Atualidade

5 de Janeiro de 2015

Educar não é difícil. É ter momentos terríveis

É filho de um médico pediatra que tem o mesmo nome e que se transformou numa referência da pediatria. Sobretudo, houve sempre crianças por perto. Foi tio aos dez anos, as irmãs montaram um infantário em casa, depois vieram os filhos e os netos.É um pediatra de referência, autor da bíblia O Livro da Criança, um autor prolixo. Só na segunda metade de 2014 publicou Educar com Amor e Diário do André. No primeiro, fala sobre a tarefa hercúlea que é educar meninos felizes e equilibrados e abre cada capítulo com uma citação de Saint-Exupéry. No segundo, num tom diarístico, olha para a vida e o íntimo de um jovem institucionalizado.Parece dizer a cada resposta a celebérrima citação d’O Principezinho: o essencial é invisível aos olhos. Quer dizer, está sempre à procura do âmago que importa.

A entrevista começou com uma hora de atraso porque foi preciso acudir a meninos doentes. Passou-se na hora de almoço. Não houve almoço. Saímos juntos do consultório e já no passeio explicou-me da vantagem que é fazer vida a pé. Vive a dois passos do espaço onde trabalha, as crianças andam numa escola logo ali. Uma vida simples. Tem 59 anos.

Fala no seu livro Educar com Amor da importância de nos sentirmos queridos. A palavra “querido” é muitas vezes usada como se fosse uma coisa esvaziada de sentido, mas é fundamental na construção de quem somos e da nossa auto-estima.
O “meu querido”, quando dito com sinceridade, diz-se como se fosse um nome. Relacionado com o verbo, tem que ver com desejado. “Eu quero-te”. Essa sensação de ter sido querido ou de se ser querido — amado — é um dos factores protectores maiores que a pessoa pode ter. Ter uma recordação, mesmo que no inconsciente, de uma infância em que alguém nos quis; descobrir ao longo da vida, em gestos, nos símbolos, que se foi querido (até por pessoas que já morreram, pais, avós); pensar que a nossa família, o nosso bairro, o nosso grupo de amigos não teria sido igual sem nós é muito importante.

Dê-me uma recordação sua assim, como quem dá um tesouro.
Vivíamos numa moradia no Restelo. Uma das coisas de que me lembro com mais gosto era sentir o carro do meu pai chegar. Às vezes, já estava escuro e eram dias chuvosos. Ele ia dar uma volta pelo jardim, apanhar uma rosa, podar umas coisas, tirar os caracóis dos agapantos, que comiam as folhas.

Esse passeio, fazia-o consigo?
Sim. Era um passeio muito pequeno, um bocadinho. Era uma maneira de ele sentir: “Cheguei a casa, estou a ver as minhas roseiras, as árvores de fruto.” Tínhamos uma cumplicidade silenciosa. Julgo que nem falávamos. Ou ele falava para explicar. Era um homem curioso, cientificamente, e muito vasto na sua cultura.

Que idade é que o seu pai tinha quando faziam esses passeios pelo jardim?
Ele tinha 43 quando eu nasci. Portanto, tinha quase 50 anos.
Aos cinco, seis anos não podia organizar a importância que esse gesto teria para si. Tinha apenas a sensação prazenteira. Há coisas que não têm de ser verbalizadas, que não são taxativas, mas que insidiosamente ficam lá. Hoje temos a ideia de que tudo tem de ser dito, quase formalizado. Outro aspecto: uma atenção exclusiva, que parece durar a vida toda, e que cabe em 15 minutos.
A minha costela epidemiologista não me deixa fazer comparações. Se hoje é melhor que antigamente. É comparar o incomparável. Estamos a falar de realidades diferentes. Mas há uma coisa que me preocupa na sociedade dita ocidental: a perda da intimidade. Não só a intimidade de um pequeno ecossistema familiar versus os sete mil milhões de habitantes do planeta. Revelar a intimidade ad nauseam, sem se saber muito bem porquê… É bom ter partes íntimas e apreciar os momentos pelos momentos.
Quando era esse quarto de hora: chegava o Outono, fazia-se uma queimada de folhas. Para um miúdo, é sempre deslumbrante ver folhas a arder. Esta faceta pirómana… Os cuidados a ter, ver de onde o vento vinha, perceber se é dia para fazer isso ou não. Essa percepção das coisas, esses momentos, eram preciosos.

Os passeios eram só consigo. Era um tempo só seu numa família numerosa. Oito filhos.
Tendo o meu pai uma vida tão sobrecarregada, não dava para estar uma hora com todos. Conseguia pequenos momentos, pequenos códigos, que uniam a família. Trabalhava no hospital de manhã, à tarde tinha consultório, vinha almoçar a casa. A minha mãe estava em casa. Fazíamos o possível, os meus irmãos e eu, para almoçar também em casa. A seguir ao almoço, escolhíamos um disco para ouvir. Discos de vinil, 33 rotações, os LP. Geralmente música clássica. Eu ou um dos meus irmãos é que éramos os eleitos para escolher o que íamos ouvir. Estas pequenas coisas (não ser ele a escolher) era um privilégio que ia dando. E transformava aquele bocadinho, que era muito pouco, em termos de tempo útil.

Ter uma recordação de uma infância em que alguém nos quis; descobrir ao longo da vida que se foi querido; pensar que a nossa família, o nosso bairro, o nosso grupo de amigos não teria sido igual sem nós, é muito importante

 

Como é que se consegue transformar uma coisa que parece banal (um almoço/um jantar em família), sobretudo na vida apressada que todos temos, num encontro mágico, pelo qual se anseia?
É o espírito com que se vive as coisas. Essa figura central, que era ele, e a minha mãe, também, não sendo muito expansivos nas suas manifestações afectivas… Eu fui muito mais físico com os meus filhos do que o meu pai ou a minha mãe foram comigo. Havia o desejo de que estivéssemos lá. Não havia um carácter obrigatório. Não era um amor obrigado.

Transparece no que diz uma ausência de ansiedade. No fundo, estou a falar das doenças de que as pessoas mais se queixam. O medo do abandono, a sensação de desamparo.
Eu tinha grandes ansiedades quando era criança e adolescente. Era de uma timidez — era e sou, quando se é, é-se a vida toda — exagerada. Ter sete irmãos mais velhos, e estamos a falar de seis irmãs, não é fácil. É-se passado a pente fino, a pente para piolhos. O meu irmão casou-se tinha eu nove anos. Fui tio aos dez anos.

O que é que era mais difícil, conquistar o seu espaço?
O modelo infanto-juvenil da relação fraternal é de grande cumplicidade, mas também de muita picardia, de empurrões para ver quem chega à frente.

Digamos que é uma primeira grande amostra do que se passa cá fora.
É. Os irmãos muitas vezes não passam uns sem os outros mas, a propósito de coisas mínimas, explode uma litigância.

Essa litigância tem sempre por objecto a atenção dos pais?
Muitas vezes, sim.

Era um tímido exagerado — estava a dizer.
O meu pai também era extremamente tímido. E o meu avô materno também. (Era um homem fascinante, escrevi um livro sobre ele. Morreu tinha eu oito anos. Veio no início do século XX para Portugal, para a metrópole. Chamava-se Júlio Gonçalves.) O gosto pelo show off sempre me arrepiou um bocado. Serviu para cultivar uma vida interior maior. Estava com os amigos nas férias e no fim-de-semana, em casa, estava muito sozinho. Gostava muito de brincar, de ler. Os ecrãs eram mínimos. Só tive televisão quando o homem foi à lua. O meu pai nunca controlou o que eu estudava, mas eu sentia que ele queria que estudasse.

Esperava que reproduzisse o percurso dele e quem ele era?
De alguma forma. O meu pai veio da Índia com 14 anos num barco que levou não sei quantos meses a chegar. Veio pelo Cabo da Boa Esperança. Foi para casa de um tio jesuíta, o padre Valente Cordeiro, que era um homem genial do ponto de vista intelectual, mas de uma vivência espartana. O meu pai habituou-se a isso. Uma coisa que procurou transmitir: a noção de coerência, consistência, rigor. E gosto pelo trabalho.

A partir de coisas que disse, a casa, a forma de se tratarem, percebo que era um quadro burguês. Mas não havia espaço para o desperdício. Que relação tinham com o dinheiro?
Não. O meu pai era asceta. Tudo o que fosse para promover a pessoa intelectualmente, nunca regateou. Tudo o que fosse extra, dizia: “Façam pela vida.” Uma vez fui pintar paredes para a International House para ganhar uns dinheiros. Passava coisas à máquina.
Sou completamente desprendido em relação ao dinheiro. Sinto que sou uma pessoa afortunada relativamente à esmagadora maioria dos portugueses. Não vou agora armar-me em falso pobre, não vou ser hipócrita. Mas o dinheiro, para mim, serve para o nosso conforto. Não consigo compreender aquelas pessoas que quanto mais têm mais querem.

Aprendeu a ouvir outros muito diferentes de si. Estou a pensar especificamente noDiário do André, um livro que escreveu recentemente sobre um rapaz institucionalizado, filho de uma prostituta, com um quadro social e afectivo oposto àquele que teve. Essa aprendizagem, de foco e atenção ao outro, começou onde?
Creio que vem de ser muito tímido. Tive outra intercorrência: cresci muito tarde. Tinha a senha do talho mais atrasada.

Pareceu uma criança até que idade?
Quando entrei na universidade era minúsculo. Nem fazia a barba. Felizmente, para não me sentir completamente nas ruas da amargura, tinha o meu melhor amigo, Carlos Ruah. Ele também cresceu tarde. Fizemos o liceu todo juntos. Depois fomos para Medicina. Unha com carne. Depois, de repente, dei um salto.

O que é que o fez crescer?
É uma coisa que se chama atraso constitucional de maturação. É uma variante normal. Assim como há raparigas que no 4.º ano já têm o período (10%), há rapazes que crescem mais tarde. Dentro do crescer mais tarde, há uns que começam aos 12, 13 anos, e há outros que começam aos 16.

Entram razões emocionais nesse processo?
Não. Na Revolução Industrial, verificou-se que as crianças que trabalhavam nas minas e nas fábricas e as que iam à escola tinham diferentes tamanhos. Não tinha que ver com carências alimentares. Tinha que ver com carências afectivas e sobrecarga de trabalho. Veio descobrir-se que quando uma criança está afectivamente ou fisicamente esgotada há uma paragem da hormona do crescimento.
Neste caso, não era isso. Era uma variante normal.

Mas sofre-se muito, quando se é muito pequenino.
Sofre. Nos meus livros, procurei falar muito nisso, porque é uma história por que passei. Não era o medo de não crescer, sabia que seria pouco provável. Não era o Peter Pan. Era ver passar oportunidades. A vida na adolescência faz-se muito de acordo com dinâmicas de grupo, e as dinâmicas de grupo têm muito que ver com símbolos de pertença. Vai-se à discoteca, já se bebe cerveja. Namoricos. Eu era outsider. Tinha uma timidez enorme, não tinha cabedal.

Curioso, não usou a palavra “sexualidade” quando falou de adolescência. Disse “namoricos”.
Porque a palavra “sexualidade” decorre desde que nascemos até que morremos. A sexualidade não é apenas relações sexuais e não é só preservativos. É mais uma parte de relação afectiva.
Em determinada altura, dei o grito do Ipiranga. “Ou me deixo levar por isto e vou ser infeliz, ou tenho de dar a volta.” A maneira que arranjei, que tenho recomendado a muitos jovens que passam pelo mesmo, era imaginar que eu não era eu. Quando tinha de me expor, imaginava que estava a representar um papel. Depois, fui-me habituando à exposição e agora já me reconheço como eu.

Tendemos a reproduzir os que nos são próximos. Não é pediatra por acaso, pois não?
O meu avô era médico, o meu bisavô também. Tem sido por tradição, não por obrigação. Os meus quatro avós: três eram goeses. O meu pai foi um pediatra muito conhecido a nível internacional. Foi um dos fundadores da Unicef e da Pediatria Social. Começava a haver preocupações com o que estava para lá da doença. Prevenção, vacinas. Com o trabalhar de maneira pluridisciplinar, com psicólogos, antropólogos. E a visão da criança enquanto ser provido de direitos.
Foi graças a ele, e estamos a falar dos anos 1970, não é da Idade Média, que os pais puderam estar ao pé das crianças no hospital. Antes disso, os pais iam ter com as crianças das três às quatro da tarde, através de um vidro. Era a cultura do “assepticismo”. Podiam transmitir doenças, os pais. Os médicos, não, mas os pais, sim.

Como é que se chamava o seu pai?
Mário Cordeiro.

O retrato que dá do seu pai, a partir das coisas que diz, é de alguém próximo, sensível. Apesar da educação austera que recebeu.
Era extremamente sensível. Não tocava nenhum instrumento musical, mas era um melómano. Desde cedo, pôs-nos a todos a aprender piano. Tínhamos um piano em casa e era mais fácil arranjar uma professora que despachasse todos. Levava-nos a concertos. Lembro-me de passar tardes nos concursos Vianna da Motta a fruir música. Naquela altura, pediam-se autógrafos a todos os pianistas. Eram um troféu de caça.
É evidente que o meu pai preferia música clássica. Mas uma vez foi a Londres e trouxe o Hair. Outra vez, o Abbey Roaddos Beatles. Lembro-me de chegar ao liceu com o álbum…, faz de conta que não mostro, mas a mostrar.

Já alguma vez foi a Abbey Road, em Londres, e atravessou a passadeira, em frente ao estúdio onde o disco foi gravado?
Não.

Não é muito longe da casa onde Freud morreu e onde viveu o último ano de vida.
E que visitei com a minha mulher há três anos. Se quisesse definir a sensação de paz e serenidade, foi a nossa visita à casa de Freud. Mas não era a paz de cemitério. Era a compreensão das pessoas, de poder perspectivar o que os outros são. A não emissão de juízos de valor, de rótulos.

Qual foi o objecto que mais o impressionou? O divã, a colecção de arqueologia, os livros?
O divã é o divã. Gostei muito da sala, do escritório. Gostei do tear da filha [Anna, que está no andar de cima]. A análise é uma arqueologia da mente. Mesmo que não se faça psicanálise, nem psicoterapia, o tentar descobrir dentro de nós a nossa arqueologia, escavar… Nomeadamente nos sonhos, nos actos falhados, nas nossas raízes. Sem perder a noção científica. Não é por acaso que Freud era neurologista e arqueólogo. Sem essas duas vertentes, não teria conseguido.

Crianças e adolescentes são seres que têm de ser generalistas, plurissensoriais. Pôr a mão na massa. Numa altura em que o mundo é cada vez mais artificial, o contacto com a natureza é fundamental

O que é que o seu gabinete de trabalho diz de si? O de Freud diz muito sobre ele.
Este gabinete não está totalmente feito à minha medida porque é partilhado. O que diz mais é a música (a primeira coisa que faço quando chego é pôr música). São os livros, os livros. Os brinquedos pacificam as crianças. E a mim também.

Gosta do Winnie The Pooh, especialmente? Tem aqui, sobre a secretária, uma imagem do ursinho.
É uma personagem simpática. Gosto do Burro porque tenho pena dele, por causa do seu sofrimento, da sua angústia. O Tigre, sendo um tigre, é frágil. O Piglet quer é amizade e brincadeira.

Estávamos a falar do seu pai, que trazia discos de Londres. É um pai muito diferente do pai que ele foi?
Os meus irmãos mais velhos referem que, em relação a eles, o meu pai era mais rígido, mais espartano. Em relação a mim, não me posso queixar. Talvez porque passaram 14 anos entre o nascimento do meu irmão mais velho e o meu. Nunca me tocou. Nunca me ralhou, nunca me lembro de me ter levantado a voz. Mas o olhar dizia tudo. Já sabia que o olhar era: “Não gostei.” Eu sentia: “Falhei.”

Teve cinco filhos com uma grande diferença de idade entre eles. O seu filho mais velho, teve-o com que idade?
Tive-o com 23. Hoje tem 35. Os mais novos, os gémeos, têm 11.
Recuso liminarmente quando algumas pessoas dizem: “Ai, agora és um pai-avô.” Eu sou avô, tenho cinco netos. E sou pai, tenho cinco filhos. Uma coisa é ser avô e a outra é ser pai. Não me vejo, em relação aos mais pequenos, a assumir-me menos como pai e mais como avô. Tenha a idade que tiver.

Ser avô passa por ser mais permissivo com os netos?, não ter a mesma responsabilidade?
Exacto. A responsabilidade educativa é dos pais. Também não defendo que os avós deixem fazer tudo e que aproveitem para minar o caminho dos pais. Devem ajudar os pais. E aquele mínimo de valores que os pais definem, os avós têm a obrigação de respeitar.
Mas pode-se ter uma relação mais despreocupada. Até no quotidiano. Com os meus netos, não tenho de me preocupar com o que comem ao pequeno-almoço, o que almoçaram ou se vão mais tarde para a cama. Com os meus filhos, tenho.

Afinal, foi um pai muito diferente do seu filho mais velho do que é agora, dos gémeos?
Não acho que tenha sido, na matriz. É evidente que os tempos são outros. Dou-lhe um exemplo: quando o Pedro e a Filipa chegaram à adolescência, apareceram os Game Boy. Quer eu quer a mãe dissemos: “Não há Game Boy para ninguém.” Fui muito impositivo: “Não quero.” Achei, e continuo a achar, que crianças e adolescentes são seres que têm cinco sentidos. Reduzir tudo a uma coisa meramente visual, é redutor da capacidade humana.
Eu gosto de livros. Gosto também do cheiro dos livros. E muitos livros numa sala produzem o cheiro de livros.

Os seus filhos mais pequenos não têm telemóvel, imagino.
Telemóvel têm, mas não fui eu que dei. Não têm iPad e não têm consolas. Não vejo interesse. E é viciante. Crianças e adolescentes são seres que têm de ser generalistas, plurissensoriais. Pôr a mão na massa. Numa altura em que o mundo é cada vez mais artificial, o contacto com a natureza é fundamental. Uma das coisas que estive a fazer com o meu filho Tomás, em Outubro, foi recolher folhas, espalmá-las naqueles livros pesadíssimos, fazer colagens. Para mim, é mais engraçado, para eles, é mais engraçado.

Ao perguntar se foi um pai muito diferente, também estou a perguntar se é um pai menos ansioso. Os pais, sobretudo em relação ao primeiro filho, têm a preocupação de fazer tudo bem. E ficam muito contristados quando alguma coisa corre mal. Li no seu livro que uma criança descarregou sobre a mãe: “A mãe é má, má e feia.” Eles nunca disseram: “O pai é mau e feio”?
É preciso saber interpretar porque é que dizem. Há duas maneiras de dizer: “O pai é mau” ou “a mãe é má”. Uma pode ser mesmo sentida, vem cá do fundo. É uma negação do vínculo que assusta. Outra pode ser mais no sentido: “Gostava tanto de fazer aquilo. Se não existisse essa tábua da lei (que o pai é), podia extravasar o meu impulso.” É a velha luta freudiana entre o id e o superego. O pai representa o superego, o obstáculo. O miúdo chateia-se por ter aquele gendarme interno. E é mais agradável projectá-lo em algo externo.
Esse jogo é muito interessante. Interessa-me cada vez mais perceber porque é que existem princípios éticos na humanidade, por que é que vingaram. É claro que há um sistema de controlo social, legislativo, jurídico. Mas esse apareceu para dar corpo institucional a um sentido ético.

Esse interesse, em si, está ligado a uma convicção religiosa?
Não. Fui educado na religião católica até aos 17, 18 anos. Nunca fui beato, mas era católico. A determinada altura comecei a pensar que não precisava de intermediário entre mim e Deus. Acredito num desígnio cósmico na humanidade, nos mistérios da natureza, no Big Bang. A religião, nomeadamente a católica, acaba por renegar em muita coisa os princípios anunciados por Cristo. Há muitos vendilhões do templo por aí. A exclusão das mulheres da vida da Igreja, o celibato dos padres: não tem nada que ver com Cristo, são coisas que aparecem já no século XIII.

Educar não parece muito difícil para si. Como as crianças se transformaram numa espécie de bem raro, também a educação ficou transformada numa coisa dificílima. As crianças deixaram de estar naturalmente ali, que era o que acontecia nas famílias numerosas não há muitos anos, para passarem a ser os pequenos ditadores, os reis da casa.
Criou-se esse mito da criança ditadora. Nem sempre é assim. Às vezes são os pais que se antecipam ao desejo da criança. Eles dão e a criança não recusa. Dão o chocolate antes de a criança pedir. Muitas vezes nem sequer expressou o desejo: já o teve.
A educação: não é ser uma coisa difícil, é ter momentos terríveis. Momentos de dúvida. Momentos em que nós, que não somos de plástico, não sabemos lidar com a situação, não sabemos compreender o outro, em que o outro não está em estado emocional para dialogar. Finalmente, em caso de conflito de interesses e impossibilidade de consenso, é preciso impor regras. É talvez a base da educação.

Mesmo que as crianças não entendam os motivos da proibição?
Muitas vezes vemos educar como sinónimo de proibir, limitar. Não é. Educar pode ser estimular e dar.

Pode esboçar alguns princípios básicos?
Primeira coisa, transformar conceitos abstractos, como respeito, amor, solidariedade, dignidade, rigor, que não se medem, não se pesam, em exemplos que mostram: “Ah, isto é respeito.” Cumprimentar o vizinho que vem no elevador, segurar a porta para o senhor que vai entrar, perguntar se quer ajuda para levar o saco. Perguntar se a sua mãe, que está doente, está melhor. Algumas pessoas dirão aos filhos: “Tens de respeitar a professora, o vizinho, a avó.” Mas depois não consubstanciam isto. Para crianças que aos seis, sete, oito estão na fase do concreto, que não têm ainda a fase simbólica completamente estabelecida, é difícil perceber.
A segunda coisa é ser-se muito coerente e avisar: se isto vier a acontecer, haverá aquela consequência. E explicar porquê. Outra é analisar os comportamentos e não a pessoa. É necessário que nós, enquanto pais, façamos o percurso de passar de vítimas com vontade de linchar o outro, e de humilhar, de descarregar tudo o que somos, para o estatuto de juiz que aprecia os factos. Se houve ou não houve dolo, se há atenuantes ou agravantes. Implica uma maturidade psico-afectiva muito grande. Caso contrário, estamos a dizer aos nossos filhos: “Não gostamos de ti.” Quando o que temos que dizer é: “Amo-te, mas não gostei nada do teu comportamento.”

Quando se fala de sanção, e se explica, está-se a introduzir a palavra justiça.
Sim. Que faz parte da ética, do conceito do bem e do mal. Mas qualquer justiça desproporcionada é má.

Temos uma expressão para isso em português: “Perdeu a razão pela maneira como falou/agiu.”
Não estou de acordo com esse adágio. Não se perde a razão. Pode-se é expressar mal a razão.

Surpreende-me que tenha tido vários casamentos.
Não gosto de falar muito do passado. Já fiz as pazes com a maior parte dele e aprendi com os erros e sucessos. Gosto de dizer que tenho um excelente casamento. O meu pai e a minha mãe viveram um amor muito romântico. Neste meu casamento, que é o terceiro, revejo muito a cumplicidade conjugal que o meu pai e a minha mãe viviam.
Há uma tendência, porque as personagens são as mesmas, para a relação conjugal e a relação parental se confundirem.

Que quer isso dizer, exactamente?
O homem e a mulher confundirem-se com o [papel de] pai e [de] mãe. Foi uma coisa que fui descobrindo. E isso inquina um bocado. Os filhos podem inquinar a relação homem-mulher. Requerem tanta coisa. Precisam de coisas, este lufa-lufa das escolas, mais as 500 actividades… A minha mulher e eu não temos problemas em dizer: “Ao sábado, meninos, não há actividades nenhumas.” Sábado é para acordar e ver onde nos leva o vento e o tempo. O que apetecer. Alguns pais sacrificam-se demasiado.

Teve coragem para ter a vida que queria ter, sem medo que isso pusesse em risco a estabilidade das crianças, a harmonia da vida familiar, os chavões aos quais estamos subordinados.
Não foi fácil. As relações devem durar aquilo que duram. Nem mais um minuto nem menos um minuto. Pode durar, foi o caso dos meus pais, até o meu pai morrer. E podem durar muito menos tempo. Disso sabem os intervenientes e mais ninguém. Fui aprendendo que não são os filhos que devem manter uma relação conjugal.

Muitas vezes, eles são usados e mencionados para justificar a manutenção de um casamento.
Cada vez mais reflicto, com base na minha experiência, e não só, que isso não conduz a nada. Depois sobra uma coisa: a relação parental. O conflito conjugal pode estender-se à parte parental ou não, conforme o que sobrou da espuma dos dias e a personalidade das pessoas. Tudo seria bom se houvesse, como dizem as Miss Universo, paz e amor, mas a vida real infelizmente não é assim. Há jogos de interesses, pressões, e as crianças podem muitas vezes ser objecto de manipulação.

O melhor que se pode fazer a uma criança é dar-lhe um exemplo de uma vida feliz e escolhida?
É. É dar o exemplo de uma pessoa digna, solidária socialmente, um compromisso de existência em relação aos outros.

Retomo uma questão que vem de trás: podia não ser pediatra?
Podia. Sempre tive uma tendência natural para a Pediatria por lidar com crianças, por o meu pai lidar com crianças. As minhas irmãs mais velhas — uma é educadora, outra é assistente social —, no início de vida, resolveram fazer um infantário. Como tínhamos uma casa grande, o meu pai cedeu uma parte para fazer um infantário, no jardim. Eu adorava chegar do liceu e ir brincar com os miúdos. Foi sempre uma pulsão enorme.

Os filhos podem inquinar a relação homem-mulher. Requerem tanta coisa. Precisam de coisas, este lufa-lufa das escolas, mais as 500 actividades… A minha mulher e eu não temos problemas em dizer: ‘Ao sábado, meninos, não há actividades nenhumas.’ Sábado é para acordar e ver onde nos leva ?o vento e o tempo

Uma pulsão que o põe em contacto com a sua infância?
Não só. Serve-me para colmatar a angústia existencial. Sempre tive uma ideia completamente estúpida: no dia em que fiz dez anos — lembro-me disto como se fosse ontem — acordei e declarei, oficialmente, que morria aos 54 anos. E convenci-me disso. Não tinha nada factual, mas projectei a minha vida toda no sentido da existência de 54 anos. Não consigo conformar-me que vivamos tão pouco tempo face àquilo que temos para fazer.

Tem no armário em frente a si uma fotografia da sua mulher. Também é pediatra?
É jurista. Encontro na minha mulher o gosto por pequenas coisas, frugais.

Tem uma cara de miúda.
Realmente parece, mas faz 50 anos no fim da semana. É uma madrasta exemplar para os miúdos, e isso foi muito bom, também, para mim.

Qual é que é o cheiro da sua infância? Os bebés têm um cheiro especial. As nossas memórias têm um cheiro.
Há vários. A terra molhada. A relva acabada de cortar. O cheiro dos livros. O quarto da minha avó com o cheiro de alfazema. O chocolate quente da noite de Natal.

Fonte | Público