Atualidade

18 de Agosto de 2014

Criados para aquilo que não podem ou não querem ser

Qualquer classificação geracional uniformiza o diverso, mas ajuda a perceber o que é comum. Os que nasceram entre 1965 e 1981 viveram “uma promessa de estabilidade” e agora lidam com a incerteza, sob forte pressão para terem filhos e serem perfeitos nesse papel. Este é o segundo de cinco textos publicados ao domingo sobre as diferentes gerações.

Silvana Mota Ribeiro conta 40 anos e namora há dez. Se usar um vestido largo, uma suspeita propaga-se no seu local de trabalho — a Universidade do Minho. Da última vez, perguntou-lhe uma sorridente funcionária: “A senhora professora está de esperanças?” Ela arregalou muito os olhos, como lhe acontece sempre que fica horrorizada com qualquer coisa: “Tenho esperança de não estar!”

Portugal atingiu a mais baixa taxa de natalidade da União Europeia. É forte a pressão para ter filhos, mas aquela a que os americanos chamaram Geração X — a dos que nasceram de 1965 a 1981, ou mesmo a 82, 83, 84, conforme os estudiosos — nunca se rendeu por completo à parentalidade. Desde que os primeiros atingiram a maioridade, Portugal deixou de fazer renovação geracional.

O país da infância de Silvana era outro. As crianças ficavam entregues a si próprias sem que aí se visse negligência parental. Brincavam na rua com cordas, bolas, bicicletas e carrinhos de rolamentos. No fim do dia e no fim da semana, assistiam aos mesmos desenhos animados — a Heidi, o Marco, o Conan, o Tom Sawyer, o Calimero, o D’Artacão e os Três Moscãoteiros. Só havia RTP.

Experimentaram o videoclipe. Imitaram estrelas Pop. Não era fácil chegar às alternativas. Quem podia encomendava discos e gravava cassetes aos amigos. A espera era muita. A dificuldade de acesso só ajudava a intensificar a relação com a música. Havia tempo para a idolatração. À boleia do alargamento da escolarização e das classes médias, desenvolviam-se diversas culturas juvenis. Os mais conservadores mudavam de passeio para deixar passar os alternativos.

Portugal não é de inventar rótulos geracionais, prefere reproduzir os internacionais, mas tem as suas originalidades. E, há 20 anos, sem querer, o jornalista Vicente Jorge Silva cunhou esta geração. Depois de ver fotografias de estudantes do secundário a mostrar o rabo num protesto, era Manuela Ferreira Leite, ministra da Educação, assinou no PÚBLICO o editorial “geração rasca”. Naquelas imagens via um sintoma de “vazio de valores”, de “apetência alarve pela vulgaridade”. Seria o choque com a geração posterior à sua, bem mais livre.

A cena que indignou Vicente Jorge Silva era um remake. Um ano antes, no Centro Cultural de Belém, quatro rapazes tinham mostrado o rabo, com a frase “não pago” pintada, ao inventor das propinas, o ministro Couto dos Santos. Havia um ambiente geral de insatisfação, recorda um desses rapazes, Luís Branco, agora com 40 anos, a editar o Esquerda.Net, site do Bloco de Esquerda. “Era o desgaste do Cavaquismo.”

Os estudantes tinham tomado a rua. Primeiro, contra a Prova Geral de Acesso ao ensino superior, um exame de língua portuguesa e de cultura geral, encarada como uma forma de favorecer as classes altas. A seguir contra as propinas, em defesa do ensino “tendencialmente gratuito”. Depois, contra as provas globais. E não faltava eco. Entre 1989 e 1993, apareceram a TSF, o PÚBLICO, a SIC e a TVI.

Apregoava-se que não seria pela indústria, pela agricultura ou pela pesca que Portugal se tornaria competitivo. Havia uma crença inabalável na educação como factor de ascensão social. Entre 1984 e 1994 o número de inscritos nas universidades e politécnicos passara de 95 mil para quase 270 mil. A menos que se tivesse dinheiro, a entrada no ensino superior exigia esforço. As vagas não davam para todos.

Luís Branco perdera o pai aos sete anos. Filho de uma funcionária dos correios, estudava Comunicação Social na Nova de Lisboa. As suas lutas pouco interessavam a Abel Humberto, filho de um técnico de farmácia e de uma doméstica, que aos 17 anos começara a despejar cinzeiros, a apanhar toalhas e a lavar cabeças e na altura dos protestos estudantis já ganhava “bom dinheiro” a cortar e a pentear cabelos.

Eram colossais os fundos comunitários destinados a modernizar a economia. Entre 1986 e 2001, o PIB cresceu a uma taxa média anual de 3,9% e essa abundância bastante relativa, já que a taxa de pobreza se mantinha elevada, enchia restaurantes e cabeleireiros. “Havia o hábito de ir arranjar o cabelo para o fim-de-semana”, recorda Abel, agora com 43 anos. Emigrava-se menos. E a vaga de imigração ajudava a insuflar a auto-estima nacional.

“Somos a geração da esperança na bandeira azul com estrelinhas amarelas”, resume Silvana Mota Ribeiro. A televisão passava muitos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. “E se URSS e EUA se passam? Estamos aqui no meio!” Havia muros reais e muralhas imaginárias a separar países desavindos. A CEE não era só um símbolo de consumo, também de paz, de solidariedade, de igualdade. Muitos lembrar-se-ão da queda do muro de Berlim em 1989 e da abertura de fronteiras em 1995. Quem podia, metia-se num comboio e ia ver e voltava bem a tempo de arranjar emprego. O InterRail, embora caro, era a opção “baixo custo”.

“Geração interrompida”
O sociólogo João Teixeira Lopes, a celebrar 45 anos dentro de dias, usa a expressão “geração interrompida”: “Viveu uma promessa de estabilidade. Conseguiu ter pequenas margens de conforto. Foi apanhada pela crise numa idade em que, num instante, se pode tornar obsoleta, descartável.”

O tempo é de sobrecarga fiscal, cortes salariais, elevada taxa de desemprego, recuo na protecção social. “As dificuldades económicas trouxeram ao de cima dificuldades relacionais”, prossegue Teixeira Lopes. E, mesmo assim, pela primeira vez desde o 25 de Abril de 1974, o número de divórcios baixou. Muitos têm filhos e “ficam em pânico quando chega o envelope do gás ou da electricidade”.

Não cresceram tão mentalizados para o sacrifício como os pais, amiúde focados na sobrevivência. Nem estão preparados para enfrentar a precariedade, como a geração seguinte, que nada mais conhece. “É uma luta do caraças”, suspira a técnica psicossocial Inácia Cruz, de 37 anos. “Primeiro, já temos alguma idade. Depois, mistura-se o que imaginamos com o que conseguimos.”

Trabalhou com crianças e jovens de bairros periféricos, mães adolescentes, doentes mentais, sem-abrigo e, um dia, percebeu-se desempregada, extenuada, descomprometida com a sua vida pessoal. Recompôs-se. Faz oficinas criativas, dinamiza jogos teatrais, é contadora de histórias, mas ainda não consegue viver só do seu trabalho, acha que ainda não encontrou forma de o promover, como fazem os amigos mais novos. E dá por si a viver num quarto arrendado e a socorrer-se da mãe.

Inácia acredita que “é possível viver dos sonhos”, mas todos os dias sente o quanto isso custa. Gostava de perceber para onde tudo isto a leva. Por vezes, pergunta-se: “Onde estarei daqui a cinco anos? Gostava de ter um espaço para trabalhar na educação pela arte, um companheiro tranquilo no compromisso, filhos. É muito difícil…” Sem estabilidade, tudo se adia, tudo, até o amor. Tem “não relações” ou “relações não convencionais”.

A forma de encarar o amor diversificou-se. Discursos tradicionais e progressistas misturam-se, sobrepõem-se, até dentro da mesma pessoa. Enquanto socióloga dos estilos de vida, Silvana Mota Ribeiro procura tendências e uma parece-lhe evidente: “Esta geração tem muito mais escolha do que a anterior”. “Quantas pessoas agora têm uma relação estável com alguém que mora noutro país?”, exemplifica. “As pessoas encontram-se voando. A relação à distância já não é um absurdo, uma coisa da emigração, do tempo em que os homens iam e as mulheres ficavam.”

Os pais de Silvana ainda a imaginaram a chegar virgem ao casamento — era isso que se esperava das raparigas —, mas ela, como muitas mulheres da idade dela, não pensa em alianças de casamento e nunca se sentiu “uma atrevida” por meter conversa com um rapaz que lhe despertasse interesse numa festa. “A minha geração desenvolveu o que era ainda um discurso em potência em meados dos anos 80. Tomou em mão o dar o primeiro passo, o primeiro beijo.”

“Não és uma mulher completa!”
Vulgarizou-se o divórcio, a união de facto, a família recomposta, legalizou-se o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. E, apesar disso tudo, o “modelo ideal” resiste: um homem e uma mulher entendidos como diferentes e complementares. E, mal se casam, começa a pergunta: “Então, quando têm um filho?”

A pressão não é igual para homens e para mulheres e isso, defende Silvana Mota Ribeiro, não tem só a ver com relógio biológico. Se o homem disser que um bebé é uma maçada, que prejudica a carreira, tolera-se. Se for a mulher, nem pensar. A mulher continua a ser vista como cuidadora. “Não és uma mulher completa!”, dir-lhe-ão. “E depois? Quem vai cuidar de ti quando fores velha?”

Uma mulher tem de apresentar uma razão externa — é infértil, não tem companheiro, o emprego fica em risco. Não chega dizer: “Não quero.” Silvana diz. E ao fim de tantos anos a mãe dela ainda lhe pergunta: “Mas isso é para sempre? Não pensas em ter um dia?” E ela responde-lhe: “Se calhar não. Estou bem assim. Por que hei-de mudar, se estou bem assim?” E a mãe começa a falar nas alegrias da maternidade. “Ai, o que estás a perder! Sabes lá que é ser mãe. É uma coisa superior a tudo. Vais arrepender-te. Olha que o tempo passa. Já tens 40 anos!”

Fala na sua opção com cuidado, sobretudo com amigas que sabe pressionadas para serem “mães perfeitas”. Sabe que o seu discurso tende a ser mal percebido. E não quer que a vejam como carreirista, egoísta, sem amor para dar. “Quando tens um filho, nunca mais és independente”, diz. “Isto é uma coisa muito grande para perder. Tens uma criança e és responsável por ela para sempre. Nunca mais tens a tua vida só para ti. Não podes partir. Não te podes fazer ao mundo.”

A Geração X não desistiu de ter filhos. Tem cada vez menos e cada vez mais tarde. Segundo o último Inquérito à Fecundidade, a maior parte gostaria de ter duas crianças, mas acaba por ter uma. Foi-se alargando a escolarização, atrasando a entrada no mercado laboral, precarizando a relação com o trabalho e às costas da mulher continuou o grosso do trabalho doméstico. Já não é como na geração anterior, mas na maior parte das vezes ainda são elas que cozinham, limpam, tratam da roupa. Poucos homens gozam a licença de parentalidade para lá do obrigatório.

O lugar dos fraldários é nas casas de banho das mulheres. Isso nunca foi um problema com que Abel se deparasse. Deixava isso aos cuidados da mãe do filho, agora com cinco anos, que só vê de 15 em 15 dias.

Luís Branco, de certo modo um dos ícones da “geração rasca”, tem uma filha de nove meses e uma enteada de nove anos e não tem conta às fraldas que mudou. Compete-lhe dar banho à menina e adormecê-la todas as noites. Ele trata do jantar e da louça e a companheira trata da roupa. A mulher-a-dias trata do resto.

Nem só por vontade masculina a paridade assume contornos de história de excepção. Como mostram os estudos da socióloga Margarida Mesquita, com maior frequência os homens trabalham por turnos, trabalham mais horas, têm dois trabalhos. O “novo pai” também sente culpa por ter pouco tempo para os filhos e, por vezes, só não participa mais porque a mulher não deixa.

“Se um [filho] ficar doente, só confio em mim”, ri-se a dramaturga, encenadora e actriz Marta Freitas. Tem duas crianças de 11 e 9 anos. “Acho que os pais estão num desequilíbrio muito grande em relação a forma como são pais. Têm de trabalhar muito e querem muito estar presentes e acabam por interferir demais.” Faz parte da associação de pais. Vê como alguns afrontam professores porque querem mais trabalhos de casa, menos trabalhos de casa, zero trabalhos de casa.

“Acho que minha geração levou uma chicotada”, resume aquela profissional do teatro, que antes estudou psicologia clínica. “Vive uma mudança muito grande. As perturbações de ansiedade — os ansiolíticos, os antidepressivos — têm muito a ver com isso. Estávamos habituados a perceber a vida de uma forma muito linear. Não havia esta azáfama. Parece que está tudo em causa. As pessoas têm medo. Parece que virou tudo ao contrário. O que aprendeste como filha já não podes transmitir aos teus filhos porque esse mundo já não existe.”

Sem a retaguarda familiar que existia noutros tempos, pressionada para trabalhar cada vez mais horas por cada vez menos dinheiro, muitos arrastam os filhos de actividade em actividade. Nesta ânsia de querer preparar os filhos para tudo, e já com os pais a precisar de apoio, parte da Geração X vai-se esquecendo de si própria.

Fonte | Público