Mães e Pais na 1ª Pessoa

Joana Gama e Joana Paixão Brás  

A Mãe é que Sabe

É SÓ um bocadinho!

Quando estava grávida passava horas ao telemóvel, instalei aplicações parvas e perdia ali tempo, porque me apetecia. Quando amamentava durante a noite, nos primeiros meses, tinha de estar ao telemóvel para não adormecer. Chats, grupos e artigos sobre os 10 alimentos que não pode dar ao seu bebé ou as fadas do sono. Já a miúda tinha mamado, arrotado, adormecido e eu continuava ali, alienada.

Depois, já mais crescida, enquanto ela estava a brincar um bocadinho sozinha, lá estava eu no Facebook ou a ler um artigo qualquer. Enquanto os legumes não acabavam de cozer, mais uma espreitadela no WhatsApp, responder à Joana, ir até ao Messenger responder à Marta, uma breve passagem pelo Instagram, actualizar o feed e espreitar as últimas publicações, porque “são uns segundos”. À mesa, “olha que gira a comer tão bem bróculos”, vai de registar o momento. Depois do banho, com ela a desarrumar gavetas ou a dar comida aos bonecos, vai de tirar uma fotografia para enviar para as avós ou publicar numa qualquer rede social. E aproveitar para espreitar as últimas publicações no Facebook, fazer um like na foto da Raquel, enquanto ela está ali entretida. “Jantas?”, pergunto ao David. E ele responde e ainda trocamos mais umas mensagens sobre o dia dela e as novidades da creche e o quão crescida ela está, mas não fez cocó nem dormiu grande coisa. Pelo meio, mais uma mensagem não sei de quem, mas é melhor responder já, antes que me esqueça. Ah! E agendar a consulta dela. Pelo meio, faço uma macacada qualquer e ela ri-se. Vem mostrar-me o urso e fazemos uma festa. A avó responde à fotografia com um “que saudades” e respondo de novo. E chega um email de trabalho que diz “É já amanhã, fazemos?” e é melhor responder, a este, porque é urgente.
Entretanto já tenho a criança a esfregar os olhos, cheia de sono, e já não vou a tempo de lhe contar a história como deve ser. O tempo passou e eu perdi o olhar de espanto dela a descobrir a mola do cabelo entre os legos, perdi o sorriso quando encontrou o urso Zé e tão pouco me apercebi do ar vazio quando viu que eu não estava a olhar para ela. “Mamã!” “Sim, filha, a mãe está aqui!” Não está. Estar aqui não é nada disso. Afinal não tirámos SÓ um bocadinho da noite para as nossas coisas. Vai-se a ver e, afinal, SÓ estivemos um bocadinho com os nossos filhos. Estar de estar. Com olhos de ver, com corpo e com alma. De participar, de brincar, de conversar. Não é por acaso que a minha filha sabe muito bem qual é o telemóvel da mãe e qual é o do pai. Não é por acaso que quando os vê espalhados pela casa, os vem entregar, respectivamente. Não tem piada. Não é assim tão giro. É um espelho do que ela viu.Fomos a tempo de perceber que tínhamos de mudar. Decidimos, há uns meses, que durante a semana não há telemóveis, desde o momento em que chegamos a casa até ao momento em que ela se deita. Há excepções, claro, mas fazemos um esforço, consciente. Nada é assim tão inadiável. Nada é mais importante do que passarmos tempo de qualidade com os nossos filhos. Fica a reflexão para quem precisar, mesmo que precise SÓ um bocadinho.

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