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Cuidados ao Bebé

28 de Julho de 2014

Fissura e marisca

É muito frequente recebermos na consulta de cirurgia pediátrica por crianças doenças anais ou perianais. Uma das patologias mais encontradas é a fissura anal. A fissura anal é uma ‘brecha’, uma ferida na mucosa do ânus. Na maior parte das vezes, ela é provocada pela passagem de fezes duras pelo esfíncter. Manifesta-se por dor na defecação, por hemorragia (sangue vermelho vivo) ou pelo aparecimento de uma prega na margem anal (amarisca sentinela). Esta marisca é o resultado do processo inflamatório crónico da fissura. Ela própria pode ser causa de dor e até hemorragia, pelo que é muitas vezes confundida com uma hemorróide. A hemorróide é uma dilatação das veias (estilo variz) que suprem a região anal e são muito raras nas crianças.

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Na criança, o tratamento da fissura anal é conservador, isto é, não necessita de cirurgia salvo raras excepções.* A estratégia obriga a dois passos fundamentais:

1) Se houver queixa de dor, aplicar um analgésico tópico, como o Faktu, por exemplo. Se não conseguirmos controlar a dor que a criança tem a defecar, ela vai reter as fezes. Se não tinha anteriormente, a criança com uma fissura desenvolve sempre obstipação. Como lhe dói, evita fazer cocó. Logo, vai ficando cada vez ‘mais presa dos intestinos’. Reverter esta obstipação pode ser uma verdadeira dor de cabeça, o que nos leva à segunda atitude.

2) Amolecer as fezes. Numa fase inicial, é obrigatório que as fezes saiam moles, para que a fissura não continuem a ‘rasgar’ a mucosa ferida a cada passagem, pelo que é obrigatório o uso de laxantes. O Laevolac (lactulose) é uma opção fácil, porque é de venda livre, mas convém sempre informar-se junto do farmacêutico qual a dose certa para o peso da criança. Existem outros laxantes mais potentes, mas que exigem prescrição médica.

3) Limpeza e desinfecção da ferida. Como expliquei anteriormente a fissura é uma ferida, pelo que precisa de cicatrizar. Ela só cicatriza se se mantiver limpa. Como o ânus é um local propício à sujidade, terá que ser lavado várias vezes por dia. Pelo menos, uma vez de manhã, uma à noite e de cada vez que houver dejecção. Se a criança não colaborar com a desinfecção, os chamados ‘banhos de assento’ podem ser a única solução. Existem vários produtos para fazer a chamada ‘higiene íntima’ (não precisa de ser específico para crianças), mas, se houver em casa Betadine espuma, este serve perfeitamente.

O tratamento pode demorar cerca de um mês, mas evita na maior parte das vezes uma cirurgia. Para que não volte a acontecer, serão necessárias tomar medidas para manter um trânsito intestinal regular. Isso será tema para um futuro post.

*No adolescente e no adulto, a fissura anal deve-se geralmente a uma hipertonia (aumento do tónus/força basal) do esfíncter anal. Estas sim exigem uma cirurgia que consiste na secção das fibras circulares internas deste músculo – a esfinctermiotomia lateral. 

Nota final: Este texto faz parte de uma lista de pedidos que tenho recebido. Eles vão acumulando e a lista está a ficar longa. Agradeço tantas sugestões. Às leitoras que me escreveram entretanto, peço-lhes mais um bocadinho de paciência… Não estão esquecidas.

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