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Opinião

12 de Setembro de 2014

Contributos da música na maternidade

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A utilização da musicoterapia, não é uma terapia nova. A sua existência remonta à antiguidade, embora não sejam precisas as suas origens.

Nos meados de 1800, Florence Nightingale reconheceu o poder da música nos hospitais com o intuito de ajudar os soldados (atingidos na guerra da Crimeia) no seu processo de recuperação. Ela observou os efeitos que os diferentes tipos de música provocavam nos doentes. Utilizou instrumentos com um som contínuo, que geralmente provocavam um efeito benéfico nos pacientes e instrumentos que produziam outros tipos de som provocando o efeito oposto.

Quer em França, quer nos EUA, a musicoterapia é uma prática muito divulgada, no entanto no nosso país ainda é pouco utilizada.

A terapia através da música pode ter vários efeitos no organismo, tais como: anti-neurótico, anti-stress, sonífero, tranquilizante, regulador, analgésico, anestésico, equilibrador do sistema cardiovascular e do metabolismo.

Está demonstrado através de estudos científicos que os efeitos da musicoterapia podem ser utilizados nas diversas áreas da saúde, nomeadamente na área da maternidade.

Como nascimento é um momento em que se dá a separação de dois seres que partilharam uma relação de intimidade durante nove meses, o parto passa a não ser somente um processo fisiológico mas também um processo social em que existem alterações nas relações entre mulher/família e o meio onde está inserida (Martins; Mira; Gouveia; 2007:46).

Estudos realizados com a ajuda da ecografia e sob a análise de psicanalistas, revelaram que o feto é um ser que ouve, compreende, sente e reage. Demonstra ser sensível ao tom de voz, suave ou agressiva, reage também aos barulhos intensos e ao estado emocional do ambiente externo. Às vinte semanas este responde ao som e á melodia.

Quando a mãe comunica com o feto, este reconhece o timbre emocional da voz da desta. Assim, ao ouvir musica calma, o desenvolvimento do feto é influenciado de uma forma positiva.

A forte ligação entre o som/música e memória/aprendizagem pré-natal tem sido demonstrada em experiências formais, observação dos pais, relatórios clínicos e relatos na primeira pessoa. A música, o som e o desenvolvimento humano estão intimamente ligados.

Na memória de um bebé são guardadas todas as sensações que lhe foram transmitidas pela mãe ao longo da gravidez. O feto ao ser sensível às ondas sonoras, sentir-se-á mais calmo se no decorrer do trabalho de parto, a mãe lhe proporcionar melodias que lhe são familiares. Compositores clássicos, tais como Bach, Vivaldi, Mozart e Strauss são os mais solicitados devido às suas melodias orquestradas e agradáveis. No caso do rock e Samba os seus sons fortes e agressivos dificultam a interacção da mãe e bebé.

O ambiente da sala de partos para os casais poderá ser considerado como estranho, assim a música (principalmente a escolhida por estes) poderá reduzir o stress e a ansiedade. A utilização da música poderá ser considerada como um fenómeno que ajuda a encontrar no trabalho de parto uma experiência menos traumática e o mais agradável possível.

Para Browning (2000), a utilização da música durante o trabalho de parto traz benefícios, ou seja, ajuda na respiração, relaxamento, distracção/controle da dor.

Phumdoung, Good (2003) acrescenta que a música pode ser utilizada no início do trabalho de parto, tendo como objectivo ajudar as mulheres a encarar as contracções de uma forma mais relaxada.

A música escolhida pelos pais torna todo o processo mais pessoal. Assim, o bebé chega e este mundo com música, sons e vozes que lhe são familiares. O nascimento torna-se um momento especial e o som musical preferido dá-lhe mais beleza. Todo este processo é vivenciado de uma forma única e estimulante.

A dor e o prazer aparecem como duas formas distintas e relacionadas no decurso do nascimento. Assim a música pode revelar tanto o esforço físico como a alegria do momento. Os benefícios da musica podem ser empregados tanto durante o parto vaginal, com ou sem analgesia, como durante uma cesariana.

Em suma, a utilização da musicoterapia é um aspecto importante para a distracção e o relaxamento da mulher. Focar a atenção na música faz com que se abstraia do ambiente envolvente, encarando o trabalho de parto como um fenómeno de tempo limitado que lhe irá oferecer alegria e felicidade.

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Autor:

Ana Filipa Ferreira

Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstetrícia

BIBLIOGRAFIA

BATISTA, Filipe Alberto Almeida – Musicoterapia: A Música como Instrumento Terapêutico. Revista Sinais Vitais. Lisboa. Nº26 (Setembro 1999).

Browning, Caryl Ann; BED, BMusth, MTA, CD(DONA) – Using Music During Childbirth. RESEARCH BRIEF, Dezembro 2000, 272-276

DELABARY, A. – Musicoterapia com gestantes: espaço para a construção e ampliação do ser; Porto Alegre: Editora OGPUCRS, 2001. Dissertação de Mestrado.

FULTON, Katheyn Blauvelt – The effects of music therapy on physiological measures, perceived pain, and perceived fatigue of women in early labor. Electronic theses, treatises and Dissertations. Florida. 2005,1-27

MARTINS, Ana Cristina; MIRA, Florbela; GOUVEIA, Sónia – A influência da música no primeiro estádio do trabalho de parto. Revista da Associação Portuguesa dos Enfermeiros Obstetras. Lisboa. nº8 (2007) 47-48.

PHUMDOUNG, Sasitorn; GOOD, Marion – Music Reduces Sensation and Distress of Labor Pain. Pain Management Nursing. Vol. 4, nº2 (Junho 2003) 54-61.

TEDESCO, J. Júlio de A. – A Grávida – Suas Indagações e as Dúvidas do Obstetra. São Paulo. Editora Atheneu, 1999, pag. 414.