Espaço Família | O nosso 1º Filho

Psicologia Clinica

3 de Fevereiro de 2015

Como sobreviver aos filhos

como sobreviver aos filhos

Como alimentar a relação do casal após o nascimento de um filho? Comecemos um pouco antes do nascimento.

Não, não é mais um texto com as dicas infalíveis para os casais não terem problemas após o nascimento do filho… Todos os casais sofrem uma reorganização brutal e cada casal, cada família, é um caso, um sistema único. Assim, cada casal terá os seus pontos fortes e as suas fraquezas. O importante é aproveitar os primeiros, para que os segundos percam a importância nesta nova fase cheia de problemas e novos desafios.

Assim, tudo começa na gravidez, na criação de expectativas de uma família como o resultado da consolidação do casal, um “estado de graça” que nem sempre é visto dessa maneira. O mal-estar, o desconforto, as alterações, as incertezas, as exigências começam a surgir e o casal começa a ser posto à prova. A pressão social para a maternidade feliz e sem dificuldades esbate com os medos, a incerteza e a estranheza porque não estamos a sorrir todo o dia.

O tempo individual começa a diminuir e as rotinas começam a alterar-se. O emprego pode ter que ser posto de lado e os “sustos” normais da gravidez criam ansiedade e receios. Passamos a ser “mãe” e “pai” e vamos perdendo a atenção do cônjuge, de amigos e familiares, entretanto dirigida para a criança.

Cria-se um novo paradigma no casal, com uma dinâmica completamente diferente, sem que muitas vezes os pais e as mães estejam conscientes dessas mesmas mudanças. Estas mudanças podem durar muitos meses, até que a criança (e os pais) criem a necessária autonomia e rotinas.

É importante dividir os cuidados a prestar à criança, definir claramente as tarefas de cada um, para que o casal se possa organizar e saber exatamente qual o seu papel nesta nova família.

Há que promover a readaptação do casal. Não é pior, nem melhor; é diferente!

Após o nascimento da criança, o “tempo de casal” (por exemplo jantares a dois, saídas à noite, idas ao cinema) e “tempo individual” (cuidados com a sua imagem, idas ao ginásio, saídas com amigas ou simplesmente almoçar fora) estão altamente comprometidos pelas rotinas e necessidades do bebé. Há que os adaptar aos novos horários e necessidades.

O “tempo de criança” assume a primazia e o casal pode ir perdendo o contacto com as referencias positivas e desenvolver uma comunicação mais fria e pragmática. O cansaço pode fazer com que a comunicação se torne mesmo agressiva e ríspida, sobressaindo tudo o que há de negativo na relação. A privação do sono e o cansaço tornam tudo isso normal. No entanto, há que reaprender a comunicar e a consolidar o casal. O casal deve desenvolver a empatia (capacidade de nos colocarmos no lugar do outro) e a capacidade de escutar, partilhar as dificuldades e “truques”, tomar atenção à comunicação não verbal e lembrar-se que um sorriso, um beijo, um carinho deverão ter, no mínimo, tanta importância e espaço, quanto a acusação.

Já com a criança mais comunicativa e autónoma, o casal deve definir (ou procurar ajuda) qual a melhor forma de se relacionar perante os novos desafios da criança e quais os limites da educação.

Há que aproveitar todos os recursos das suas redes (por exemplo familiares, amigos, padrinhos, infantários) para que o casal possa retomar, aos poucos, algum dos seu “tempo de casal” e voltar a ter alguns dos seus momentos de interesse, intimidade e paixão. Esse tempo e/ou atividades em casal devem ser planeados e definidos para que possam ser aproveitados e não sejam sentidos como “tempo desperdiçado”.

Todo o processo de “parentalização” é uma evolução em constante movimento, tanto individualmente como, especialmente, para o casal.

Por fim, o casal não se deve comparar a outros casais, com outros problemas, outros paradigmas, outro apoio e, acima de tudo, outra criança.

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Gustavo Pedrosa

Psicólogo Clínico

Terapeuta Familiar | Oficina de Psicologia