Atualidade

9 de Julho de 2014

Deixem-nas ser crianças por um bocadinho…

Durante os meses de Verão há uma panóplia de actividades para os mais novos que, por vezes, fazem das férias um prolongamento das aulas.

O Verão chegou e as férias também. Uma boa notícia para as crianças e, muitas vezes, um problema para os pais, que, por opção ou necessidade, têm de encontrar actividades para ocupar os tempos livres dos filhos. O risco é, como alerta o psicólogo José Morgado, o de criar “crianças-agenda”, que mesmo nas férias continuam com uma sequência organizada de actividades.

Para este docente do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), estabelecer um horário é sempre importante na organização das entidades que acolhem os pequenos, mas considera necessário que haja momentos realmente livres. “O que gostarias de fazer?”, é a pergunta sugerida por José Morgado, salientando que a resposta da criança deve ser respeitada, seja brincar na rua ou conversar com os colegas. “[É preciso haver] tempo que é ocupado com o que as crianças querem fazer” por sua livre iniciativa, diz Morgado, recusando que todos os tempos livres sejam “orientados”, com os olhos postos no relógio até ser hora de fazer a tarefa seguinte.

O pediatra Paulo Oom também defende que é importante que seja dada às crianças a possibilidade de escolher e que tenham um convívio em três vertentes: ao ar livre, com outras crianças e com regras. “Há o tempo de férias e o tempo de aulas, mas também é importante que haja regras nas férias. Não têm é que ser com o mesmo rigor”, diz.

José Morgado lembra que um ano lectivo tem, sensivelmente, dez meses. E que nesses dez meses, as crianças se esforçam, umas mais do que outras, fazendo das férias ou menos merecidas. Mas seja qual for o caso, é necessária uma pausa para “recarregar baterias”, como diz Renato Paiva, psicólogo e director da academia WowStudy. Caso contrário, há o risco de no tempo de aulas as crianças desejarem “dar mais de si e não conseguirem, porque estão, efectivamente cansadas”.

O professor do ISPA acrescenta ainda que não faz sentido dizer que brincar nas férias é uma “perda de tempo”, lamentando que os pais insistam que “os miúdos têm é que estar a aprender coisas e se, aprenderem um ano antes… melhor, porque assim ganham um ano aos outros.”

Esta “pressão para a excelência”, cheia de “tempos livres estruturados”, começa cada vez mais cedo. Paulo Oom alerta para o risco de a preocupação dos pais não coincidir com a das crianças. E aconselha uma conversa com os filhos, que podem “não querer ir para um campo de férias ou até podem querer ir, mas para o campo A ou B”.

O desejo de “crianças excelentes”, com mais conhecimentos em áreas como a ciência, é uma das preocupações dos pais que procuram colocar os filhos em campos que contemplem esta oferta, como por exemplo, a CTEM Academy, em Braga, ligada à ciência, tecnologia, engenharia e matemática.

Rui Baptista, professor e membro da direcção pedagógica da academia, conta que, por vezes, a inscrição neste programa parte de “uma preocupação profunda dos pais”, que vêem estas como as “áreas de maior desenvolvimento” e as querem estimular.

Mas será que desenvolver competências durante as férias garante melhores resultados no ano lectivo seguinte? Renato Paiva, psicólogo e director da academia WowStudy, afirma que “é contraproducente, porque os miúdos não têm pausas efectivas, que são necessárias para depois, quando chegar Setembro, estarem mais equilibrados”.

Outra questão importante é onde se realizam estas actividades. A oferta de escolas e universidades tem aumentado, mas a opinião de Isabel Gregório, presidente da Confederação Nacional Independente de Pais e Encarregados de Educação (CNIPE), é a de que este tipo de serviços “devia funcionar fora das instalações dos centros escolares”, sob pena de haver “crianças que passam um ano seguido na escola, o que não é nada benéfico”. Um aspecto que merece concordância de José Morgado, dizendo que há escolas que de manhã levam os miúdos à praia e que durante a tarde os trazem para a escola. “Por que haveriam de estar na sala de aula?”, questiona.

Fonte | Público