Atualidade

28 de Maio de 2015

Filhos: exigência ou sobreproteção?

Teresa telefona a Tânia para combinar um encontro.

Tânia: Adorei o seu telefonema até porque percebi pelo tom de voz que está mais tranquila.

Teresa: É verdade. Nem sei como lhe agradecer a referência da Joana!

Tânia: Tem corrido bem?

Teresa: Muito bem! Tanto eu como o Pedro estávamos apreensivos até porque nunca tínhamos ido a um psicólogo. E acho que temíamos ser acusados de ser os grandes responsáveis pelos comportamentos do António.

Tânia: Não sei se isso ia ajudar muito…

Teresa: Acho que estamos todos a fazer um caminho. Começámos por ter consultas todos juntos. Foi muito bom porque há muito tempo que não conseguíamos comunicar verdadeiramente. Acho que foi determinante termo-nos ouvido e falado como cada um se sentia nos momentos mais difíceis.

Tânia: Imagino… E com alguém a mediar também ajuda não é?

Teresa: Sim. É isso mesmo. Ela nunca nos deu receitas. Acho que com as perguntas que fazia nos obrigava a perceber que ingredientes é que tínhamos que por mais e os que estávamos a por menos. Mas isso foi mais na consulta só com os pais.

Tânia: E o António?

Teresa: Vai agora começar as consultas mais a sós com ela. Mas as coisas já melhoraram muito.

Tânia: Pois, estou a ver! Mas isso só é possível em famílias que têm competências…

Teresa: Que engraçado! Isso foi o que ela nos disse! A minha vida também estava demasiadamente centrada no António. Eu já não estava a conseguir respirar mas nem tinha dado por isso. Era difícil deixá-lo com os avós. Já basta nos dias em que estou sem ele quando ele está com o

Pedro… E de facto o António estava a ter um poder demasiado na minha vida. Com a Joana percebi que isso era muito desorganizador para ele.

Tânia: Achamos que estamos a fazer o melhor…

Teresa: Algumas coisas sim. Mas noutras sabia perfeitamente que estava a errar. Quando fingia que não percebia certas reacções e as ignorava. Por outro lado, reagia com muita zanga e agressividade noutros momentos, até por acumulação daqueles em que não reagia. Ele também devia ficar muito baralhado e assustado. Chegámos a um ponto em que já não sabíamos falar.

Tânia: Quer dizer que as coisas melhoraram…

Teresa: Isso, sem dúvida. O António está mais calmo e todos nós também. Já consigo ser mais firme porque percebi que era muito isso que ele me estava a pedir. Mas principalmente percebo que o ajudou a ter um maior controlo nas suas reacções.

Tânia: De facto parecem grandes progressos.

Teresa: Está longe de estar perfeito, Tânia. Mas pelo menos já não temos tantos dias maus.

Tânia: O caminho faz-se andando. E o que me parece é que vocês estão a andar.

Teresa: É verdade. Mas ainda temos um caminho longo pela frente…

Tânia: Que vai ser sempre a melhorar!

Teresa: Esperemos que sim. Obrigada por tudo, Tânia. Daqui a uns tempos volto a dar notícias. Boas! Espero!

Tânia: Tenho a certeza!

Qualquer posição extremada no estilo de relação pais/filhos, seja negligência ou sobreprotecção, acarreta consequências sérias para o futuro e desenvolvimento sócio-afectivo da criança. Uma ou outra posição deixa a criança demasiadamente entregue a si própria, sentindo-se perdida.

A sobreprotecção eleva os direitos da criança e não promove uma exigência das suas obrigações, e não a leva a um verdadeiro confronto com as suas limitações. E este confronto revela-se fundamental, pois é através dele que ela vai aprender a frustração e a motivação para se suplantar e ultrapassar por si própria as suas dificuldades. Saber esperar, negociar, conciliar são capacidades essenciais ao serviço da relação com os outros.

Como pais precisamos ter coragem de não cairmos na tentação de nos substituirmos aos filhos a todo o momento. Ir gradualmente proporcionando oportunidades para que assumam mais responsabilidades, vai torná-los mais seguros e autónomos.

Famílias onde toda a sua vida gira em torno dos filhos e quase em exclusivo das suas necessidades, sem fronteiras entre o mundo dos pais e o mundo dos filhos contribui certamente para o aumento de sentimentos de egocentrismo na criança. Este vai dificultar grandemente a capacidade de empatia com o outro. Ou seja, ela terá grandes dificuldades em colocar-se no lugar do outro, compreender o que o outro sente, valorizando muito mais as suas próprias vontades e desejos.

Neste contexto há o perigo de crescer com uma visão distorcida da realidade. Ou seja, viver na ilusão de que é o centro do universo. Todos sabemos que ao longo da vida, estará menos no centro e mais na periferia. Momentos em que nos destacamos exigem esforço e perseverança. Não podemos fazer com que os nossos filhos cresçam na convicção e esperança de que estes são momentos adquiridos à partida, sem qualquer razão.

Certas circunstâncias que marcam o ciclo de vida da criança ou da família podem contribuir para estabelecer um relacionamento pais/filho mais sobreprotector. Uma doença ou acidente ocorrido na fase inicial do ciclo de vida da criança ou o divórcio dos pais pode determinar uma forma mais benevolente e permissiva de educar. É comum a existência de culpabilidades que levam os pais a constantes formas de compensação relativamente à criança.

As crianças são seres sensíveis e rapidamente se apercebem desta fragilidade dos pais. Sentem que têm poder e adoptam condutas de exigência e manipulação desde muito cedo.

Seja por características inerentes à personalidade da criança, seja por circunstâncias particulares ao ciclo de vida da própria e da família ou por estilos parentais demasiado protectores ou negligentes – filhos e pais desenvolvem relações onde a comunicação, o respeito e a saudável convivência têm cada vez menos oportunidade de existir.

Este pode ser um bom momento para os pais procurarem o médico pediatra da criança para discutirem com ele as suas dificuldades e solicitarem orientações. É comum o pediatra poder fazer a orientação da família para um ou vários técnicos de saúde mental – psicólogo, terapeuta familiar ou pedopsiquiatra – consoante as preocupações e dificuldades de cada criança e família.

Estes períodos em que a família procura ajuda ou apoio, traduzem a sua boa capacidade de aceitação ou reconhecimento das suas limitações. Ter esta sensibilidade e capacidade vai ajudá-la a parar, pensar e em conjunto voltar a reinventar-se.

Há momentos de verdadeiras dificuldades onde a família tem a sensação que estagnou, que não consegue “continuar a escrever a sua história”. Ter alguém que nos ajude a criar novas narrativas, novas formas de fazer, novas formas de agir, vai devolver o sentido de competência que nestes momentos se sente perdido.

Fonte: Público