Atualidade

4 de Junho de 2014

Crise faz aumentar casos de violência e maus-tratos sobre crianças

O director do Plano Nacional para a Saúde Mental, Álvaro de Carvalho, revela à Renascença que há mais casos de crianças e adolescentes vítimas de maus-tratos físicos e psicológicos a chegar às urgências.

É um dos efeitos da crise sentidos pelos médicos. Ainda não há, no entanto, números que dêem forma esta percepção dos profissionais que trabalham nos serviços de urgência de pediatria e pedopsiquiatria.

Numa grande reportagem multimédia que será publicada esta quinta-feira, a Renascença olha as situações limite que surgiram nos “anos da troika” e conclui que as crianças são vítimas silenciosas das consequências da austeridade.

“Tal como em relação à violência doméstica se regista um acréscimo, também [se verifica] em relação a maus-tratos em termos gerais. Não apenas maus-tratos psicológicos, mas também físicos, incúrias, acidentes domésticos, etc.”, diz Álvaro de Carvalho.

A explicação é simples e está estudada internacionalmente.

“A situação de crise provoca um aumento de tensão, em primeiro lugar nos adultos, que depois se vai repercutindo na cadeia familiar e na cadeia dos conviventes. E como é infelizmente tradicional, quem tem menos poder em qualquer grupo, acaba, muitas vezes, por ser o bode expiatório da situação de tensão, desespero, angústia, depressão, de quem tem mais poder, que neste caso são os adultos”, elabora.

Faltam camas e técnicos
Em 2013, mais de 19 mil crianças foram a uma consulta de pedopsiquiatria pela primeira vez – um aumento de 30% em relação a 2011, revelam dados da Administração Central dos Sistemas de Saúde.

Álvaro de Carvalho diz que é preciso cuidado a ler estes números. Podem reflectir também melhor acesso a um maior número de serviços de psiquiatria na infância e adolescência.

Em Portugal, “há 41 serviços de saúde mental, 36 dos quais têm unidades de infância e adolescência”. E isto representa um “avanço”, promovido pelo Plano Nacional de Saúde Mental, em relação à oferta dos últimos anos, defende o psiquiatra. Mas, ainda assim, “não chegam para as encomendas”.

“Temos uma grande carência de psiquiatras da infância e da adolescência e, nalguns destes locais, em regra hospitais gerais, há só um pedopsiquiatra, às vezes sem a colaboração em tempo completo de outros profissionais: enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais”, refere.

Para os casos mais graves, que exigem internamento, há 20 camas em todo o país. O que implica que muitos jovens e crianças tenham de ser internados em serviços para adultos.

Vítimas silenciosas da crise
A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece que as crianças são extremamente vulneráveis em situações de crise. E diz que, pela influência que tem sobre os pais, a crise financeira pode “provocar défices no desenvolvimento cognitivo, emocional e físico” dos menores.

Para o presidente da Cáritas Portuguesa, Eugénio Fonseca, não faltam provas disso mesmo em Portugal. As crianças estão a ser as grandes vítimas – e muitas vezes silenciosas – da crise.

“As evidências que nos vão chegando de crianças que, por terem tomado como última refeição o almoço do dia anterior, esperam pelo dia seguinte para tomar a refeição da manhã e acabam por enfraquecer, o que se expressa muitas vezes em desmaios e quebras de tensão”, enumera Eugénio Fonseca. “E depois também problemas de saúde que podem surgir, o aparecimento de determinadas doenças…”

O presidente da Cáritas é contundente: “há expressões muito visíveis (do sofrimento das crianças) e se não há mais é porque nós ainda temos, em Portugal, um flagelo a somar à pobreza, que é a pobreza encoberta, que encerra em si o escondimento da situação em que se vive. Muitas vezes os próprios filhos escondem, porque são ensinados a esconder, na tentativa de que os pais superem a situação em que se encontram. E isto é horrível.”

Detectar problemas mais cedo
A Ordem dos Psicólogos diz que faltam profissionais nas escolas, que podiam ajudar a detectar casos graves mais cedo. Pelo menos 750, para cumprir um rácio ideal de um psicólogo para mil alunos.

Há muito que os psicólogos denunciam uma “cobertura deficiente”, não só nas escolas mas também nos centros de saúde, diz o bastonário Telmo Mourinho Baptista. A Ordem defende que “investir nesta área poupa dinheiro ao Estado, poupa dinheiro ao sistema de saúde” e que será sempre melhor opção do que insistir no “desperdício” de ter profissionais formados que não são aproveitados para as necessidades da população.

A reportagem multimédia “A crise no limite” é publicada esta quinta-feira no site da Renascença. Será a penúltima da série “Os Anos da Troika”, “Um passo atrás”, “Na teia de um resgate” e “A grande debandada”.

Fonte | Rádio Renascença