Mães e Pais na 1ª Pessoa

Inês Simões 

Eu, Mãe

CRIANCINHAS

Eu sou a primeira a atirar pedras. E atenção ao presente do indicativo, o revirar de olhos não me passou com a maternidade. Eu não suporto criancinhas. Assim, tem de acabar em “inhas”. Não são simplesmente crianças, são as “inhas” nojentinhas. Birrentas, barulhentas, choronas, mal educadas, respondonas, destravadas, you name it. Eu não as suportava e continuo a não suportá-las.

Continuo? Ou será que estou mais mole? Ou menos atenta? Ou será que ando cheia de sorte? Ou será que vivo debaixo de uma pedra? Ou será que ando a rodear-me das melhores pessoas do mundo?

É que, este Verão, tenho precisamente lido um pouco por toda a blogosfera as mais variadas manifestações desta minha posição de enfado e intolerância perante as criancinhas. Que gritam no meio da rua, nos restaurantes, que fazem fitas, que chapinham água gelada, que se manifestam. E sempre perante a indiferença dos paizinhos. É que eu ainda não tinha referido um ponto fundamental da minha teoria. Para cada criancinha tem de haver um paizinho. O “inho” (ou “inha”, que aqui não destinguimos género) que fica impávido e sereno a tratar da sua vida, ou a olhar para ontem – olhar para dentro não vale a pena porque é só espuma e vento que por lá anda – enquanto o seu rebento arrebenta com tudo num raio de 200 metros. E claro que nos relatos irados, a acompanhar a criancinha, está sempre o bom do paizinho.

Ora, eu li tantas histórias, apercebi-me de tanta celeuma por todo o lado e só me ocorria uma coisa: eu não vi nada disto no meu Verão. Lá está, ou estou mais tolerante, ou menos atenta, ou com muita sorte, ou simplesmente demasiado ocupada – todas as possibilidades estão perfeitamente em aberto – , mas na verdade as minhas férias não foram heackadas por criancinhas.

Pelo contrário, tenho que sair aqui em defesa de todos os desgraçados pais que me acompanharam no fardo destas férias, pois nós e todos os que andavam à nossa volta – e acreditem, há uns bons tempos que nem sinto o cheiro de férias sans enfants, por isso andei rodeada de criançada por todos os lados – não fomos nada “inhos”. Mas mesmo nada.

Para cada choro, lá vinha uma mãe disparada. Para cada corrida mais entusiasmada, lá vinha o pai a sprintar para controlar a cria. Para cada areia atirada, lá vinha um “Cuidado com as pessoas!”. Por cada chapinhar mais forte, lá vinha um olhar de cãozinho e um retesar de “ups” fiz asneira. Por cada bola que nos atingia, lá vinha o pedido de desculpas ou o acto de contrição, mais ou menos envergonhado, mas lá vinha. Nos voos houve choro, os nossos lá incluídos, e lá os conseguimos calar. Juro que não vi criancinhas, vi apenas crianças, com tudo de bom e de inconveniente, cujos pais estavam atentos. Mais, as crianças não faziam nada de mais e os pais por vezes até pecavam por excesso de zelo.

Sempre achei que o que mais fazia as criancinhas eram os paizinhos, e continuo a achar, porque eles existem, oh se existem! Podem não estar no meu bairro, mas existem! Mas francamente, se eu parar para pensar nas minhas férias, o certo é que sempre vi os pais a tomarem providências, nem que fosse sair com o miúdo do restaurante, ainda que apenas uns bons minutos depois de tentar engolir em seco a cena de choro que se estava a desenrolar. Se calhar era uma “criancinha”, o facto é que a cena ficou registada, mas acabava por ser controlada. Ou seria antes uma criança com um dia de praia no lombo e uma mãe de férias, cada uma com os seus cansaços, que diabo?

Talvez. Lá está, talvez eu esteja mais tolerante, mais mole, afinal. Talvez de entre todas as possibilidades acima elencadas, eu comece a achar que o que mudou não foi tanto nada daquilo, mas simplesmente eu aperceber-me que a maioria dos que antes para mim eram “inhos”, afinal são pais esforçados, que ainda assim, não conseguem dar SEMPRE conta do recado em três tempos. Acontece! E porque esses pais estão rodeados de pessoas que começam a dedilhar furiosamente o telemóvel porque ele está a demorar mais que meio segundo a aceder ao wireless, levam logo com o rótulo de selvagens, e “calem-me essa criança”!

Mea culpa. Mas já começo a separar o trigo do joio. E eu sou trigo, hã!? Acontece aos melhores.

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