Atualidade

27 de Outubro de 2014

Crianças portuguesas reconhecem a crise como um problema que afeta o seu quotidiano

As crianças portuguesas reconhecem a crise como problema, sentem que os adultos estão a sofrer com o desemprego e a falta de rendimentos, diz a Unicef.

O Comité Português para a Unicef realizou, entre março e maio de 2013, um estudo, que envolveu 77 crianças e adolescentes com idades entre os oito e os 17 anos, com o objetivo de analisar o modo como elas observam a atual crise e sentem o seu impacto no dia-a-dia.

O estudo faz parte do primeiro relatório publicado pelo Comité Português para a Unicef, hoje divulgado, “As Crianças e a Crise em Portugal — Vozes de Crianças, Políticas Públicas e Indicadores Sociais, 2013”, que analisa a realidade das crianças em Portugal num contexto de crise económica e financeira.

Para as crianças entrevistadas, os adultos são os que sentem mais o impacto da crise, porque é sobre eles que recai a responsabilidade de sustentar as famílias.

Todas as crianças, independentemente da idade ou meio social, mostram-se sensíveis ao impacto das medidas de combate à crise na vida da população em geral, dos seus familiares e amigos.

“Mais do que espectadores passivos da vida familiar ou social, as crianças revelam-se observadores atentos e preocupados com o quotidiano dos pais ou cuidadores”, salienta o estudo, a que a agência Lusa teve acesso.

As crianças mostram-se capazes de identificar dificuldades, privações e estratégias de resistência ou mudança em consequências das alterações económicas e sociais.

Quando questionadas sobre o impacto da crise nas diferentes gerações, uma percentagem significativa das crianças refere que os pais são os mais afetados pela crise no presente.

Consideram também que “os quotidianos familiares, escolares e sociais estão a ser afetados, em especial ao longo do último ano pela presente situação de incerteza económica e financeira em Portugal”.

A Unicef observa que as modificações identificadas no seu dia-a-dia “variam em intensidade e grau de privação de acordo com o seu meio social”.

Para algumas crianças, as mudanças consubstanciam medidas de racionalização de gastos “a mais”, e para outras traduzem-se num corte drástico no consumo de alguns bens e serviços.

“A crise parece ter ainda para muitas crianças um impacto nas relações familiares, tanto ao nível da relação conjugal como da relação pais-filhos”, sublinha.

Como razões para esta situação apontam a falta de emprego e a dificuldade em assegurar as necessidades da família.

Sobre o impacto da crise no trabalho e nas condições do emprego dos pais sobressai para todas as crianças o aumento do número de horas que estes dedicam à vida profissional e que afeta a relação pais-filhos.

As crianças que vivem em situações de vulnerabilidade económica salientam um dos pais, ou ambos, ficaram sem emprego devido à crise.

Nestes casos, o estudo constata que “são raras as situações em que o desemprego dos pais é percebido pelas crianças como representando mais tempo para os filhos”.

O estudo mostra também que as crianças têm consciência de que a crise está a comprometer o seu futuro, antevendo as consequências negativas que poderá ter para os seus projetos de vida em termos de formação, do emprego e da vida familiar.

Falam já na hipótese de emigrar e questionam a possibilidade de aceder ao ensino superior.

Fonte | Diário de Notícias