Atualidade

29 de Maio de 2013

Especialista alerta para a medicação de doentes idosos

O médico e investigador António Vaz Carneiro alertou hoje para o problema da multiplicação de medicamentos receitados a doentes idosos com patologias crónicas, defendendo a necessidade de uma maior literacia de cidadãos e profissionais sobre a medicação.

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Numa oração de sapiência, intitulada “Os doentes, quem são?” hoje proferida no dia de abertura do XXV Encontro Nacional da Pastoral da Saúde, em Fátima, o médico da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, que exerce a profissão há 35 anos, analisou a medicação receitada a idosos com doenças crónicas e os problemas que causa, na componente financeira mas também na própria vida dos doentes, devido aos efeitos secundários.

De acordo com António Vaz Carneiro, dos doentes crónicos em cuidados primários quase metade (45 por cento) tem duas doenças ou factores de risco associados, 30% três a cinco e 20% – um em cada cinco – cinco doenças.

O investigador lembrou que no espaço de um século a esperança de vida à nascença cresceu “uns espantosos” 50 anos, situação que resulta das melhores condições económicas “mas a grande melhoria é devida aos remédios”, disse.

“E a cada ano novo que vamos avançando, estamos cada vez mais velhos, mais dependemos dos remédios”, frisou.

A situação “causa problemas” em países mais desenvolvidos como Portugal onde “cerca de 75 por cento da despesa com medicamentos” refere-se a doentes crónicos.

Exemplificou com o caso de uma sua doente, de 72 anos, que possui seis diagnósticos: obesidade, diabetes, hipertensão, colesterol alto, artrose no joelho e insónias.

“É a doente mais banal do SNS, tem doenças muito bem estudadas, não há dúvida nenhuma como as tratar”, disse.

O “problema”, frisou, residia na medicação necessária – sete medicamentos para um total de 14 comprimidos diários.

“Este conjunto [de medicação] tem 200 efeitos adversos e a combinação de medicação resulta em mais de 90 por cento de hipóteses de ineficácia do tratamento”, sustentou.

“Uns podem anular-se aos outros, interferem uns com os outros”, acrescentou António Vaz Carneiro.

Na ocasião, revelou um estudo israelita, realizado em 2010, sobre a eventualidade da medicação inapropriada poder gerar efeitos sérios em doentes idosos.

No estudo “crucial para responder se os idosos necessitam de todos os medicamentos” que lhes foram receitados, foram observados 70 doentes em ambulatório a quem foi retirada parte da medicação, e medidos os níveis de morbilidade (complicações resultantes), mortalidade e mudanças na saúde.

Os doentes usavam uma média de oito medicamentos cada e a 81 por cento dos doentes (oito em cada dez) foram retiradas quatro das drogas que tomavam.

O especialista defendeu a necessidade de aumentar a literacia dos doentes e dos profissionais de saúde sobre estes problemas.

Fonte: Lusa/SOL