Mães e Pais na 1ª Pessoa

Filipa Oliveira 

Mini Feijão

dificuldades da maternidade

“Escrevo este post na sequência de um comentário ao blog da Ana Maldivas, que sigo com imenso carinho. Ela está a passar por um período conturbado no casamento desde o nascimento do primeiro filho.

 

Quem é minha amiga pessoal sabe que falo disto um trilião de vezes: que a maternidade não é a coisa linda que se fala por aí, especialmente nos primeiros meses. Que é complicado. Que dá muito trabalho, que nos cansa imenso. As minhas amigas acham que sou louca quando as aviso que um filho pode facilmente destruir um casamento, que dá imenso trabalho, que nos primeiros meses acordar de 2 em 2h põe qualquer pessoa louca e que as discussões graves sucedem-se umas atrás das outras. Já falei disto 1000 vezes e toda a gente acha que eu estou a gozar porque supostamente a maternidade é uma cena linda e perfeita.

 

Estou com o meu marido há 10 anos e raras vezes discutimos, mas nos primeiros dois meses da C estava a tornar-se insuportável e cheguei a equacionar seguir sozinha, coisa que nunca antes me tinha passado pela cabeça. O cansaço estava a dominar-nos até que eu disse um basta e sentei-me a conversar com ele. Primeiro tínhamos de colocar um ambiente calmo em casa a ver se a bebé também se acalmava. Resultou. Aos 3 meses tinha a C a dormir toda a noite, mas sou a primeira a dizer que tive sorte com a C, sem dúvida. Porque é bem disposta, nada birrenta, come e dorme perfeitamente e eu digo aos 4 ventos que tenho um companheiro fora de série e que infelizmente tenho poucas amigas com um assim e sinto pena. Porque pais são os dois e não é apenas a mãe e infelizmente sobra muito para cima de nós, o que nos desgasta imenso.

 

É suposto conhecer-se a pessoa com quem se casou e que não se revele uma desagradável surpresa, como vejo muito por aí. Eu tive sorte. Repito mil vezes: tive sorte. Se calhar soube escolher. Se calhar só me casei quando tive anos de experiência a vivermos juntos e tinha a certeza de quem estava ao meu lado. E demorei mais uns tantos a ter um filho.

 

Infelizmente a mim ninguém me avisou do que aí viria. Foi um furacão. Era muito cansaço. Era uma criança que mamava de 2 em 2h e só eu a podia alimentar. Por isso era apenas eu que passava as noites acordada. Ia acordá-lo porquê? Se fosse alimentada a biberão claro que o acordaria. De forma alternada. A divisão de tarefas é importante e muito bonita. Ainda hoje dividimos tudo. Excepção para mim que faço exclusivamente as sopas dela e lavo a roupa de todos porque ele se recusa a aprender a mexer na máquina da roupa. De resto ele também faz tudo. Tudo mesmo, sem excepção. E não se queixa por isso. Porque foi educado assim talvez. E porque me respeita. Essa é a sensação principal que tenho: a de respeito, amizade e carinho.

 

Tive sorte com a bebé que me “calhou”. Podia ter uma criança difícil que chorasse todo o dia, que se recusasse a comer e que dormisse pessimamente. Mas a minha irmã [mãe de três filhos] sempre me disse desde os primeiros tempos que tudo isso se ensinava. Sei que ensinei a C a dormir sempre à mesma hora à tarde e à noite. E a comer. São as rotinas que se instituem e sempre as mantive e respeito-as ainda hoje, com ligeiras aberturas ao fim-de-semana, mas pouco.

 

Isto tudo para dizer que na vida temos de ter sorte com os bebés. Mas fica aqui expresso que a maternidade [pelo menos para mim] não foi um mar de rosas nos primeiros dois meses. Aos três meses já estava tudo bem porque já tinha absorvido o cansaço e compreendido que não valia a pena queixar-me ou discutir. Que seria uma fase e como tudo na vida iria passar. “Mandei” o meu marido acalmar-se e ajudar-me mais porque os dois menos cansados iríamos funcionar melhor, descansar melhor e ajudarmo-nos mais. Não há segredos. Há ambientes calmos, há rotinas e há sobretudo paciência. Porque mal o excesso de cansaço passa [pelo menos para mim] comecei realmente a viver a maternidade na sua plenitude e a amar imensamente a minha filha e a deixar que ela trouxesse felicidade para dentro de casa e não discussões. Mas um filho não salva um casamento. Nos primeiros meses pode destrui-lo. É apenas uma opinião e uma posição por tudo o que vivi e que vejo amigas a viverem. Como uma delas diz: “se não me divorciei nos primeiros três meses do meu bebé, não me divorcio mais”. É realmente complicado, é difícil e muito cansativo, mas acho que temos de racionalizar “a coisa” e sabermos reagir. Porque tudo passa e aí sim, se tivermos a pessoa certa ao nosso lado, tudo se torna óptimo.

 

Hoje posso afirmar que somos muito mais felizes por termos a C. Há um ano e meio atrás não diria o mesmo. Mas voltaria a passar pelo mesmo, porque já sei o que me espera e já saberia reagir de outra forma. Só não percebo porque é que ninguém me avisou antes. Ou será que [como acontece com as minhas amigas a quererem engravidar] tentamos avisar e ninguém nos ouve?

 

12/01/2012

Gostei bastante de ler os comentários que recebi e perceber que afinal não estava sozinha “nesta história” que hoje é de muito amor, mas que teve momentos de quase pesadelo infelizmente.

 

Na maternidade correu sempre tudo bem. Ela mamou sempre perfeitamente, as gretas que apareceram no peito foram prontamente tratadas com Purelan e era tudo novo. Sei que na primeira noite não dormi coisa nenhuma. Primeiro por causa das dores da cesariana. Depois porque fui teimosa e quis-me pôr em pé porque queria ser eu a cuidar da Clara, dar-lhe banho, mudar fraldas e etc. Ela passou a primeira tarde de vida a dormir praticamente. E claro que à noite esteve acordada. Depois adormeceu 5h seguidas. E lá vinha a enfermeira chatear-me que tinha de a acordar por causa do risco de hipoglicémia. Estava desconfortável, inchada e os pijamas que tinha levado não me cabiam por causa do inchaço [má reacção à epidural e um inchaço enorme de corpo inteiro, parecia uma anormal]. Teimei em sair antes do tempo e consegui que a minha médica me desse alta no final do segundo dia. Cheguei a casa já eram quase 23h. Cansada, inchada, calçada com os sapatos do meu marido porque os meus não me cabiam. A cama da C não estava feita. Saí do carro meia a soprar com dores mas lá vim. Ela no ovo de olhos abertos. Fiz-lhe a cama e deitei-a. Dormiu outra vez 5h seguidas e lá tive de a acordar. Lembro-me nesses primeiros dias de alguns dramas, ainda nada de discussões. O drama de a ter de acordar para mamar. De me sentir imensamente sozinha e sem ajuda [isto de não ter mãe tem muito que se lhe diga. É uma ajuda preciosa de certeza, nem que seja anímica]. Depois ela acertou de repente tipo relógio de 2 em 2h. De noite e de dia. Era um desespero. Sou daquelas pessoas que sem as suas 8h de sono fica tipo zombie. Por isso nem vale a pena descrever como andei nesses primeiros meses. Ela desatava a chorar a partir das 6h da tarde até às 9h da noite. Julguei que era do leite [parvoíces – ela aumentava bem de peso e esse é o único indicador válido]. Tentei dar-lhe LA. Cuspiu tudo e ainda por cima ficou com prisão de ventre. E cólicas. E lá veio o bebegel e a saga do choro desesperado. Nunca mais repeti a porcaria do leite artificial e percebi que eram dúvidas de uma mãe de primeira viagem. E que tinha leite e que a menina estava a chegar a um percentil 90, por isso tinha tudo menos fome.

Outro drama: não dormia nada durante o dia. Adormecia na mama. Era terrível. Depois de falar com a minha irmã [a tal mãe de 3] por inúmeras vezes, ela lá me fez raciocinar em várias coisas: que se ela aumentava bem de peso que não era do leite, que chorava por necessidade talvez de aconchego, e porque o choro de final de tarde é, infelizmente, habitual e depois passa quando fica de noite [o pediatra explicou-me toda a teoria científica sobre isto – e existe]. E insistiu comigo para que a ensinasse a dormir sempre à mesma hora. Por isso comecei a sair de casa com ela no carrinho sempre ao final da manhã – e ela dormia – e depois do almoço – e ela dormia outra vez. Ao fim de duas semanas já não precisava de sair mais porque ela já dormia àquela hora por hábito. À noite deitava-a pelas 23h depois do banho e da última mamada [depois acordava outra vez pelas 2h, depois às 4h, depois às 6h e por aí em diante].

Portanto a primeira vitória que consegui foi acertar a hora das sestas. Depois vieram as mamadas. Tinha um caderninho onde apontava as horas a que ela mamava, de que lado e quanto tempo. E comecei a perceber o padrão e foi mais simples organizar-me em torno daquelas horas que ela própria determinou.

Ao fim de um mês a acordar de hora a hora [porque por mais que mamasse de 2 em 2h, por vezes ia adormecendo e chegava a demorar 1h a mamar…], comecei a espingardar em todas as direcções e claro que quem me apanhava de frente era o meu marido que estava mais perto e mais a jeito. É sempre assim – acertamos em quem mais gostamos. A coisa melhorou desde o momento em que ela saltou uma mamada da noite e mamava pelas 23h e depois outra vez só pelas 4h30 da manhã. Dormir essas horas todas seguidas fez uma enorme diferença.

 

Este texto enorme para explicar o porquê do que foi difícil e do que não foi. É um bebé que não interage muito connosco e por mais que inatamente o amemos imenso a brutal relação afectiva não se estabeleceu de imediato no meu caso. Adorava-a, era minha, mas havia ali ainda um qualquer distanciamento porque era um ser que eu ainda estava a conhecer. O cansaço também é muito difícil quando temos um bebé que chora 3h seguidas ao final da tarde [quando já estamos muito cansadas] como eu tive.

 

Uma coisa que sempre fiz questão: tomava banho e arranjava-me todos os dias. Todos, sem excepção. Fizesse chuva, sol ou o que quer que fosse. Não queria tornar-me uma matrafona gorda desarranjada e sempre de pijama. Aliás é coisa que ainda hoje não faço: andar pela casa de pijama. É tema para outro post, mas nunca gostei de andar durante o dia como se tivesse acabado de sair da cama. Sinto-me pouco valorizada, desarranjada e imensos outros etcs. Portanto a primeira coisa que fiz quando me deixaram levantar da cesariana foi tomar banho e fiz o mesmo em todos os restantes dias, nem que para isso tivesse de o fazer às 6h da manhã.

 

Uma coisa que me complicou a vida foi trabalhar e não estar propriamente só de licença de maternidade. O que quer dizer que tinha de aproveitar os momentos que a C dormia para trabalhar alguma coisa. As pessoas que melhor superam esta fase inicial parece-me que são as que dormem ou descansam enquanto o bebé o faz. Eu nunca o consegui fazer excepto de noite e por isso é que o cansaço se tornou extremo.

 

Resumindo e concluindo: o descanso, por pequeno que seja, é importante porque é devido ao extremo cansaço que desatamos a discutir com tudo e todos. A ajuda externa é importantíssima. Eu infelizmente não a tive mas sei que quem pode que a deve pedir. Faz toda a diferença. Arranjem-se todos os dias. Cuidem-se. Parece que não temos tempo, mas temos sempre 5 minutos para tomar um banho e aclarar as ideias. Se puderem saiam um bocadinho sozinhas. Eu fazia-o às vezes para dar a volta a pé ao quarteirão [entre mamadas, conforme o pai chegava a casa]. 15 minutos fazem imensa diferença para arejar as ideias. E mantenham-se enquanto casal, nem que seja sentados no sofá enroscados um no outro ou jantarem juntos todas as noites. Eu chegava a jantar [ou a não jantar…] com a C na mama. Mas jantava sempre com ele, porque eram uns minutos em que estavamos ali a conversar. Basicamente tentem manter a maior normalidade possível, por difícil que seja. E tentem ter um bocadinho enquanto casal. Eu só saí à noite para jantar com ele com a C já com 15 meses, que foi quando deixou de mamar e porque antes não me sentia preparada para a deixar. Mas por mais preocupada que saísse e por mais que telefonasse 3 ou 4 vezes, fez-nos muito bem começarmos a ter esse tempo para arejar. Eu tenho a avó dela que nos ajuda de vez em quando nessa parte, mas tenho uma babysitter de recurso.

 

É isto: não se esqueçam que existem. Que são mulheres. E gostem de vocês mesmas. Mas não se esqueçam que existe outra pessoa de quem antes gostavam. E que não pode ser ignorado só porque surgiu um bebé. Não é preciso grande coisa. Um abraço e um beijo demoram apenas uns segundos a oferecer. Não é preciso tempo, é preciso vontade. E um imenso jogo de cabeça. Porque o sucesso para ultrapassar os primeiros tempos, na minha opinião, está na cabeça de cada uma e no descanso possível, por pouco que seja. E percebermos que são tudo fases que passam e que nada daquele pesadelo que por vezes nos parece que está a acontecer será para sempre.

 

12/01/2012

Estava a lembrar-me do que me avisaram na gravidez:

 

1. que a minha vida iria mudar

2. que iria deixar de conseguir sair à noite.

 

Ora isto dito assim não quer dizer nada e ouvimos isto e ficamos na boa. Temos um casamento estável, é um filho muito desejado, já sabemos que nos primeiros meses [um ano?] que a nossa liberdade desaparecerá e etc. E que a vida muda. Ora claro que muda. São mais contas, é mais trabalho, é um terceiro elemento em casa completamente dependente de nós.

 

O que faltou explicarem-me foi a mudança emocional! Que eu iria sair de um hospital onde tinha entrado gorda [grávida], mas mentalmente normal, e iria sair num turbilhão emocional. Que uma directa todos aguentamos, mas 10, 15 ou 20 destroem a cabeça de qualquer um. Que nós estamos mais preparadas para o que aí vem porque tivémos o bebé na barriga 9 meses e houve alguma mentalização. Para os homens o conceito físico do bebé é um pouco abstracto. Que não vamos ter tempo para comer. Para dormir. Para nos sentarmos sequer.

 

Isto foi tudo o que não me explicaram. E que o tal amor incondicional não aparecia tipo “clique”. Porque não aparece. Porque por mais emocional que seja um parto, e eu nunca me esquecerei da primeira vez que vi a minha filha e das lágrimas que me caíram pela cara e a imensa emoção e alegria que senti, o sentimento era apenas esse – emoção. Não era o amor louco e incondicional que é hoje. E que a minha criança só comeria, dormeria e choraria. E muitas vezes chorava muito. E que os sorrisos só vêm 2 ou 3 meses depois. E que os pais estão em casa [quando podem] cerca de meio mês ou pouco mais. E que depois nem temos tempo para fazer comida. Que a casa passa a estar o caos se ninguém a limpar por nós. E que deixamos quase de comer se ninguém cozinhar para nós. Que só queremos estar confortáveis e deitadas em modo anormal, de preferência sem visitas [graças a Deus que educadamente as bani o mais possível nos primeiros dias] e sem ninguém que nos chateie. Não queremos ouvir ninguém. A criança chora tanto que depois só queremos é o silêncio. E dormir.

 

Foi isto que não me avisaram. Mas [no meu caso] três meses depois ela sorriu-me pela primeira vez. E um pouco antes agarrou-me a mão. Ou encostava a mão ao meu peito enquanto adormecia no meu colo. E olhava-me profundamente com aqueles olhos [ainda] azuis. E tudo começou a mudar. O meu coração acalmou. O amor começou a crescer. Profundamente. Imensamente. Comecei a deixar de discutir com tudo e todos. Aprendi a adormecer com ela a mamar ou com ela no colo [não podia fazer mais nada ao mesmo tempo mesmo]. Aprendi que ela chorava mais deitada no berço ou na alcofa e passei a andar com ela para trás e para a frente no marsúpio. E 20 meses depois não é viciada em colo. Só lhe fez bem a proximidade, aconchego e carinho. E assim comecei a conseguir viver, sair com ela para todo o lado e voltar a ser uma pessoa normal. Foi só deixar-me respirar fundo, relativizar e sobretudo raciocinar. E deixar-me ser invadida pelas coisas boas e não pelas complicadas.

 

Acho que no fundo as pessoas não nos conseguem avisar disto porque só acabam por reter o que é positivo e esquecem-se do que passaram [ou querem esquecer]. Repito: passaria pelo mesmo as vezes que fossem necessárias. Amo-a mais do que a tudo na vida. Vale a pena para poder viver um amor tão incondicional.”

29 meses depois: Hoje somos muito mais felizes. Hoje sinto-me preparada para a segunda volta, com receio de voltar a viver o mesmo, mas sabendo que hei-de saber relativizar. Gostava de ter tido mais companhia, mais ajuda, sobretudo emocional. Porque passei de uma pessoa muito segura para alguém meio doido com todas as transformações e com a volta que a vida deu. Mas valeu a pena. Vale muito a pena. É a aventura mais bonita das nossas vidas. Pelo menos da minha é de certeza =) Venha o próximo. Sendo 4 seremos ainda mais felizes!

 

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