vivemos não é estéril. Tudo em que tocamos está inundado de bactérias. A nossa pele está inundada de bactérias. A nossa boca está inundada de bactérias. A pele e a boca do bebé também estão inundadas de bactérias. Chamamos-lhes a nossa flora comensal. E, como bons comensais, nós acolhemo-los em nossa casa e eles ajudam-nos a combater as bactérias patogéneas (malvadas), competindo com elas pelo espaço e pela comida. Quando temos uma infecção bacteriana é porque existe um desequilíbrio de forças e as bactérias ‘malvadas’ suplantam as bactérias ‘amigas’. Em teoria, um ambiente estéril é mais susceptível de ficar doente, porque não tem a flora comensal para lhe ‘fazer frente’.

Mas faz mal esterilizar o biberão? Quando esterilizamos um biberão, estamos a eliminar todos os patogéneos nele contido, mas, mal pegamos nele, com as nossas mãos (mesmo que bem lavadas) estamos a contaminá-lo. O próprio ar ambiente não é estéril. Logo, também contamina. Então, quando chega à boca do bebé, é o ‘fungagá da bicharada’. Esterilizar tetinas, biberões, chupetas não está errado, mas é um trabalho desnecessário. Uma boa lavagem com água corrente (que não precisa sequer de ser escaldada) é suficiente para limpar a sujidade dos instrumentos e correr com a maioria das bactérias. O suficiente para que o tal equilíbrio de forças na flora comensal da boca e do intestino do bebé, se manter inalterado.

O mesmo raciocínio está por trás da fervura da água. É uma tentativa de esterilizar uma água que, se for engarrafada ou da torneira devidamente testada e comprovadamente potável, não se espera que tenha patogéneos suficientes para desequilibrar a flora intestinal do bebé. Para além do mais, se não esperarmos que a água arrefeça até cerca dos 40ºC, estaremos a destruir grande parte dos nutrientes do leite em pó. Assim, ferver a água sim, mas apenas quando temos dúvida sobre qualidade da mesma. Não é fácil quebrar esta tradição de ferver a água, uma vez que as próprias latas de leite de fórmula dizem aos pais para o fazer. Na dúvida sobre a qualidade da água de quem compra as latas, eu faria o mesmo. De qualquer forma, pediatras reconhecidos como o Prof. Mário Cordeiro e o Prof. Paulo Oom apresentam argumentos semelhantes aos que vos deixo aqui e também eles abdicam da fervura da água.

Cá em casa, a população ainda não está convencidas a deixar de ferver a água (e não é só a Mãe), mas espero, com este post, não ter mais de preparar o biberão às escondidas.

Dr. João Moreira  Pinto
E os Filhos dos Outros