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Cirurgia Pediatrica

14 de Maio de 2013

Cortes e esfoladelas

O B. caiu de bicicleta! O meu coração parou… o joelho ficou todo raspado e o sangue não parava! Fomos  a correr a casa buscar algo para desinfectar e algodão. Parece uma coisa simples e fácil de resolver, mas com o B aos gritos, a chorar nem sei se tratei bem da ferida… fui confirmar com o cirurgião pediátrico…

Ficou prometido desde a semana passada que escreveria sobre feridas. A semana passou rápido, mas ainda há tempo para explicar duas ou três coisas sobre as feridas. A premissa mais importante é que para um cirurgião existem dois tipos principais de feridas: as feridas incisas (vulgo corte), em que existem dois bordos definidos que romperam e precisam de uma sutura que os volte a unir; e as escoriações (vulgo esfoladelas), em que a pele foi raspada e perdeu algum tecido, mas não existem bordos livres para suturar. Claro que entre os dois, há várias gamas de cinzentos:  bordos de um incisão esfolados ou escoriação com zonas profundas que se podem aproximar.
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Exemplo de ferida incisa [fonte: http://lifeat169.blogspot.pt]

Tendo isto em mente, o que fazer perante uma ferida? Primeiro, não entrar em pânico. Quando olhar para uma poça de sangue ou uma mancha enorme na roupa, mantenha a calma. O sangue assusta, mas, na realidade, o que se perde nunca será tanto quanto o que parece visualmente. A criança está aos berros, porque está assustada. Uns pais serenos e com a cabeça no lugar serão fundamentais para os passos a seguir.

Segundo, expor a ferida (tirar a roupa se for preciso) e lavar abundantemente com água fria corrente. Este passo é fundamental por duas razões. Um, limpar a ferida ajuda a tirar poeiras e microrganismos que, à medida que a ferida vai maturando (‘secando’) vão ficar agarradas ao leito ou aos bordos, dificultando a sua remoção mais tarde, no serviço de urgência. Dois, a água fria é vasoconstrictora, isto é, ajuda o mecanismo natural dos vasos sanguíneos de se contraírem para ‘estancar’ o sangue.

Terceiro, é preciso ajudar a parar a sangria. Depois ou enquanto se limpa já se percebe que tipo de ferida temos: ferida incisa (bordos definidos) ou escoriação (raspado). Em qualquer dos casos, o importante é apertar com força, tapando com uma compressa (ou à falta de melhor, um lenço de papel ou pano). E não dói? A compressão da ferida não dói mais do que o contacto com o ar dos terminais nervosos, que a ferida deixou expostos. Nesse sentido, o choro da criança pode até diminuir, caso a criança se sinta mais segura e calma.

Quarto, limpa a ferida e controlada a hemorragia, é tempo de ir com calma e sem atropelos para o serviço de urgência mais próximo. Aí apresentará uma ferida bem tratada e mostrará quão bom/boa pai/mãe é. Como disse em cima, as feridas incisas necessitarão provavelmente de sutura. Felizmente, existem agora suturas com cola biológica (o bem-amado octilcianoacrilato) que facilitam muito o trabalho na pediatria. A necessidade ou não de anestesia (local ou geral), assim como de pontos de aproximação dos tecidos profundos e plastias com retalhos, variam de caso para caso (e até de cirurgião para cirurgião). Tratando-se de uma escoriação, o mais provável é não haver sutura. O penso pode ser fechado e com pomada de antibiótico, para as escoriações mais profundas; ou aberto e com aplicação frequente de um antisséptico localmente, para as escoriações mais superficiais.

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Exemplo de escoriação superficial [fonte: topnews.in]

De facto, as escoriações superficiais são muito fáceis de diagnosticar e tratar. Os pais mais experientes e/ou com filhos muito experimentados acabam por dispensar a visita ao serviço de urgência. Cumprindo os três primeiros passos, e tendo a hemorragia controlada, aplicam eles mesmos a solução de iodopuvidona (vulgo Betadine) ou outro antisséptico qualquer. Não usar álcool ou produtos com base alcoólica, por que dói (e há castigos melhores que a tortura física). Convém também saber que, quando a ferida é mais profunda (usar o critério dado nas queimaduras), o melhor é ir ao serviço de urgência fazer um penso fechado.

Dr. João Moreira  Pinto
E os Filhos dos Outros