Mães e Pais na 1ª Pessoa

João Moreira Pinto 

E os Filhos dos Outros

Explicações e dicas para iniciação ao ski

Serve o presente texto para responder às interrogações de uma leitora no post sobre a nossa ida a Andorra com o JM. Se a iniciação do pequeno no ski tinha corrido bem? Qual seria a idade ideal para começar? Começando pelo fim, ao que sei a maioria das estâncias têm aulas de iniciação a partir dos 4 anos. Algumas terão aulas mais cedo, a partir dos 3 anos, mas julgo que a título individual. Isto prende-se com duas coisas essenciais: 1) a capacidade física (misto de força e agilidade) para a criança se equilibrar e manter os pés na posição correcta e 2) a capacidade de cumprir ordens e respeitar movimentos sequenciais algo complexos, como ‘põe os pés em forma de pizza, agora aponta a mão para o topo da montanha’, etc.

A primeira é óbvia. Uma criança que vai começar a esquiar precisa não só de se colocar de pé em segurança como precisa ter força suficiente para colocar os pés em cunha para travar e robustez suficiente para levar com o impacto das quedas. Acredito que a maioria crianças tenham estas capacidades físicas mais cedo que os 4 anos (e até antes dos 3 anos). O centro de gravidade dos pequenos é mais próximo do chão, pelo que a física trabalha em favor deles. Ou seja, equilibram-se com mais facilidade que os adultos e as quedas têm menos impacto/energia. Isto justifica o facto de não se magoarem (tanto).

A segunda condição acaba por ser a mais limitante. É entre os 3 e os 4 anos que as crianças desenvolvem a capacidade de cumprir as ordens complexas com uma sequência lógica e de repetir essa sequência a pedido de um professor (ou dos pais). Daí ser muito difícil iniciar um desporto a sério (qualquer que ele seja) antes desta idade. Antes desta capacidade de compreender e obedecer a sequências de movimentos repetidos que exigem alguma perícia física, a iniciação passa por brincadeiras mais ou menos aleatórias apenas para treinarem os movimentos que lhes serão mais úteis quando eles crescerem. Mais, a criança deverá ter a capacidade de receber a ordem, perceber o que lhe é pedido e ter vontade de cumprir. Nem sempre estas 3 características estão presentes (mesmo em crianças que já atingiram os 4 anos), mas sem elas dificilmente se conseguirá ensinar a prática de um desporto. No fundo, cabe aos pais avaliar a maturidade do seu rebento e perceber se a criança está preparada ou não.

Nesta primeira semana do JM esquiador, o rapaz mostrou-se fisicamente capaz de descer as pistas e aguentar com as quedas. Também mostrou entusiasmo em aprender, adorou simular o avião que ora levantava uma asa para virar para um lado, ora levantava a outra para virar para o outro e queria evoluir muito rapidamente (se calhar, demasiado rapidamente). Os professores que foram connosco mostraram ter uma paciência inesgostável, porque o pequeno a cada passo fugia-lhes entre as pernas. Queria descer a montanha «muito rápido». Destemido, não se calou enquanto não o levaram para a pista de saltos. No último dia, entre o olhar babado do pai e o olhar apavorado da Mãe, o JM lá foi para uma zona de saltos própria de iniciados e fez um figuraço. Acho que teve uma semana que jamais esquecerá (e nós também não).

Resumindo, guardem alguns conselhos e regras de segurança que vos poderão ser úteis para a próxima época de neve.

  1. Será a idade ideal? Todo este texto é sobre isso. Entre os 3 e os 4 anos, a criança poderá estar fisica-, pscicologica- e socialmente apta para iniciar a prática de um desporto de neve, mas não são todos iguais. Cabe aos pais perceber se eles são capazes e se estão motivados para tal.
  2. A criança deve estar bem físicamente. Isto é, uma criança bem nutrida, com uma compleição física saudável está protegida contra as quedas. Se a criança esteve recentemente doente, será má ideia sujeitá-las às agressões físicas que serão o frio e as inevitáveis quedas.
  3. As agressões físicas motivadas pelas quedas evitam-se com o uso de equipamento adequado. Este incluí vestuário  resistente e impermeável, luvas e capacete (indispensável).
  4. A protecção solar da pele e dos olhos é fundamental, mesmo quando o tempo parece encoberto. A neve é um potente reflector das radiações solares. (Podem ler aqui sobre protectores solares e aqui sobre óculos de sol.)
  5. Oferecer água constantemente. O excesso de frio e o excesso de calor propenciam à desidratação, principalmente quando estamos a praticar desporto.
  6. Ensinar convenientemente. Apesar de conhecer muitos pais que se sentem à vontade para ensinar os filhos a esquiar, eu acho que não há nada como os profissionais/professores certificados. Para além de eles aprenderem mais rapidamente, assimilam regras fundamentais de como cair bem, protegerem-se dos outros nas pistas, etc.
  7. Mil olhos serão sempre poucos. Quem já esteve numa instância já sentiu que facilmente se perde dos amigos. Os fatos e os capacetes tornam-nos todos muito iguais. Nos momentos de maior confusão, facilmente perdemos de vista os pequenos e eles também têm dificuldade em distinguir-nos no meio da multidão- E isto tanto é válido para as pistas, como para os restaurantes, lojas, parques, etc.
  8. A poderem escolher, tentem viajar no final da época. Para além das pistas estarem mais vazias, o tempo é mais quente. Nas férias da Páscoa, a neve está com menos qualidade para os grandes esquiadores, mas para os iniciados serve perfeitamente e, com o ‘degelo’ até fica mais fofa.

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