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Nutrição

2 de Outubro de 2015

Devemos obrigar as crianças a comer? Os especialistas respondem

Quem tem fome e alimentos à frente, alimenta-se, diz Mário Cordeiro. O resto, é uma questão de educação: não usar a comida como recompensas, nem ter alimentos alternativos na despensa ou frigorífico.

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Tim Boyle/Getty Images

O seu filho raramente come tudo o que está no prato e sente que já não sabe o que fazer. Mas será realmente eficaz obrigá-lo a comer? Insistir para que ele deixe o ” prato limpo”, utilizando mecanismos de chantagem como “se não comes tudo, não vais brincar”, pode não ser a melhor solução.

Seja em casa, na creche ou na escola, em todos estes locais o seu filho sente a pressão de “ter de comer tudo até ao fim”, caso contrário ficará a perder uma brincadeira ou seguirá direto para o castigo. Falámos com um pediatra e duas nutricionistas para tentar perceber se de facto a política de obrigar as crianças a comer deve ou não ser utilizada. A resposta foi unânime: não devemos obrigar as crianças a comer!

 Quer saber porquê e o que fazer para que o seu filho aprenda a ser mais saudável, porque na verdade tudo passa por aprender e educar? Então vamos dar a palavra a quem sabe. O pediatra Mário Cordeiro, membro da Sociedade Portuguesa de Pediatria e autor dos livros de sucesso “O Grande Livro do Bebé” e “Educar com Amor”, responde assertivamente que não devemos obrigar as crianças a comer, relembrando que o essencial é educá-las também nos hábitos alimentares.

Devemos, sim, habituá-las a não ter caprichos, a comerem o que existe em casa e o que os pais decidiram ser a refeição (salvaguardando um ou outro sabor que possam detestar), mas é bom serem ecléticos nos seus gostos (o que se desenvolve ao longo da vida) e, por outro lado, saberem que a casa não é um restaurante com “menu a la carte”. Os hábitos alimentares adquirem-se nos primeiros anos de vida. Por outro lado, as refeições devem ser um espaço de tranquilidade, conversa, partilha, e não de guerras em que se não se fala de outra coisa que não seja o “come-não come”, explica.

O pediatra relembra ainda que “nenhum animal sadio com comida à frente recusa alimentar-se, se tiver fome. (…) Aliás, a própria birra inerente à recusa é uma mostra de que têm energia que chegue, caso contrário estariam apáticas”.

Agora pense, será que obrigar a criança a comer (o que supostamente ela recusa por não gostar) é o mais correto se o armário estiver cheio de doces, guloseimas, fritos ou refrigerantes? Se quer que o seu filho beba mais água, então o melhor será fazer com que a Coca-Cola desapareça da mesa. Quer que coma mais vegetais e fruta? Então deve educá-lo nesse sentido, ou seja, educar o palato como explica a nutricionista Magda Roma, autora dos livros “A dieta anticancro” e “Dieta M”.

A intenção é educar o palato ao sabor dos alimentos. Gradualmente aumentar a presença desses mesmos alimentos que criam maior resistência na criança até ela não sentir qualquer impedimento em os consumir de forma individual”, explica a nutricionista.

A gordura já não é formosura, ou pelo menos não significa estar de boa saúde. Mas ser magro também não é o melhor indicativo para perceber se uma criança é ou não saudável, já que tudo dependerá da sua dieta alimentar, do seu nível de atividade física ou do sedentarismo. Tudo depende das calorias que ele precisará de ingerir e de outros fatores como a idade, sexo ou altura. “Estar muito magrinho” não pode servir de argumento para querer que o seu filho coma este mundo e o outro porque precisa de aumentar de peso.

A nutricionista Rita Morais, da Clínica Médica e Paramédica de Oliveira do Hospital (CMPOH), relembra a necessidade dos pais se envolverem neste processo de educação, ou em alguns casos, de reeducação alimentar.

Acredito que em primeiro lugar os pais devem dar o exemplo, se querem que o filho coma a sopa eles também o devem fazer. Tudo passa por um hábito. A hora da refeição deve ser o mais harmoniosa e tranquila possível, idealmente sem telemóveis, televisão, internet, etc, ou seja, sem elementos de distração”, esclarece.

Quando os alimentos são usados como instrumentos de obediência

Numa época marcada pelos registos de sobrepeso ou obesidade infantil que afetam uma em cada três crianças portuguesas, é cada vez mais importante repensar modos de vida e sobretudo as regras alimentares. A maioria dos alimentos esconde níveis elevados de açúcar que são muitas vezes oferecidos às crianças, como recompensas de “bom comportamento”.

Mas não falamos só de recompensas de comportamento. Muitas vezes os alimentos (aqueles que as crianças se recusam a comer) são utilizados como instrumentos de obediência. “Este método geralmente é usado para fazer com que a criança faça os trabalhos de casa, tarefas domésticas, ajudar os pais ou para se portar bem: ‘se comeres o peixinho todo, compro-te um jogo’, ‘se comeres a sopa, deixo-te ir brincar’”, confirma Rita Morais.

O pediatra Mário Cordeiro explica que “os alimentos são, antes de mais, um fator de nutrição. Claro que há sabores, como os doces, que podem constituir um símbolo de recompensa, dado que são gostosos, são antidepressivos e libertam endorfinas. Por outro lado, há alimentos que podem ‘cair na mesa’ excecionalmente e que representam, por isso, exceções e transgressões. Todavia, o ‘come senão não te dou isto’ é errado. Uma coisa é comer. Outra é dar ou não”.

No entanto, o pediatra também alerta para outra situação igualmente importante e que revela a outra face da moeda. É que as crianças, em certas idades, também começam a a utilizar a alimentação com arma para conquistar determinadas vantagens. O pediatra dá o exemplo: “Enquanto vestir, por exemplo, com mais luta ou menos luta acaba por ser possível, comer, só se o “interessado” quiser, porque mesmo forçando há o “plano B” de cuspir ou mesmo vomitar”.

Mário Cordeiro explica que alimentação é um dos principais desígnios do ser humano, já que lhe permite sobreviver. ” ‘Quem não come, morre…’. é sabido. Mas falta o post-scriptum da frase: ‘se não tiver comida disponível’ “, acrescenta o pediatra. O que significa que se as crianças souberem que existem alternativas, também as irão utilizar como fuga.

É importante não alimentar este jogo de medir de forças entre pais e filhos. “A alimentação não deve ser usada para educar ou chantagear a criança, façam-no de outra forma, mas também não cedam a chantagens. Se o vosso filho comer o peixe todo só está a fazer uma alimentação completa e saudável, promovendo o crescimento e desenvolvimento adequados”, esclarece a nutricionista Rita Morais, que considera que começamos muito cedo a utilizar os alimentos saudáveis com uma conotação negativa do tipo “come o que menos gosta (ou não está habituado a comer) para fazer o que mais gosta”, acrescenta.

Reeducar para uma alimentação saudável. Os conselhos para os pais

Recusar fruta, vegetais, sopa ou peixe pode ser um cenário habitual em muitas famílias. Uma das principais razões para a recusa diz respeito à existência de alternativas na despensa. Não há nenhuma fórmula secreta que permita seduzir as crianças para o consumo de alimentos saudáveis, mas há pelo menos uma que pode ajudar: eliminar da despesa esses alimentos pouco saudáveis. 

Bolos, bolachas, batatas fritas de pacote ou refrigerantes. A maioria integra o lote de produtos processados que não vão ajudar na reeducação alimentar. A nutricionista Magda Roma considera imprescindível “fugir dos alimentos processados” e diz-se assustada por verificar que a maioria das crianças leva apenas produtos altamente calóricos e açucarados na lancheira.

“Com o dia a dia, o stress, a falta de tempo é sempre mais fácil ir até uma roulotte ou shopping comer do que passar algum tempo na cozinha, e eu, promovo sempre o voltar à cozinha e começar a preparar os alimentos”, aconselha a nutricionista.

O pediatra Mário Cordeiro defende que é necessário definir os hábitos alimentares desde cedo. Aconselha a não ter em casa os produtos considerados inadequados e chama a atenção dos pais.

Deem bons exemplos e sejam modelos para os filhos, no que toca à alimentação (e ao resto) e, finalmente, escolham sempre produtos magros, light, low-fat, low-sugar ou sugar-free, etc., e isso diz respeito a leite, iogurte, queijo, requeijão, etc. E reduzam os fritos (batatas, salgados) e optem por alimentos saborosos, sim, com uso de especiarias, mas com azeite e não com margarina ou banha”, explica.

Todos os especialistas concordam que existem algumas dicas básicas que podem ajudá-lo a si e ao seu filho. É importante fazer um bom pequeno almoço, que aposte nos cereais integrais, fruta ou lacticínios magros. A água deve ser regra, explicando que ela é a base do equilíbrio corporal. Deve ainda insistir nas várias refeições ao longo do dia, tendo sempre em conta a quantidade de alimentos necessários para que os seus filhos fiquem saciados e com energia.

A nutricionista Magda Roma acrescenta que é importante diminuir o tamanho dos pratos. “Hoje em dia os pratos são autênticas travessas e nós continuamos a enchê-las como se estivessem vazias”, refere.

Rita Morais dá ainda outra dica importante sobre as (às vezes) terríveis idas às compras. “Se as crianças são muito “pedinchonas” no supermercado, não as levem, existem muitas tentações para os mais novos e para os mais velhos, por isso poupem-se de chatices e despesas extra”, diz a nutricionista.

“Quanto mais comer, melhor” já não é a regra. A má alimentação está hoje associada a várias patologias graves como diabetes, hipertensão ou colesterol alto. É importante comer bem, sim, mas de acordo com as necessidades, relembrando que existe espaço para tudo na alimentação. Para os alimentos saudáveis e para as exceções.

Ensine o seu filho a comer, mas não faça da palavra “obrigar” a sua regra de gestão. Fale-lhe da importância de se alimentar bem para ter energia para as brincadeiras. Não permita que a pressão de “deixar o prato limpo” afete o seu filho e o modo como ele encara a hora das refeições. E agora, hora da papa!

 

Fonte: Observador