Mães e Pais na 1ª Pessoa

Catarina Beato 

Dias de uma Princesa

Entraste na minha vida…

Cheguei a Assis já de noite. Foi fácil encontrar a casa onde ia ficar. Cabia eu, a minha mala e o meu armário-dos-amores passados. Quer dizer, esse não cabia tão bem como eu gostaria, mas eu empurrei com jeitinho, depois à bruta, e lá entrou para a sala que também era quarto e cozinha. No primeiro dia arrumei. Ao segundo dia conhecia a escola e as pessoas que iam aprender aquilo que tinha para ensinar.

Ao terceiro dia fiz compras e cozinhei. Ao quarto dia a logística estava tratada, a rotina alinhada, a casa limpa e organizada. Ao quinto dia não existia mais nada a não ser as imagens do passado que insistiam em aparecer e desaparecer da minha cabeça com cores demasiado nítidas. Parecendo inofensivo, assim como os meus fantasmas de lençóis brancos, as imagens funcionavam como uma espécie de tortura, como uma pesadelo em que, sempre que acordamos, adormecemos e voltamos a ele. Há um ponto na recta da existência de cada um de nós em que os erros do passado se tornam insuportáveis.

Para alguns este ponto chega na hora da morte, ou mesmo depois do fim, sorte a deles. Para outros os erros são percebidos a tempo da sua quantidade não ser superior à capacidade de resolução. Eu estava num ponto em que os meus fantasmas existiam em número superior às minhas memórias doces. As dores mal curadas, tratadas à pressa para fingir que não estavam cravadas na pele, as memórias confusas e atropeladas tomaram conta de mim. Os lutos a que me neguei juntaram-se para me fazer sentir apenas uma enorme perda.

Salvaste-me dos meus fantasmas naquela madrugada. As gavetas do meu armário existem à minha semelhança: na maior parte dos dias estão fechadas, arrumadas e cheiram a baunilha e canela. Nos dias em que estremeço desarrumo tudo, e dói muito. Salvaste-me dos meus fantasmas naquela madrugada.

Estava em posição fetal no sofá da minha casa minúscula quando tocaste à porta. Entraste na minha vida. Literalmente.

Provo-te, quantas vezes posso morrer de amor?

Blog | Dias de uma princesa