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Psicologia

26 de Março de 2014

Da gravidez à maternidade: a experiência psicológica

Quando uma mulher engravida, a sua identidade muda. Deixou de ser a Ana, a Maria, a Madalena, passa a ser a grávida. Futuramente, será a mãe. Isto implica uma integração de algo novo na identidade da mulher. Este processo pode ser mais ou menos tranquilo, independentemente de a gravidez ter sido desejada e/ou planeada.

A gravidez é um estado que prepara e precede uma modificação contínua e permanente: a maternidade. O desejo de uma gravidez pode não coincidir com o desejo da parentalidade e será esta uma das tarefas da grávida: preparar-se para uma modificação na sua identidade. Ensaiar cognitivamente papéis e tarefas de parentalidade, iniciar o processo de reestruturação para incluir o novo elemento, incorporar a existência do filho na sua identidade, aprender a aceitá-lo como pessoa única, com vida própria, são tarefas psicológicas da gravidez.

Estar grávida também significa testar a funcionalidade do corpo. Especialmente em situações de prévia infertilidade ou em casos de fantasias relacionadas com este tema, o engravidar significa que se “é capaz” em termos físicos e fisiológicos. Em situações em que a gravidez está associada a dificuldades na imagem corporal, a mulher pode sentir que deixa de ter controlo sobre o próprio corpo, surgindo questões relacionadas com o aumento de peso, a produção de leite ou questões como: “voltarei a ter o mesmo corpo?”. Muitas vezes estas situações estão relacionadas com preocupações prévias à gravidez, relativamente à imagem corporal.

Durante toda a gravidez e, depois, no puerpério, a mulher terá tarefas de desenvolvimento que se relacionam com este importante passo no ciclo de vida. Em primeiro lugar tem que existir espaço para aceitar a gravidez, o que costuma decorrer no primeiro trimestre de gravidez. Independentemente do planeamento ou desejo desta gravidez, é natural que surjam ambivalências: “será que vai correr bem?”, “vou ter apoio?”, “vou-me adaptar a este estado?”. Por volta do segundo trimestre, a mulher terá que aceitar a realidade do feto. A mãe concebe o bebé como parte de si e a sua atenção centra-se nas transformações corporais. Com os movimentos fetais e ecografias, a representação do bebé vai-se tornando mais autónoma e começa a aceitação da diferenciação mãe-feto, que é fundamental para a ligação emocional. Surgem fantasias acerca dos cuidados maternos, imagem física do bebé, temperamento e nome. A grávida acaricia a barriga, fala-lhe e canta-lhe. Esta comunicação verbal e tátil é o indicador externo dos processos intrapsíquicos desta etapa.

A grávida também terá que reavaliar a relação com os seus próprios pais. Os momentos mais gratificantes e também os mais dolorosos são revividos e podem conduzir a um maior contacto e proximidade com a figura materna (a futura avó materna). A relação com o parceiro também será restruturada: ao papel de companheiro romântico soma-se o papel de pai do bebé. As rotinas, o relacionamento afetivo e sexual serão restruturados e a relação prévia do casal é determinante em termos do nível de conflito que possa surgir durante a gravidez e no puerpério.

No terceiro trimestre e no puerpério vive-se a separação física do bebé, e este terá que ser encarado como indivíduo separado. Aí, a mulher confronta o bebé real com o bebé fantasiado e o grande desafio da parentalidade começa, sendo a grande exigência a de saber interpretar e responder adequadamente ao comportamento do bebé.

Marta Russo – Psicóloga Clínica/Psicoterapeuta

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