Espaço Família | O nosso 1º Filho

Terapia do Sono

10 de Novembro de 2014

Desmistificar o Treino de Sono

Desmistificar o Treino de Sono

Estabelecer rotinas e ensinar um bebé a dormir é uma opção de cada família e envolve quase sempre questões emocionais difíceis de resolver. Ensinar o bebé/criança a dormir pode levá-lo ao choro – e isso é algo que enquanto pais queremos a todo o custo evitar – mas lidar com vários despertares noturnos, não dormindo mais de 2 ou 3h seguidas pode levar a família à ruptura.

Recentemente tem havido alguma polémica sobre ensinar bebés a dormir. Não é, de todo, uma situação nova no mundo, embora no nosso país pareça que sim. Há muito que pediatras, neurologistas, psicólogos, mães, “sleep trainers” debatem entre si este tema.

Como em quase todas as questões relacionadas com a educação e com o crescimento e desenvolvimento dos mais pequenos, há várias correntes de pensamento. Todas elas apontam os aspectos positivos do que defendem, algo que para mim me parece justo e natural. Se nem com o que pôr na sopa dos bebés há consenso, não poderia haver uma opinião única em relação a algo como o sono!

Quem estuda os ritmos de sono dos mais pequeninos – e quem não dorme e procura soluções – encontra dois lados totalmente distintos.

E é aqui que começa a primeira das falsas questões de quem “demoniza” as pessoas que optam por ensinar os bebés a dormir.

Não existem apenas dois lados de uma moeda. Os métodos de Estivill ou de Ferber (estranhamente, ambos médicos, pediatras e neurofisiólogos) ensinam as crianças a dormir através do “choro controlado”: a criança é deitada na sua cama acordada, sem as habituais ajudas (as “muletas” de que eu tanto falo no meu livro) e é deixada a chorar no quarto, sozinha, de forma a auto-confortar-se. Os pais podem entrar no quarto de x em x minutos para falar com o bebé, mas não tocar-lhe, e voltam a sair. E o espaçamento entre as visitas vai tornando-se cada vez maior.

Com uma filosofia oposta encontramos, por exemplo, Elizabeth Pantley (autora de vários livros sobre bebés e mãe) com uma abordagem sem lágrimas ao sono dos bebés.

Como mãe comecei, obviamente, por procurar este tipo de ajuda. (Sempre achei os métodos de choro controlado demasiado duros e stressantes tanto para mim como para o meu filho e por isso nunca os coloquei em prática). Infelizmente percebi que este tipo de opções, pelo menos no meu caso, tratavam-se mais de literatura apaziguadora do que de soluções para a privação de sono. E compreendi que para além do “preto” e do “branco” há muitos autores e métodos pelo meio. Foram esses que me chamaram a atenção.

Quem treina (ou ensina) bebés e crianças pequenas a dormir nem sempre o faz através de métodos como o de Estivill ou de Ferber.

E… espante-se a comunidade (!), a maioria dos defensores do ensino do sono são médicos de renome internacional. Jodi Mindell, por exemplo, médica, especialista de sono e diretora do Centro de Alterações do Sono do Hospital Pediátrico de Filadélfia escreve exatamente sobre esta temática. Explica nos seus livros que uma das causas para os despertares múltiplos durante a noite e para as sestas curtas é exatamente a necessidade que o bebé/criança tem em repetir o uso das “muletas”. E que por isso é importante que o bebé aprenda a confortar-se sozinho. Para isso, ensina uma série de técnicas que ajudam o bebé a relaxar e que permitem que o processo de aprendizagem seja rápido, mas gentil.

Também a Academia Americana de Pediatria sublinha a importância do sono nas crianças e nos bebés e reforça a ideia de independência neste ato fisiológico que parece tão natural e simples, mas que pode transformar as vidas das famílias.

Já Isabela Granic e Marc Lewis, psicólogos de desenvolvimento, incentivam o ensino (ou a tão temida palavra: “treino”) de sono nos bebés e nas crianças, mas com uma vertente que, pessoalmente, me agrada muito. Estes autores têm em conta as transições e grandes mudanças na vida dos nossos bebés, bem como as suas fases de desenvolvimento. Outros especialistas de sono ignoram ansiedades de separação, desenvolvimentos motores ou alterações como mudança de escola, mas eu estou convencida de que estes são factores que podem determinar o sucesso dos pais quando ensinam os seus bebés a dormir.

Também Harvey Karp, o pediatra “amigo dos bebés” que tanto fala de tentarmos recriar o ambiente intra-uterino para os nossos pequeninos e que usa uma série de truques que se popularizaram entre as mães pelo seu sucesso e facilidade, escreve no seu livro “The Happiest Baby Guide to Gentle Sleep” que quando não se consegue que o bebé durma usando as estratégias que indica, recomenda o treino de sono.

Na verdade, este médico indica, inclusivamente, o método de Ferber (sim! o de “choro controlado” que descrevo no início deste texto) ou uma abordagem mais próxima à de Tracey Hogg (“pick up/put down”) em que pegamos no bebé ao colo sempre que este chorar e voltamos a pousa-lo na cama sempre que estiver mais calmo. Uma vez mais… acordado.

Este pediatra é também a favor de algo que, recentemente vi ser alvo de crítica: a alimentação por cluster ou o “leite dos sonhos” de que falo no meu livro. São estratégias usadas e recomendadas por muitos pediatras no mundo inteiro para prolongar as noites. A alimentação por “cluster” serve para garantir que os bebés recebem as calorias de que precisam durante o dia e não despertam de noite com fome. Para isso, as mães oferecem leite mais frequentemente a partir do final da tarde (no meu ponto de vista, só funciona bem com leite materno) para que os pequeninos ganhem umas calorias extra e não precisem de comer tantas vezes durante a noite. Já o “leite dos sonhos” é, segundo Harvey Karp, “excelente para o bebé porque oferece-lhe as calorias extra de que precisa para dormir melhor. E excelente para a mãe porque a refeição, para além de não ser uma “recompensa” a um despertar, é a uma hora mais conveniente para a mãe, permitindo-lhe descansar mais umas horas”.

Quem leu o meu livro, quem veio às minhas consultas, quem me aborda em palestras ou por mensagens no facebook ou email, sabe e entende que a minha posição relativamente ao treino de sono é algo que adequo à família. Não promovo o choro controlado. O que faço é uma abordagem minha a uma técnica que se chama de “conforto controlado”. Em todo o momento indico aos pais para estarem junto dos filhos. Para não os deixarem sozinhos. Para os acalmarem. Para lhes darem beijinhos, palmadinhas, miminhos, festinhas e até colo. A estratégia é mesmo essa: acalmar o bebé, mas não o adormecer. E para isso, há uma preparação. Horários adequados, rotinas relaxantes, tempo de qualidade em família. Se pensar no sono só como o ato de dormir, então a possibilidade de sucesso é muito menor. E é isso que evito fazer.

E faço-o com confiança. Até porque, ao contrário do que se afirma, o único estudo mundial sobre os efeitos a longo prazo do “choro controlado” – um estudo da Universidade de Melbourne – indica que não há qualquer impacto negativo nas crianças que foram sujeitas a essa abordagem. Na verdade, a Dra. Anne Price da Murdoch Children Research Institute, que estudou e seguiu o desenvolvimento emocional e cognitivo de 326 crianças indica que “o uso de técnicas de conforto controlado em bebés a partir dos 6 meses de idade ajuda a reduzir problemas de sono no bebé bem como a depressão pós natal nas mães de bebés que não dormem bem”.

A verdade no meio disto tudo é que cabe a cada família escolher o que é certo para elas. E que ao levantarmos estas questões – ainda que com diferentes opiniões e modos de as viver – a única coisa que fazemos é permitir que mais pessoas fiquem a conhecer que há possibilidade de alterar a forma como vivemos o descanso.

Para mim, o descanso dos bebés e das crianças é muito importante. Mas também o descanso das mães (e dos pais). Nunca me pareceu que uma mãe que me procure para ajudar o seu filho a dormir melhor fosse pior mãe. Pelo contrário. O que mais vejo é a vontade de serem melhores mães. Mães com mais paciência, mães mais felizes, mães mais descansadas. E é isso, que na grande maioria das vezes, conseguem.

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