Mães e Pais na 1ª Pessoa

Catarina Beato 

Dias de uma Princesa

[filhos]

num comentário disseram-me que, quando o A. lesse este blog, sentiria que o amor que sinto pelo G. é maior do que aquele que sinto por ele.

eu e o G. conhecemos-nos há 11 anos, passamos por muita coisa juntos, só os dois. já escrevi sobre isso:
Afonso,
Vou contar-te um segredo: eu não queria (muito) ter outro filho. O Gonçalo já tinha oito anos, já ficava com os avós e eu podia sair à noite ou trabalhar, sem sentimentos de culpa pela ausência. A memória, algures desaparecida depois da gravidez e do parto, já tinha voltado e até conseguia ler um livro inteiro em poucos dias. A casa estava pensada para a mim e para o teu irmão: pequena mas bem localizada, um quarto para cada um. Eu e o teu irmão tínhamos um amor construído, as arestas limadas e a rotinas acertadas. Era tudo fácil.

quando o G. nasceu eu era uma miúda. quando o A. nasceu eu já era mãe. eu e o G. temos a cumplicidade de um adulto e um pré adolescente que me conhece. atura-me há muito tempo. sabe quando estou bem e estou triste mas tento esconder.

o A. tem dois anos. é um bebé porque sou completamente apaixonada. quem visitar o meu Instagram achará que amo mais o A. porque o fotografo mais. obviamente, ainda deixa.

sim, a minha vida tem muito mais do G. do que do A.. sim, amo-os de formas completamente diferentes. não, o A. nunca achará que amo mais o irmão. dessa parte eu tenho a certeza. porque é mentira e porque quando souber ler este blog terá tanto dele como tem do irmão. e não tem apenas o meu amor, tem o amor de um irmão mais velho, que o G. nunca terá.
Há dois anos, deixei o teu irmão a dormir profundamente e apanhei um táxi que me levasse, o mais depressa possível, ao hospital mais próximo. Deixei em casa uma prenda “tua” para que a entregassem ao Gonçalo quando acordasse e ficasse, assim, a saber que já era “o irmão mais velho”.
Foi muito bom fazer-te nascer. Muito rápido e muito intenso. Mas aquilo que guardo foi o instante em que te vi. E, como descrevem nos filmes de domingo à tarde, o tempo parou, o resto do mundo desapareceu, e gritei:
– Afinal amo-te, afinal amo-te.
Apaixonei-me, perdidamente.
Apaixonámo-nos, eu e o Gonçalo, que amo ainda mais, porque, descobri, é o melhor irmão do mundo. E as nossas vidas não tinham nem metade do sentido sem a confusão e o mimo que nos trouxeste.

13.12.2013 - A

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