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Educação Financeira

20 de Abril de 2013

Finanças do Casal: como deve um casal gerir o dinheiro?

Sempre fui muito independente em relação à gestão das minhas finanças. Preocupa-me a situação actual e agora que passámos a ser dois, eu e o J. temos dúvidas sobre qual a melhor forma de gerirmos o nosso dinheiro…  contas separadas ou conta conjunta? Como dividimos as despesas? E tenho tantos projectos para realizar….

Um casamento pode facilitar ou dificultar a realização de desejos e projectos pessoais. Alguns casais conseguem trilhar um caminho de sucesso e estabilidade financeira, através de uma actuação em cooperação, conseguem somar inteligências, recorrem ao diálogo permanente e demonstram um respeito mútuo. No entanto, existem igualmente situações que levam à frustração e a momentos de conflito.

As questões financeiras estão na base de muitas tensões na vida em família, como começo por apresentar alguns dados relevantes:

  • Metade dos casamentos em Portugal acaba em divórcio. Essa é a realidade crua ditada pelas estatísticas do INE – Instituto Nacional de Estatística. Na base de muitos divórcios estão questões de cariz financeiro…
  • O poder do casamento, tanto para multiplicar quanto para destruir riqueza, foi medido em 2005 por um estudo da Universidade Ohio, nos Estados Unidos, que acompanhou 9 mil pessoas durante 15 anos. Tratando-se de prosperidade média, a análise mostrou três grupos bem definidos:
  • No meio, os que permaneceram solteiros, que enriqueceram de forma lenta e regular.
  • No extremo oposto: os que casaram, tiveram uma má experiência e acabaram por se separar . Eles perderam, em média, 77% do património…
  • Um terceiro grupo: os que casaram e permaneceram casados – eles acumularam, na média, 93% mais riqueza que os solteiros.

Conversar sobre projectos e dinheiro
O dinheiro é apenas um meio para realizar fins. As jornalistas de economia americanas Paula Szchuman e Jenny Anderson, para escrever o livro Spousonomics (sobre a aplicação de princípios económicos aos relacionamentos), ouviram casais de várias regiões dos Estados Unidos. Foram identificadas dificuldade de comunicação: 42% dos casados referiram já ter escondido informações financeiras importantes do parceiro. Entre os motivos alegados estão a vergonha e o medo de provocar uma discussão.

Segundo o psiquiatra Luiz Cuschnir, chefe do grupo de estudos do Hospital das Clínicas de São Paulo, “não é bom policiar os gastos do outro – um erro comum e gerador de conflitos, principalmente entre casais jovens”. O casal deve partir de conversas simples ao nível dos aspectos financeiros do casal, como os gastos fixos da casa, para depois chegar aos mais complexos, como investimentos e projectos de longo prazo.

O casal deve avaliar de forma progressiva o seu orçamento familiar. Há mudança nos salários, as despesas são outras, novas necessidades, novos rumos…

Crie espaços: o seu, o meu e o nosso
Somar os ganhos individuais e decidir em comum acordo como usar o dinheiro. Esse é o modelo preferido de administração doméstica para 61% dos casais britânicos que participaram num estudo da Universidade de Portsmouth. Para 18% dos casais, é preferível contribuir com quantias iguais para as despesas comuns e manter relativa independência.

Outros especialistas recomendam a criação de três espaços para o dinheiro: um comum e um para cada cônjuge. O bolo comum serve para pagar contas da casa, juntar dinheiro para projectos de ambos e fazer tipos de investimentos que não estariam ao alcance dos dois separadamente. As contas separadas servem para pagar  pequenas compras individuais, emergências futuras e parte da reforma de cada um. A organização dá trabalho, mas vale a pena. Ninguém pode abrir mão da segurança individual (não é razoável viver na suposição de que o casamento vai durar para sempre) e renunciar totalmente à independência financeira pode ser muito frustrante.

Em vez de tentar mudar o outro, faça acordos
É muito difícil (não impossível) mudar a maneira de uma pessoa lidar com o dinheiro. Essa parte da personalidade parece ser formada na infância. Por isso, tentar transformar radicalmente o parceiro pode trazer mais brigas que resultados. Em vez disso, experimente fazer acordos. Com a devida dose de conversa, o casal pode chegar a combinações satisfatórias específicas para gastos, organização e investimentos….

Envolva os filhos desde cedo – e dê o exemplo
Os parceiros precisam decidir como vão educar as crianças nesse assunto – e devem estar cientes de que filhos sem educação financeira ou que recebem dos pais mensagens muito desencontradas tendem a criar mais problemas para o casal no futuro. Trata-se de um belo desafio, pois a própria chegada dos filhos tende a dificultar o equilíbrio do orçamento.

Tenha sonhos de curto, médio e longo prazo
Os projectos ambiciosos dão muita satisfação a quem chega lá, mas pode ser frustrante perseguir apenas objectivos distantes. A vida financeira dos dois não pode se basear só no sacrifício do presente em nome do futuro. O casal tende a ser mais feliz se valorizar pequenas viagens e melhorias na casa, enquanto segue para voos mais longos, como comprar a casa dos sonhos ou morar um período no exterior. Ao realizar os objectivos mais simples, os dois se sentirão animados a perseguir as metas maiores…

Dr. Ricardo Ferreira

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