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Psicologia

13 de Abril de 2016

Enurese: O que devo fazer e o que devo evitar?

São muitos os pais que demonstram preocupação relativamente à etapa do controlo dos esfíncteres dos seus filhos. O controlo dos esfíncteres constitui uma importante tarefa desenvolvimental, que envolve diversos contextos, nomeadamente o contexto familiar e também o contexto escolar, uma vez que a maior parte das crianças hoje em dia frequenta a creche /jardim-de-infância, pelo que se torna fulcral a articulação entre os dois contextos para que todo este processo de aprendizagem seja facilitado.

Sabemos que cada criança obedece ao seu próprio ritmo, no entanto, grande parte delas adquire o controlo dos esfíncteres entre os dois e os três anos de idade, uma vez que já reúne as condições fisiológicas e emocionais necessárias para o controlo do músculo esfincteriano, nomeadamente durante a noite.

Afinal, quando há motivos para preocupação? Quando é que estamos perante um caso de enurese?

A enurese enquadra-se nas perturbações de eliminação, constituindo uma das perturbações mais comuns na infância, e que a longo prazo, quando não devidamente sinalizada e intervencionada, pode provocar consequências no funcionamento pessoal, familiar e social da criança.

enurese

Falamos em enurese quando existe uma perda recorrente de urina (na cama, ou na própria roupa) que acontece de forma involuntária ou intencional, sendo a sua frequência de pelo menos duas vezes por semana durante um período de três meses seguidos. Esta tem de atingir uma idade em que a continência é expectável, e por isso motivo, considera-se clinicamente significativo quando ocorre após os 5 anos da idade.

Para além disso, para falarmos em enurese, a incontinência urinária tem que ocorrer na ausência de uma condição médica (ex. epilepsia) e na ausência de efeitos fisiológicos diretos de uma substância (ex. diuréticos etc.).

A enurese pode classificar-se como sendo diurna, nocturna ou ainda enurese nocturna e diurna quando acontece em simultâneo, dependendo da altura do dia em que ocorrem as perdas, e pode ainda classificar-se como enurese primária ou secundária. Trata-se de uma enurese primária quando o controlo esfincteriano ainda nunca foi adquirido pela criança, por outro lado, a enurese secundária corresponde à perda de continência em crianças cujo controlo esfincteriano já tinha sido adquirido durante algum período anterior.

Uma vez que o tipo de enurese mais comum é a enurese nocturna primária (que é duas vezes mais frequente do que a diurna) iremos centrar a nossa atenção sobre a mesma.

Na intervenção com a criança que apresenta enurese, são várias as estratégias que poderão ser utilizadas, contudo é importante ter em consideração alguns pontos fundamentais.

 Comportamentos a serem evitados:

  • Falar com outras pessoas deste assunto na presença da criança – é comum os pais partilharem com outros pais e/ou amigos as suas preocupações, contudo, quando a criança estiver presente, evite falar sobre este assunto, pois a criança pode absorver alguma informação (por vezes de forma errada) que pode vir a causar ansiedade e prolongar a dificuldade sentida;
  • Envergonhar ou castigar a criança – devem ser evitadas verbalizações que coloquem em causa a capacidade ou autonomia da criança;
  • Fazer comparações com outras crianças da família ou até mesmo colegas da escola – ex: “o teu irmão na tua idade já não fazia chichi durante a noite.”;
  • Deve evitar-se o uso de fraldas, inclusivamente à noite – o uso de fraldas só irá dificultar o processo-

Por outro lado, existem alguns comportamentos que são aconselhados:

  • Mostrar à criança que a enurese é uma situação frequente, que atinge outras crianças, e que por esse motivo não deve sentir-se culpada;
  • Evitar que a criança beba líquidos cerca de uma 1h30 antes de ir para a cama;
  • Lembrar a criança que deve fazer chichi antes de se deitar, para que este comportamento constituía parte da sua rotina;
  • Ajudar a criança a responsabilizar-se pela sua enurese, deixando e incentivando-a a ajudar na muda da cama e do pijama. Contudo, este comportamento não deve ser implementado num “tom de castigo” mas sim de maneira a que a criança participe na resolução da sua dificuldade e para tomar maior consciência da importância de se levantar durante a noite para ir à casa de banho;
  • Incentivar a criança a ultrapassar o problema: construir um cartaz juntamente com a criança onde colocam os vários dias da semana (como num calendário) e onde vão registando (através de colagens) um sol quando a criança não faz chichi na cama, e uma nuvem com chuva quando faz. É uma forma de ir registando a evolução da criança, ao mesmo tempo que pode reforça-la pelas conquistas que vai alcançando, como forma dela se sentir mais envolvida no processo, desenvolvendo assim a sua autonomia.

Qualquer caso de enurese, seja ela nocturna ou diurna, primária ou secundária deve ser devidamente avaliada por profissionais de saúde (ex. pediatra, psicólogo, enfermeiro) uma vez que se sabe que as suas causam integram factores biológicos e psicológicos, e desta forma, quão maior for a compreensão acerca da sua causa, mais eficaz será a intervenção.

Cecília Santos

Psicóloga Clínica

Oficina de Psicologia