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Ginecologia e Obstetricia

17 de Março de 2014

Escolher o sexo do bebé

Quem já ouviu falar de técnicas para escolher o sexo do bebé na altura da concepção? Muitas vezes são dietas, timings, posições, etc. Mil e uma receitas para quem quer ter uma menina. Outras tantas para quem deseja um menino. Interesso-me muito por estas ‘receitas caseiras’, porque muitas vezes antecipam conhecimentos científicos, que ainda a Medicina não conseguiu provar. Mas há truques que podemos tentar, só com o que a Ciência sabe hoje em dia.

Começando pelo básico. Os cromossomas masculinos são XY e os femininos são XX. Os espermatozóides, que são criados apartir dos cromossomas do pai, são de dois tipos X ou Y, enquanto o óvulo contém apenas material genético da mãe e será sempre X. Assim, a decisão do sexo do feto será sempre do espermatozóide. Durante a ejaculação, há mais de 200 milhões espermatozóides (X e Y) que chegam à cavidade vaginal. Só uma pequena percentagem vai encontrar o óvulo e só um deles é que vai fecundá-lo (excepção feita a alguns tipos de gémeos). Se o espermatozóide que fecunda o óvulo for X, o feto será XX (menina). Se o espermatozóide for Y, o feto será XY (menino).

 

Sabe-se hoje que os espermatozóides Y são mais rápidos, mas mais frágeis, enquanto os espermatozóides X são mais lentos mas mais resistentes. Se o acto sexual for muito mais cedo do que a ovulação (até 3 dias), a probabilidade de nascer uma rapariga é maior, porque, enquanto os espermatozóides Y são destruídos, os espermatozóides X resistem à espera da libertação do óvulo (do ovário para a trompa de Falópio). Se fizermos o raciocínio inverso, e o acto sexual acontecer apenas no dia da ovulação, a percentagem de espermatozóides Y que conseguem atingir o óvulo será maior, pois progridem mais rapidamente do que os espermatozóides X. Claro que, se houver actos sexuais nos dias anteriores, podemos já ter as trompas de Falópio cheias de espermatozóides X, gorando os objectivos de quem programava um rapaz.

Isto é tudo muito bonito na teoria, mas ainda não há estudos clínicos suficientes a provar esta relação do dia do acto sexual com o sexo da criança. Com ajuda de uma colega obstetra, cheguei a três artigos credíveis. Um, publicado na conceituada revista New England Journal of Medicine, envolveu o estudo de 221 mulheres com medição das hormonas na urina (para saber a altura exacta da ovulação de cada uma delas) e registo da sua actividade sexual. Os resultados levaram à conclusão que «o tempo da relação sexual em relação com a ovulação não influencia o sexo do bebé». Um outro estudo, publicado naFertility and Sterility, ainda é mais desmotivante. Os autores do artigo dizem que o seu estudo mostra que não existe relação entre o sexo do bebé e o tempo do coito em relação à ovulação. Notaram até uma tendência contrária, isto é, os rapazes nasceriam de relações sexuais mais anteriores à ovulação.  Mas, como só estudaram 33 grávidas, os seus resultados não foram conclusivos.

Entretanto, em 2010, surge um novo artigo. A novidade é que, para além de controlar o tempo do acto sexual em relação à ovulação, um grupo de mulheres que preferia ter uma menina fez uma dieta proposta pelos investigadores. Essa dieta era rica em leite e ovos (fontes de cálcio e magnésio) e restrita em sal, café, chá e farináceos (fontes de sódio e potássio). Com esta combinação (dieta mais acto sexual uns dias antes da ovulação), conseguiram uma taxa de sucesso de 82%. De facto, esta alteração na dieta pode ter sido o elemento chave para alterar o ambiente da vagina, levando a uma maior sobrevivência dos cromossomas X (e menor dos Y). Assim, quem quiser ‘apontar’ para a menina pode seguir a dieta proposta pelos investigadores (em Inglês).

E para gerar meninos? Existe um outro estudo (epidemiológico) que conseguiu relacionar as dietas calóricas e ricas em sal com aumento do nascimento de rapazes. De facto, este tipo de dieta parece diminuir a acidez das secreções vaginais, facilitando a vida aos espermatozóides Y. Outras ‘receitas tradicionais’ baseiam-se no mesmo princípio. Por exemplo, a adopção de posições sexuais que favoreçam a proximidade do pénis ao colo do útero e o orgasmo feminino facilitam a passagem dos espermatozóides para o ambiente menos agressivo do útero. Tudo saberes teóricos que nunca foram provados na prática, mas também não foram refutados.

Posto isto, se quer engravidar e tentar influenciar o sexo do bebé, estude bem os seus ciclos menstruais. A ovulação dá-se a meio do ciclo, isto é, entre o primeiro dia de menstruação de um mês e o primeiro dia de menstruação do mês seguinte. No caso de os ciclos serem de 28 dias, a ovulação será pelo 14º dia. No blogue Maravilhas da Maternidade, há uma lista de aplicações para telemóveis que facilitam estas contas. Depois, se quiser apontar para a menina tenha relações até 2 dias antes da ovulação e experimente a dieta sugerida em cima. Se quiser um ‘pilinhas’, guarde-se para o dia da ovulação e marimbe-se na dieta (coma pão e salgados, beba café com bolinhos). Ninguém lhe garante que resulta, mas não custa tentar.

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NOTA: A fertilização in vitro permite conhecer o sexo dos ovos que são implantados no útero materno. Em Portugal, só uma razão médica (como sendo uma doença familiar que só aparece num dos sexos) permite fazer a selecção do sexo da criança.

Adenda (4/02/2013): Fui alertado por um dos comentários para o facto de ter explicado mal o seguinte. Em termos rigorosos, a ovulação dá-se 14 dias antes da menstruação. Quando digo em cima que «a ovulação se dá a meio o ciclo» é verdade para as mulheres com os tais ciclos de 28 dias (que é a generalidade da população). Como não podemos voltar atrás no tempo, é preciso «estudar bem os ciclos menstruais» para ter uma perspectiva de quando será a próxima menstruação e retirar-lhe os tais 14 dias. Desculpem-me qualquer confusão.

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