Espaço Família | Como Cresceram

Psicologia

5 de Junho de 2014

De Madrasta a Madrinha

madrasta

A literatura e cinema infantis não trazem boa publicidade ao papel da madrasta, basta pensarmos em exemplos como a Branca de Neve ou a Cinderela e rapidamente podemos colocar hipóteses pouco positivas sobre as fantasias das crianças face a uma nova relação do pai ou da mãe.

Para além disso, a apresentação do novo namorado ou namorada aos filhos confronta a criança com a irreconciliação do casal parental, uma expectativa legítima de qualquer filho.

Finalmente, a chegada de um novo elemento adulto comporta mudanças, adaptações e muitas dúvidas: qual o papel desta nova pessoa? Que fatia do meu tempo vai ser ocupada por ela? Significará isto que vou ter de competir com irmãos que têm o pai/a mãe em full-time?

E do lado da Madrasta/Padrasto? Que preocupações tem quem está neste papel?

Este tema tem suscitado o interesse de muitos investigadores, em grande medida impulsionado pelas alterações ao modelo familiar, que se tornaram cada vez mais frequentes nas últimas décadas.

Lisa Doodson é uma destas investigadoras. Nos seus estudos com mulheres que têm a seu cargo enteados (custódias partilhadas ou não) apresentam elevados níveis de ansiedade. As principais preocupações destas mulheres advinham da ambiguidade do seu papel e com a definição de limites e fronteiras em relação à restante família, nomeadamente a mãe biológica.

Outra preocupação que aparece mencionada na literatura é a necessidade de ser aceite e amada pelos filhos do companheiro/a, o que é compreensível e legítimo, mas, num primeiro contacto, ambicioso.

Assim, deixamos algumas estratégias que visam tornar mais fácil o desempenho deste papel tão importante e delicado.

1- Definir as regras e limites.

É importante que os adultos estejam “alinhados” no que toca às regras que a criança ou adolescente deve cumprir em cada momento, só assim poderá balizar o comportamento sem criar rupturas com o que a criança está habituada a fazer. Por exemplo, se a criança tem por hábito ver televisão enquanto janta, terá dificuldade em aceitar que não o autorize a fazer.

Ao mesmo tempo, é importante que também seja explicado à criança qual o papel da madrasta, para que também ela perceba que a deve respeitar.

2- Definir o seu papel:

Converse com o seu companheiro/a e procure esclarecer o que é esperado de si no papel de co-cuidadora da criança. Quais são os momentos em que deve intervir e quais aqueles que deve deixar que seja o pai ou mãe resolver. Assim, evitará conflitos e mal-

entendidos.

3- Garantir o respeito mútuo:

Pode acontecer os adultos não terem o mesmo ponto de vista sobre o certo e o errado a cada momento, ou quando castigar ou desculpar uma atitude errada.É importante que falem abertamente sobre isso num momento em que a criança não esteja presente. Exponha o que sentiu e o que entende sobre a situação e procurem chegar a um acordo que satisfaça ambas as partes. O mesmo acontece quando as alterações na semana do pai ou da mãe se sucedem e lhe trocam os planos, é importante que manifeste o que está a sentir.

4- A construção da amizade com o enteado:

Os medos e inseguranças levam a querer agradar a criança, conquistá-la. Sabendo que ela é a pessoa mais importante do mundo para os seus pais, fantasiamos que é imprescindível que ela goste de nós e tem de ser logo, desde o primeiro momento! Não! A criança precisa de tempo para a conhecer e perceber que não é uma ameaça ao afecto do progenitor. Em caso de divórcios recentes, até precisa de tempo para se zangar e fazer o luto da família como a conheceu. Se for muito invasiva ou tentar agradar demais a criança fica desconfortável. Também o adulto leva o seu tempo a conhecer e afeiçoar-se à criança. As prendas e os jogos não aceleram este processo.

5-  Má-drasta ou Boa-drasta?

6-  Cuidar do papel de cada um:

Muitas vezes o papel da madrasta confunde-se com o papel da amiga e confidente, o que é bom mas dentro de certos limites. Existem riscos e cuidados a ter. A “Boa- drasta” pode ser um elemento valioso a acolher as preocupações das crianças, as suas queixas e angústias, mas com o olhar do adulto que quer o seu bem e que dá um importante contributo para a sua educação. Existem cuidados a ter nomeadamente nunca se substituir ao papel do pai ou da mãe nem ser sua aliada contra estes por muito que ache isso válido numa ou outra situação.

É muito importante que a imagem do pai ou da mãe sejam preservados. Nunca arrisque criticar esta ou aquela atitude destes. A criança vai sentir isso como um ataque a alguém que ama. Por outro lado, o desejo de receber a aprovação de todos e agradar a todos pode levá-lo a uma situação de ambivalência muito prejudicial à sua saúde emocional. Da mesma forma, é importante que acolha as saudades da mãe quando está com o pai e o deixe expressá-las, as acolha e até ser um aliado a minimizar as mesmas com mimos ou ajudando a fazer aquele telefonema para o pai ou mãe à hora de ir para a cama.

Muito mais há para dizer e sugerir neste tema tão rico. A nossa experiência clínica com crianças reforça a importância que uma madrasta ou um padrasto podem ter na vida das crianças, nomeadamente na promoção do seu bem-estar.

Para nós, na Oficina de Psicologia, também é importante escutar o que todos sentem e as suas preocupações como parte integrante da equipa educativa que são.

Helena Almeida

logo3