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Psicologia

5 de Novembro de 2014

Família com filhos na escola e com filhos adolescentes: que exigências?

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É num contexto de amor, de conhecimento e de vivências pessoais que se desenvolvem muitas das relações familiares, dentre as quais se destaca a parentalidade, uma das primeiras descobertas em família que traz muitas novas questões: Serei bom pai/boa mãe? Serei muito rígido/a? Serei demasiado tolerante? Serei competente na educação que dou ao meu filho?

Tendo em consideração uma visão desenvolvimentista da família, pode identificar-se uma sequência previsível de transformações na organização familiar em função do cumprimento de tarefas bem definidas; a essa sequência dá-se o nome de Ciclo Vital da família e essas tarefas caracterizam as suas etapas que se concretizam no caminho que a família percorre ao longo da vida de um núcleo familiar (Relvas, 1996).

Neste artigo, irei debruçar-me sobre duas das etapas mais importantes no desenvolvimento de uma família: família com filhos na escola e família com filhos adolescentes.

Família com filhos na escola

Quando uma criança entra na escola, dá-se uma mudança significativa na vivência interna da família e nas relações que ela estabelece com os outros sistemas, com particular destaque para a instituição escolar. A família, nesta altura, vê as suas funções interna e externa testadas. Quanto à função externa, são avaliadas a capacidade de socialização e adaptação da criança, ou seja, a forma como se relaciona com os outros (adultos ou crianças) e os seus resultados escolares derivados da sua capacidade de aprender (Relvas, 1996; Alarcão, 2006).

A separação e a autonomização são tarefas importantes, dando-se um conjunto de alterações que levarão a uma maior diferenciação intra-sistémica e acentuada abertura ao exterior (Alarcão, 2006). Os pais ouvem as angústias dos filhos, ajudam-nos nas suas dificuldades mas, ao mesmo tempo, vão-lhes dando mais autonomia, sem descurar o estabelecimento de regras e de normas de atuação. É importante compreender que “não só a criança se vai separando e autonomizando dos seus pais como estes o vão fazendo em relação a ela” (Alarcão, 2006, p. 160), ou seja, os subsistemas parental e filial aprendem, a partir deste momento, a lidar com a abertura ao exterior.

Família com filhos adolescentes

Nas palavras de Bléandonu (1999, p. 145) “a adolescência constitui uma fase crucial no desenvolvimento de qualquer ser humano”, em que a tarefa fulcral consiste em alcançar a autonomia, isto é, a separação do adolescente e dos pais (Fleming, 1993). Esta autonomia parece ser mais evidente em filhos de pais que encorajam a separação gradual (Fleming, 1993).

Porque os adolescentes vivem em família, a literatura tem destacado duas tarefas principais

nas relações intergeracionais pais-filhos: independência/autonomia almejada pelos adolescentes e interdependência/incorporação esperada pelos pais. Então, permanece a seguinte questão: de que forma este desacordo intergeracional é adaptativo ou desadaptativo para os adolescentes (Kwak, 2003).

Os adolescentes esperam que os adultos respeitem os seus sentimentos, valores, atitudes e comportamentos (Alarcão, 2006), o que implica o início da negociação entre pais e filhos, sendo um processo gradual de confirmação e de respeito. Vai-se, assim, superando uma relação definida pela autoridade assimétrica para uma relação de paridade (Gammer & Cabié, 1992).

Nesta etapa, alguns pais podem correr o risco de exercício de um maior controlo dos seus filhos, quer ao nível das relações, quer ao nível do que podem ou não fazer. Por isso, “a comunicação corre sérios riscos de disfuncionamento e a separação e a autonomia afetivas não são verdadeiramente alcançadas” (Alarcão, 2006, p. 170). Por outro lado, outros pais tornam-se demasiado permissivos por receio que os filhos se tornem contestatários, desconhecendo que os adolescentes devem seguir regras claras, precisas e coerentes, conciliando a persistência com a segurança e a flexibilidade (Alarcão, 2006).

No estabelecimento da autonomia, torna-se imprescindível para o adolescente um certo afastamento dos pais e um maior investimento na relação com o grupo de pares.

Importa, pois, que os pais compreendam que, nesta fase, os filhos têm necessidade de fazer novos investimentos fora da família e que o seu papel agora é o de estar atentos, de mobilizar sem dirigir, de apoiar nos fracassos e incentivar nos êxitos, de estar com eles e respeitar cada vez mais a sua individualização (Sampaio, 1994).

Concluindo…

Na verdade, ser-se pai/mãe é, hoje em dia, um desafio cada vez mais acrescido: se por um lado o tempo em família escasseia, por outro a informação em relação á educação dos filhos é cada vez mais constante, o que leva ao surgimento de cada vez mais dúvidas. Em ambas as etapas, salienta-se a importância de uma comunicação aberta e funcional, mas que ao mesmo tempo permita a individualidade e a autonomia dos seus elementos.

Acreditamos que todos temos as competências necessárias para sermos bons pais e boas mães, bastando acreditarmos que, através do desenvolvimento de uma relação afetiva forte, os nossos filhos confiarão em nós todas as dúvidas que lhes surjam.

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Natália Antunes

Psicóloga Clínica

Oficina de Psicologia

Mestre em Psicologia Clínica – Subespecialização em Sistémica, Saúde e Família pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.

Doutoranda do Programa Interuniversitário de Doutoramento em Psicologia Clínica, Psicologia da Família e Intervenção Familiar