Espaço Família | Como Cresceram

Psicologia

5 de Maio de 2014

Educar (só) rapazes. Será diferente?

No desenvolvimento do ser humano sabe-se que se cruzam influências biológicas e influências das experiências de vida. Os papéis de género tendem a ser apreendidos essencialmente por observação, sendo o processo semelhante tanto nos meninos como nas meninas. Podemos assumir que se existem particularidades na educação de rapazes, as mesmas decorrem das heranças biológicas do desenvolvimento do ser humano, particularmente no que concerne à influência da testosterona, mas também das heranças sociais, relacionadas com aquilo que é esperado dos meninos e das meninas.

A testosterona, hormona presente em quantidade bastante superior no corpo de um rapaz, desempenherá um importante papel na forma como os rapazes se desenvolvem, não só em termos de maturação sexual, como no que à agressividade e à líbido diz respeito. Os rapazes tendem a ser mais agressivos, impulsivos e a preferir brincadeiras mais físicas e ruídosas. Também a curva de crescimento dos rapazes nos primeiros anos é mais acentuada, apresentando habitualmente peso e estatura superiores às raparigas da mesma idade. Este facto terá influência também no aspecto mais “robusto” dos rapazes, habitualmente coincidente com atitudes, também elas, mais “robustas” e enérgicas. Toda esta energia é adaptativa e os rapazes usam-na até na forma de se expressar emocionalmente.

Provavelmente uma mãe só de rapazes acabará por sair mais vezes para o parque para correr, jogar à bola ou andar de bicicleta, do que se tivesse só meninas, pois os rapazes manifestam mais essa necessidade de pular, trepar e correr. Sendo os rapazes mais “físicos” poderemos assumir uma maior propensão para pequenos acidentes, pelo que uma mãe só de rapazes poderá ter de tratar mais vezes de arranhões e esfoladelas. Numa casa só de rapazes, as mãe acabarão por desenvolver uma maior tolerância às brincadeiras ruidosas e “agressivas”, como lutas, podendo ser mais fácil aceitar uma brincadeira de lutas entre rapazes, do que quando há meninas envolvidas.

Ser rapaz e crescer com um irmão rapaz, terá algumas vantagens pela possibilidade de “aproximação” em termos de interesses e gostos, podendo à partida, por exemplo, parecer mais fácil conciliar brincadeiras. Em termos de desenvolvimento da personalidade e desenvolvimento emocional, assume-se, mais uma vez, a confluência de factores genéticos e factores de contexto. Assim, o facto de ter só irmãos rapazes não é particularmente determinante para o desenvolvimento emocional e de estruturação de personalidade, apresentando um maior peso o tipo de relações que estabelece com os irmãos, independentemente do sexo, e as experiências de vida que vai adquirindo.

Mesmo no seio de sociedades mais “liberais” e flexíveis, os pais tendem a tratar filhas e filhos de forma distinta, particularmente a partir do segundo ano de vida. A agressividade acaba por ser mais tolerada nos rapazes. Os rapazes acabam por ser mais pressionados a agir “como rapazes”, ou seja, um pai fica mais “preocupado” com um filho que brinca com bonecas, do que com uma filha que brinca com um carro. Em todo o caso, numa casa de rapazes, tendencialmente haverá mais brinquedos  típicos de rapazes, pelo que este tipo de “pressão” se tornará menos evidente. Num estudo realizado no final dos 80 verificou-se que os pais tendem a ser mais controladores e directivos com os filhos rapazes.

Educar uma criança implica ajustar comportamentos às suas características individuais, e não tanto às características típicas do género. Dois filhos rapazes serão diferentes na sua forma de ser e estar (mesmo que vão ao encontro das tendências masculinas) e aquilo que funciona com um dos filhos, poderá não funcionar com o outro. Ou seja, uma mãe de dois rapazes terá de se adaptar a duas personalidades diferentes, da mesma forma que se adaptaria se tivesse duas meninas, ou um rapaz e uma rapariga. Na essência, educar rapazes e raparigas é semelhante, pelo que as estratégias adoptadas pelas mães são, na sua base, as mesmas. Na hora da brincadeira a mãe necessitará de ir ao encontro dos interesses dos filhos pelo que, se forem só rapazes, acabará por conhecer os ídolos dos rapazes ou ensaiará saídas ao parque para corridas ou jogos com bolas. No entanto, partilhará com os filhos momentos, que também irão ao encontro das necessidades deles, e que serão semelhantes aos que partilharia com uma filha menina, como ler um livro, ouvir música, brincar às construções ou fazer um puzzle.

Inês Afonso Marques

Psicóloga Clínica

Equipa Mindkiddo – área Infanto-juvenill da Oficina de Psicologia

logo3