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Saúde

21 de Março de 2014

Cuidados com as cicatrizes

Perguntam-me muitas vezes como disfarçar uma cicatriz. Antes de mais, é importante perceber que as cicatrizes inestéticas evitam-se, começando com os cuidados antes da incisão (no caso de ser uma cirurgia programada) ou no acto de sutura (se tiver sido uma ferida acidental). Os cirurgiões pediátricos têm uma grande responsabilidade sobre eles, porque as cicatrizes que deixam são para toda a vida. Por isso, existe sempre uma preocupação estética no que diz respeito ao local e ao tamanho das incisões que fazemos. Para além da escolha de zonas menos visíveis, o cirurgião pediátrico fará as incisões em pontos de menos tensão da pele (por exemplo, nas pregas naturais que a pele faz), para que o processo de cicatrização seja mais fácil, e a cicatriz não ‘alargue’. Outros cuidados têm a ver com o tipo de fios usados, o ponto dado, o tipo e tempo em que o material estará incorporado no tecido, mas entraria numa discussão técnica que não interessa para o caso.

Depois do ‘estrago’ feito, os tecidos serão aproximados (suturados) de forma a que a cicatrização da pele se faça da forma mais natural possível. Existe uma fase inicial de inflamação que dura 2-5 dias. Depois, segue-se a fase de regeneração das fibras de colagénio (matéria que dá suporte e elasticidade à pele), que mais tarde (numa terceira fase) vão rearranjar a sua arquitectura até dar o aspecto definitivo da pele cicatrizada. Posto isto, como devemos cuidar da ferida para que a cicatriz não fique feia?

1º Cumprir as ordens médicas. As feridas são muito diferentes. Para além de causas diversas, os locais, os fios de sutura usados, a profundidade do corte, entre outros pormenores irão influenciar os cuidados necessários. Daí, cumpra o que lhe disserem. Se o penso é para levantar passados 5 dias, levante. Se os pontos são para tirar passados 10 dias, tire. Se lhe derem a indicação para aplicar Betadine ou uma pomada com antibiótico, aplique. Estes cuidados iniciais são fundamentais para que a ferida não infecte nem abra antes do tempo. É o primeiro passo para uma boa cicatrização.

 Tirados os pontos e estando a crosta formada, é tempo de massajar a cicatriz. A massagem com um creme gordo 2-3x ao dia, ajuda a amolecer a fibrose (endurecimento) dos tecidos por baixo da cicatriz. Para além disso, hidrata uma pele que está sensível, ajuda a retirar as células descamativas da crosta e alivia algum prurido (comichão) que possa existir na zona da cicatriz.

3º Proteger muito bem da luz. A cicatriz passará por várias cores. Saída a crosta, fica uma linha ruborizada que vai escurecendo até ficar castanha, clareando de seguida até ficar branca (ou pelo menos mais clara que a pele normal à sua volta). Até chegarmos até esta fase mais clara é importante proteger muito bem do Sol. De outra forma, vai haver muita estimulação dos melanócitos (células responsáveis pela produção do pigmento da pele), fazendo com que a cicatriz fique escura. Esta fase pode demorar 6 meses a um ano, pelo que pode apanhar os meses de calor. Assim, proteger sempre muito bem com um bom protector solar, reforçado várias vezes ao dia.

 Havendo uma preocupação estética (dado o local da cicatriz) ou historial de cicatrizes que ficaram muito feias (quelóides ou cicatrizes hipertróficas) é aconselhável aplicar um gel de silicone. Apesar de poder ser usado como tratamento de cicatrizes inestéticas, o gel de silicone tem maior efeito se usado assim que cai a crosta. O gel cria uma película protectora, deixando por baixo um ambiente ideal para a cicatrização. Esta camada dura 24 horas, mas, se for em zonas de fricção, convém reforçar a meio do dia. No mercado português, existem duas marcas: o Dermatix (€40,90) e o Kelo-cote (€31.05), sendo que este último tem uma versão ‘solaire’ que incluí uma protecção SPF 30 (€40,13). É um dois em um ideal para aplicar nas zonas expostas ao Sol. O preço é caro para a bisnaga mínima que contém, mas a película a colocar deve ser mesmo transparente. Os 15g deverão durar os três meses do tratamento.

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Dr. João Moreira Pinto

Cirurgião Pediátrico

E os filhos dos outros