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Vida ao Ar Livre

22 de Julho de 2014

É um pai ou uma mãe superprotetor(a)?

É um pai ou uma mãe superprotetor(a)?

Entenda quando o cuidado ultrapassa o limite do aceitável e passa a prejudicar a criança.

O seu filho está a tentar atar os atacadores e  vai a correr terminar a tarefa por ele. Um amigo convida o seu filho para passear no parque e sua reação é de… medo. Teme que se magoe, que se perca dos adultos, e que fique desamparado.

Se se identifica com estas situações, talvez seja hora de refletir se a sua vontade de proteger o seu filho está a passar o limite. Há até uma metáfora para caracterizar os pais superprotetores, que desejam estar sempre por perto, de modo a evitarem algum sofrimento ou decepção do filho. São conhecidos como o “helicóptero”. Com a hélice sempre a girar, o helicóptero sobrevoa o território incessantemente. A qualquer sinal de perigo na terra, está pronto para pousar e prestar socorro.

Deve estar a pensar: mas o meu filho é tão frágil que precisa de ser protegido. Claro, mas com equilíbrio. “O limite é ténue. Cuidar é observar o outro e fazer uma análise realista do que está a acontecer. A superproteção é baseada na emoção e na dificuldade de tolerar uma possível frustração”, explica a psicanalista Anne Lise Scappaticci, da International Psychoanalytical Association (IPA). Vamos pensar num outro exemplo: o seu filho está com notas baixas na escola. Perante isso, pode conversar com ele e perguntar se sente alguma dificuldade, encontrar um espaço de estudo em casa e estabelecer um horário para que faça os trabalhos de casa. Já o pai superprotetor, no anseio de ajudar, ficaria ao lado e resolveria até alguns exercícios pela criança. Desta forma, preveniria a decepção do filho em não conseguir solucionar de imediato um problema.

O que é que essa atitude dos adultos representa? De acordo com a psicanalista, a superproteção costuma surgir de pessoas amorosas, bem intencionadas, mas que não conseguem tolerar a própria ansiedade para educar o filho. São, na maior parte, inseguras e tendem a antecipar-se e a não deixar que a criança viva experiências novas. Outra característica comum é desconsiderar a idade e o crescimento do filho – o casal educa-o como se fosse sempre pequeno e indefeso.

As consequências da superproteção

Na intenção de fazer o melhor para o seu filho, o género “helicóptero” de alguns pais acaba por atingir o desenvolvimento da criança. “Cresce com a sensação de ser frágil”, afirma a psicanalista. Se não é convidada para uma festa na escola e prontamente compra um presente para compensar a decepção dela, está a contribuir para que não experimente a dificuldade.

Estudos mostram os efeitos negativos de superproteger os filhos. Um deles, publicado no Journal of Child and Families Studies, descobriu que o comportamento dos pais aumenta o risco de a criança se sentir incompetente, sofrer depressão e ansiedade – consequências que muitas vezes podem surgir a longo prazo. Outra análise, envolvendo mais de 200 mil crianças, da University of Warwick, no Reino Unido, revelou que a superproteção aumenta também o risco de bullying.

É verdade, sabemos como é duro presenciar momentos de sofrimento e frustração dos nossos filhos. Mas, se eles não existirem, algumas habilidades não serão desenvolvidas. Acredite: a tensão e até a solidão podem contribuir na formação de um adulto independente e consciente, disposto a enfrentar o mundo – sem esperar que tudo seja feito por ele –, a arriscar e… errar. São situações que preparam o seu filho para o mundo.

É trabalhoso encontrar o ponto certo entre a negligência e  a superproteção. Que tal, em vez de ser um pai ou mãe helicóptero, se tornar num “submarino”? Esta metáfora, citada no livro Fun-Filled Parenting: A Guide to Laughing More and Yelling Less, de Silvana Clark, alude ao perfil de adulto que está por perto, cuidando do filho, mas não tão visível. Cuidar é um investimento. Quando o seu filho estiver a treinar para algo novo, como comer com talheres corretamente, fique ao seu lado, incentivando-o – e não faça por ele. Se for à discoteca com amigos, informe-se das regras do local e dos horários mais seguros para frequentar. Solte-o aos poucos, de acordo com o amadurecimento que ele manifestar. Sim, é possível cuidar bem sem superproteger.

Para ajudá-lo, pontuamos algumas situações em que a hélice do helicóptero tende a começar a girar… E saiba o que fazer para que o seu filho cresça e viva experiências enriquecedoras e divertidas (mesmo longe de si).

No parque

Ao dividir os brinquedos…

Sinais de superproteção: 
O seu filho leva vários baldes e pás para o parque. Quando chega ao local, um menino que está na areia não tem nenhum brinquedo. E você pensa: “Eles vão discutir e disputar pelos objetos.” Para prevenir o atrito, escolhe um dos baldes e depois empresta-o.

O que fazer: Esta seria uma boa oportunidade para se relacionar com um novo amigo. Fique por perto, mas deixe-os à vontade. Se o outro menino quiser brincar também, sugira que o seu filho empreste um dos brinquedos. E se ele disser não? Explique que é bom quando todos se divertem, ainda mais juntos. Faz questão de ficar com o balde azul? Então dê a pá vermelha ao seu novo amigo.

Ao aventurar-se no parque

Sinais de superproteção: A criança está a morrer de vontade de experimentar o escorrega maior, mas você está com medo que ela se magoe, então acha melhor que ela não experimente o brinquedo.

O que fazer: Se tiver medo que seu filho caia do escorrega, fique ao lado dele e oriente-o para subir as escadas com cuidado. Use um tom de voz suave, sem apavorar ou deixar a criança tensa.

Em geral, os pais superprotetores tendem a projetar os seus medos nos filhos. Em vez disso, conte-lhe os seus receios, mas estabeleça uma parceria. Não finja que é um super-herói – diga que tem medo de montanhas russas, mas que está a tentar superar isso. Sugira-lhe que vá com outra companhia, como o seu namorado(a). Afinal, cada um tem as suas inseguranças e não precisam de ser transmitidas nem escondidas.

No computador

Sinais de superproteção: O seu filho quer navegar na Internet e jogar no computador, mas você tem medo que ele sofra de cyberbullying e que tenha acesso a conteúdos impróprios. Por isso, proíbe qualquer contacto com esse tipo de tecnologia.

O que fazer: 
Esta proibição total não é positiva. Provavelmente, irá a casa de um amigo e aproveitará para descobrir o que há de tão misterioso na Internet. É importante analisar a idade da criança e apresentar-lhe o que condiz com sua faixa etária. Fique ao seu lado, oriente e explique-lhe os motivos de ainda não permitir que entre numa página Web de notícias, por exemplo. O diálogo é um bom caminho para que o seu filho entenda a razão de uma regra. A permissão ao acesso à internet deve ser gradual, assim como o tempo que pode ser dedicado a ficar em frente à televisão.

Longe de casa

Sinais de superproteção:
 A criança é convidada para um acampamento ou para passar a noite em casa de um amigo. Liga logo para a mãe do colega ou para a diretora e faz todas as perguntas possíveis sobre o programa. E pior: demonstra ao seu filho que não está satisfeita com o convite.

Fonte | Revista Crescer