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Psicologia

7 de Março de 2016

Existe uma linha que separa pais e filhos…

Quando trocam de lugar surge a parentificação

Parenti… Quê? Explico-lhe tudo.

Numa família dita saudável são os adultos que cuidam e orientam as crianças, que, por seu turno, recebem cuidados e afeto, seguindo orientações. Contudo, por circunstâncias de vida, há casos em que são os filhos a cuidar dos pais e não o inverso. As funções teoricamente associadas ao subsistema parental são atribuídas a um ou mais elementos do subsistema filial. O filho, ou filhos, parentificados assumem responsabilidades, funções e poderes que cabem aos pais, num fenómeno que implica uma inversão de papéis e supõe uma perturbação das fronteiras intergeracionais.

Existe uma linha que separa

A  parentificação é mais frequente em divórcios, com um dos progenitores a usar os filhos como suporte emocional e, por vezes, como aliado durante ou após a separação. Também aquando do falecimento de um dos pais os filhos podem tender a ocupar o papel do pai ausente, sobretudo o filho mais velho. Se for a mãe, esta tendência recai numa filha. Outros exemplos são os das famílias monoparentais, famílias com pais toxicodependentes ou com outras adições e pais com doenças mentais ou outras incapacitantes. Em todos os casos temos o peso de ocupar o vazio deixado pelo progenitor ausente, suprindo as necessidades emocionais que eram da sua responsabilidade. No entanto, o filho não consegue preencher este vazio, podendo sentir uma sobrecarga emocional. Outras consequências indesejáveis podem ser:

– Quando adultos, as crianças parentificadas podem sentir dificuldade em privilegiar os seus desejos, planos e sonhos, continuando a sentir-se responsáveis pela realização dos desejos e necessidades dos pais. Daqui advêm conflitos e sentimentos de culpa: assumir uma relação íntima com outra pessoa poderá ser sentido como uma traição ao pai/mãe. Poderão ter dificuldades em receber, ser amados e cuidados, sentindo que a sua obrigação primordial é a de dar e cuidar. Este facto poderá acarretar dificuldades sobretudo no estabelecimento de relações íntimas. As necessidades de dependência próprias da infância não foram correspondidas, pelo que não sabem receber afeto, lidam mal com ser cuidados e valorizados. Podem ainda ter problemas na intimidade, sentindo receio de abdicar do poder e do controlo. Acresce que a proximidade pode ativar o medo de ter que voltar a assumir a responsabilidade pelo bem-estar de outrem. Muitas vezes escolhem como parceiros pessoas carentes e problemáticas, que necessitam de ser salvas. Poderão tender a fugir à intimidade e ao compromisso pelos conflitos de lealdade que enfrentam. De facto, a passagem da lealdade aos pais e família de origem para o marido/mulher é uma das principais tarefas na formação do casal. Estes conflitos de lealdade vão assumir especial relevância quando o novo casal tiver filhos. O desempenho das funções parentais sobrepõe-se, nestes casos, ao investimento na relação conjugal. Temos aqui um cocktail favorável à repetição da parentificação numa nova geração. Quando os recém-casados não conseguiram fazer a separação psicológica da família de origem, entre outras tarefas fundamentais para a sua coesão, ao nascer o primeiro filho podem não cumprir um nível satisfatório de cooperação e comunicação para satisfazer as necessidades do bebé e, em simultâneo, preservar a relação conjugal. A tendência da mãe será a de se focar no bebé, para cumprir as suas necessidades relacionais, enquanto o pai se vai distanciando. Mais tarde, quando a criança atinge a idade pré-escolar ou escolar, o divórcio pode ser inevitável. O pai, já distante, pode diminuir ainda mais o envolvimento e a aliança entre mãe e filho aumentar mais ainda a dependência e união (desproporcionadas) na sua relação. É nesta fase que a parentificação se inicia – a mãe enfrenta momentos de tensão inerentes ao processo de divórcio e, ao passar a ser a única responsável pelos cuidados dos filhos, as fronteiras geracionais confundem-se e começam a satisfazer uma parte excessiva das suas necessidades de apoio, afeto e companheirismo através dos filhos.

– Outra dificuldade remete para o tema dos limites e capacidades. Uma criança que assumiu um papel e posição de adulto torna-se excessivamente importante para o seu pai/mãe e demasiado influente no seu bem-estar. Pode desenvolver um sentido excessivo da sua importância e capacidade de influenciar os outros. Como é que uma criança que foi incentivada a promover a autoestima fragilizada dos pais, a mantê-los emocionalmente equilibrados e a tomar decisões importantes por eles pode conseguir abdicar com facilidade desta ilusão de poder?

– As crianças podem também adquirir um funcionamento tendencialmente ansioso. A capacidade de suprir as necessidades emocionais dos pais é ilusória, o que pode originar um sentido de inadequação. Quando adultos, podem desenvolver ansiedade de desempenho, com dificuldade em considerar que têm condições para alcançar metas e objetivos. Quando os filhos acreditam que são quem mantém a família unida podem ainda ter dúvidas em sair de casa e em lutar pela sua autonomia. Também a impossibilidade de ser criança e de viver a vida de criança pode fazer com que mais tarde se sinta um vazio criado pela falta de cuidados.

 

Rita Fonseca de Castro

Psicóloga Clínica e Terapeuta Familiar

 

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