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Saúde

23 de Fevereiro de 2015

Comunicar não é só fala

A comunicação, por definição, consiste na capacidade de gerar, emitir, receber e perceber mensagens, interagir com outros indivíduos face a face ou a distância, num contexto social particular (Azevedo et al., 1994).

Coloca-se então a questão: de que forma comunicam as pessoas que não conseguem falar?

Os sistemas alternativos e aumentativos e comunicação

Comunicar não depende da existência de linguagem verbal. Existem diversas formas de transmitir uma mensagem, como por exemplo, através do contacto ocular, da expressão facial e/ou corporal, acções, gestos, vocalizações, desenhos, escrita, recurso a tecnologias… Estas formas de comunicação, que não recorrem a linguagem verbal, pesam cerca de 90% na impressão que se dá aos outros (Keenan, 2000).

As pessoas altamente expressivas comunicam por intermédio das suas expressões faciais, da voz dos gestos – de todo o corpo. Esta capacidade permite-lhes emocionar, inspirar e cativar os outros.” (Goleman, 1998)

No fundo, comunicar tem como objectivos expressar necessidades e desejos, interagir socialmente, partilhar informação e preencher regras socialmente aceites. Tendo em conta estes objectivos, a perda ou o não desenvolvimento da capacidade comunicativa oral, coloca qualquer pessoa sobre um grande estigma pessoal e social.

Coloca-se então a questão: de que forma comunicam as pessoas que não conseguem falar?

Crianças ou adultos, por motivos tão variados, como lesões cerebrais, deficiência mental ou motora, autismo ou outra perturbação da linguagem verbal, necessitam de um modo de comunicação não oral, alternativo ou complementar à fala. Como consequência desta limitação, surgem os Sistemas Aumentativos e Alternativos de Comunicação (SAAC), que deverão ser implementados o mais precocemente possível, quando a fala não pode ser um veículo da linguagem. Considera-se comunicação alternativa e/ou aumentativa, todo o tipo de comunicação que substitua ou complemente a fala.

“Comunicação alternativa é qualquer forma de comunicação diferente da fala e usada por um indivíduo em contextos de comunicação frente a frente. Os signos gestuais e gráficos, o código Morse, a escrita, etc, são formas alternativas de comunicação para indivíduos que carecem da capacidade de falar” (Tetzchner & Martinsen, 2000).

Actualmente, os SAAC são divididos em grupos: Sistemas com ajuda, Sistemas sem ajuda e Sistemas mistos. A diferença entre os sistemas pode ser melhor compreendida no seguinte esquema:

Organograma SAAC

REBUS  BLISS (1)Makaton

 

MAKATON

Segundo vários autores os SAAC podem ter 3 funções:

  • Provisão de um “Meio de Comunicação Temporário”, até que se estabeleça a fala, ou esta se torne funcional e inteligível, como em etapas pós-cirúrgicas quando o paciente está temporariamente impedido de falar. (ex: laringectomia parcial ou total)
  • Provisão de um “Meio para Facilitar” o desenvolvimento da fala propriamente dita e/ou, nalguns casos, das habilidades cognitivas e comunicativas necessárias para a aquisição da linguagem oral. São os casos das afasias (alteração de linguagem por lesão cerebral), das deficiências mentais ou autismo. Esta função pode ser vista como uma estratégia terapêutica.
  • Provisão de um “Meio de Comunicação a Longo Prazo ou Permanente”, quando a fala ou a sua aquisição é totalmente impossível, como por exemplo em alguns casos de doenças neuromotoras graves (ex: Paralisia Cerebral) ou autismo severo.

No momento de se escolher um sistema aumentativo ou alternativo de comunicação, devem ser tidos em conta determinados critérios, com base numa avaliação cuidadosa de quem o vai utilizar. Idealmente, esta avaliação deverá ser feita por uma equipa técnica multidisciplinar (terapeuta da fala, psicólogo, educadora, entre outros), nunca esquecendo todos os intervenientes de comunicação que fazem parte do ambiente do candidato ao SAAC.

A avaliação deve estar centrada na procura de soluções práticas para a vida, isto é, deve responder a questões tais como:

  • O que é que a pessoa pode fazer?
  • Que suportes ou auxílios podem melhorar a sua capacidade?
  • Em que situações da vida diária necessita comunicar-se?

Em suma, os SAAC permitem desenvolver a capacidade de linguagem verbal, bem como promover qualidade de vida a pessoas com limitações na comunicação convencional.

Dra. Ana Dias | Terapeuta da Fala

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