Mães e pais na 1ª pessoa

13 de Maio de 2013

Eles crescem…

um destes dias numa aula prática onde ensinava os alunos de mestrado a fazer genogramas e mapas de rede, uma aluna mais velha disse-me que não imagina daqui a 5 anos a filha a sair de casa, a fazer-se à vida.

os filhos crescem e nós sabemos que vai chegar a hora, a sua hora, mas dificilmente estaremos preparados para esse momento. são tantos anos a serem nossos, a sermos deles e é a altura em que realmente passam mesmo a ser do mundo. e é tão bom mas é tão estranho ao mesmo tempo. por mais que se saiba que crescer é isso, que a autonomia é do mais saudável que há, que estarão sempre connosco porque são os nossos objectos internos… por mais que se saiba, vê-los crescer é, também,  do mais paradoxal que pode haver.


Na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viuva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.

in “A Criança em Ruínas”, José Luís Peixoto

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