Mães e Pais na 1ª Pessoa

Sofia Fernandes 

A Nuvem da Sofia

Facilidade e facilitismo

Ponderei um pouco antes de publicar este post pois o tema é propício a vozes moralistas que poderão criticar com ou sem conhecimento de causa.

Hoje escrevo sobre o grau de simplificação, ou de descomplicação, que podemos ter com uma família grande para gerir, embora também haja muitos pais de filhos únicos que querem ou que conseguem não proteger em demasia os filhos.

Quando existem várias crianças, acho que é humanamente impossível seguir cada um dos seus passos ou estar constantemente a vigiá-las. É duro dizer isto, mas há momentos em que os pais têm de aceitar uma certa probabilidade de risco ou de perigo real em benefício de uma urgência ou de outro perigo maior.
Passo a explicar e a exemplificar.
Estou bastantes vezes sozinha com as três crianças. Entre ficar em casa com elas fechadas ou ir arejar para um jardim ou um parque, prefiro a segunda. Ora, é claro que as mais velhas não ficam quietas ou andam tranquilamente de mão dada.
E já aconteceu algumas vezes ir a correr tirar a Catarina da frente de um baloiço para não levar com outra criança, ou então impedir que a Margarida mergulhe no lago dos patos quando se debruça para lhes dar pão. E tenho de deixar por breves momentos o carrinho de bebé sem vigia para poder “salvar” uma das outras, embora fique com as pulsações a 200 só de pensar que me possam levar a Violeta.
Outra situação. Estamos em casa, é hora de dormir e a Catarina chora porque deixou o Nenuco no carro. A Violeta já dorme e a Margarida está a lavar os dentes. Ou acordo a bebé, agasalho as três e vamos todas à garagem já noite escura, ou pego nas chaves e vou lá em menos de um minuto? Acho que percebem o ponto…
Doenças. Com a Margarida, fugia a sete pés de pessoas constipadas ou de sítios com muita gente. Urgências de hospitais só ia mesmo em casos graves. Agora, seja o que Deus quiser. Bom, não será bem, bem, assim, mas por norma até acho que devem ficar imunizadas o quanto antes.
Jantar de domingo. Aos fins-de-semana, sobretudo aos domingos, costumamos almoçar tarde em família. Para além da refeição, as miúdas passam a tarde a “petiscar” os mimos que a avó faz, ao que eu tento fechar os olhos. No fim do dia, já com banhos dados e toda a gente de rastos, vou estar a ter trabalho ou insistir para que comam um jantar substancial? Não me parece nada razoável. Comem sopa, que há sempre, e uma sandwich ou uns ovos estrelados caso ainda tenham fome. Poderá considerar-se maus tratos? Acho que não…
E há muitos mais exemplos. Se há situações que não admitem facilitismos de forma alguma (segurança rodoviária, higiene, piscinas, etc.),há outras tantas que, ou se simplificam, ou entramos num estado de exaustão e de ansiedade que nos tira o prazer de estar com as crianças.
Nestes casos incluo ir a casas de banho públicas (agora forro os assentos com papel e não as deixo tocar em nada; antes, simplesmente não ia); quererem usar manga curta com frio (na idade delas também tinha sempre calor); descerem sozinhas as escadas para o jardim (a queda não é assim tão grande e cair uma vez serve de lição), e muitas mais situações que representam ganhos de emancipação e de liberdade para as crianças e para nós, pais.
À medida do seu crescimento e da sua própria responsabilidade, penso que deveremos ir dando graus crescentes de autonomia às crianças e de tranquilidade para nós, e estaremos também a contribuir para a sua auto-estima e para um são equilíbrio familiar.
Tanto conheço pais que deixam ir crianças de 11 anos para a escola sozinhas de autocarro (estamos a falar de três paragens…), como de outros que, com a mesma idade, nem os deixam fazer pequenos recados à mercearia do outro lado da rua.
Não pretendo com isto criticar o que cada pai/mãe faz – comecei, aliás, por repudiar esse tipo de julgamentos; mas acho sinceramente que hoje em dia há uma tendência de superprotecção que, depois, não se verifica noutras áreas talvez até mais importantes (acompanhamento escolar ou controlo dos doces na alimentação, por exemplo).
Além disso, tenho reparado que mães/pais demasiado absorvidos pelo medo dos perigos imaginários ou reais tendem a ser pais que muitas vezes culpam os filhos por tomarem todo o seu tempo e atenção.
Por aqui, tenta-se equilibrar o instinto de protecção com a independência das crianças, pontuada pelo bom senso que o cansaço muitas vezes dificulta. Mas, na maior parte das vezes, um penso rápido resolve as nossas más decisões e a educação deles agradece.

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