Atualidade

22 de Outubro de 2015

É MELHOR COM DEFEITO

AGORA QUE OS MEUS FILHOS ESTÃO CRESCIDOS, QUERO SER MÃE A TEMPO INTEIRO! DAQUELAS QUE RESPONDEM “ESTOU AQUI!” QUANDO ENTRAM EM CASA E GRITAM O SEU NOME.

Quando os nossos filhos são pequenos é duro trabalhar fora de casa, levar à escola, chegar ao emprego, cumprir com todas as tarefas, sem tempo para beber cafés nem para dar mais de dois dedos de conversa no corredor, para depois de picado o ponto, fazer com eles os TPC, engomar a roupa, cozinhar o jantar, dar-lhes banho e disputar a longa batalha que é sempre deitá-los. Mas o pior é a guerrilha psicológica que fazemos connosco mesmas, perseguidas pela culpa de não sermos tão boas mães como devíamos ser, a que se soma uma frustração gigante quando o precioso tempo que temos com eles acaba gasto em birras e gritos. Como invariavelmente é. Cansadas as mães, cansados os filhos, as faíscas ateiam rapidamente fogos que é difícil extinguir.

O paradoxo, no entanto, é que apesar da maratona em que consiste articular a profissão de mãe com a profissão que escolhemos, num duplo emprego sem horas extraordinárias pagas, os estudos revelam que a maioria das mulheres portuguesas não deixaria de trabalhar fora de casa por nada neste mundo. Justificam-se dizendo, por vezes envergonhadamente, que ficar com os filhos, dia após dia, sobretudo se não estiverem na escola, é deprimente, provocando um enorme vazio. Não porque não os adorem acima de tudo e todos, mas apenas porque também precisam de brincar com os meninos da sua idade, fazendo parte de uma equipa de adultos que constrói casas a sério, para além de torres de Lego.

Contudo, aquilo que percebi é que tudo muda quando os filhos crescem. Por crescer entende-se crescer muito, ao ponto de já andarem na faculdade ou, melhor ainda, terem emprego próprio. Decididamente quando são eles que saem e nós ficamos, aí sim, é fabuloso ser mãe a tempo inteiro!

Estas mães podem tomar o pequeno-almoço com as “crianças” e depois voltar para a cama por mais uns minutos, porque eles já vão à vida deles pelos seus próprios meios. Estas mães podem fazer teletrabalho, porque trabalhar a partir do computador é produtivo quando não se é interrompido de dois em dois segundos. Estas mães dão gritinhos de felicidade quando os filhos conseguem vir almoçar a casa, um momento cheio de conversas e sem fitas, sem “Come lá a sopa, ou não te dou o gelado”. Por esta altura, se querem comer, comem, senão pior para eles.

Estas mães deliram com a ida ao ginásio, não para ficar num banco à espera que a aula acabe ou sentir a tensão baixar e o cloro provocar alergia nas bancadas de uma piscina, mas para fazerem todos Body Balance ou Yoga, com filhos que já não se envergonham que a mãe vá com eles.

Estas mães consideram uma festa ir ao shopping em lugar de empurrar baloiços no parque, num fim de tarde em que se entra e sai de lojas, se discute o que fica bem e o que não fica, sem crianças que de repente se sentam no chão e se recusam a dar mais um passo com aqueles sapatos, ou crises adolescentes e amuos condizentes.

E imagine a alegria destas mães que finalmente se podem reconciliar com a consciência, na certeza de serem mães tão presente como as suas o foram.

Por isso, se vive atormentada porque os seus filhos não gozam do privilégio de ao entrar em casa gritar “Mãeee!”, para ouvir em resposta um “Estou aqui!”, deixe-os crescer mais um bocadinho. Estas mães, profissionalmente já seguras, podem fazê-lo, só que quando eles chegam finalmente ao fim do dia, em lugar de ir correr preparar o lanche e mandá-los fazer os trabalhos, pode desafiá-los para se aconchegarem ao seu lado no sofá para verem consigo uma série na Fox. E com sorte, são eles que lhe trazem a si o jantar num tabuleiro. Acreditem, não há nada melhor do que ser mãe a tempo inteiro de gente que já não depende de nós, mas a quem, quero acreditar, ainda fazemos a maior das faltas.

ISABEL STILWELL

Fonte: Máxima.pt