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Psicologia

6 de Abril de 2015

Como a divisão de tarefas e casa influência o futuro do seu filho

A quebra de estereótipos de gênero é importante para que as crianças experimentem e escolham a profissão que as fará feliz. Quem disse que uma menina não pode ser engenheira?

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Em sua casa há a divisão das tarefas domésticas entre si e o seu companheiro? Enquanto um aspira a casa, o outro prepara o almoço da família? Saiba que esse revezamento traz efeitos positivos para as crianças. Uma pesquisa organizada pela Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, concluiu que as filhas de casais que repartem os afazeres da casa tendem futuramente a seguir carreiras que fogem do estereótipo feminino (como engenharia ou economia) e a ser bem remuneradas no trabalho.

Para chegar a esse resultado, os cientistas analisaram 326 crianças, de 7 a 13 anos. Questionaram-nas, conjuntamente com os pais, sobre quem tinha a função de limpar a casa, lavar a louça, cozinhar e cuidar dos filhos, por exemplo. Também sondaram as crianças sobre as aspirações quanto à profissão – o que querem ser quando crescer? Nas famílias em que há uma distribuição mais igualitária de tarefas, as meninas expressaram interesse em trabalhar fora de casa e ter ocupações que fujam dos padrões designados para a mulher, como professora ou enfermeira.

O que explica esta consequência ou efeito nas crianças é o ambiente sócio-cultural em que crescem. “Até 10 anos, o exemplo é a forma mais poderosa de educar. Elas observam o que é feito, não só o que é dito. O domínio de interpretar determinadas atitudes é mais desenvolvido do que o de entender palavras”, explica Rita Calegari, psicóloga do Hospital São Camilo (São Paulo | Brasil). Portanto, quando seu filho ainda é pequeno, não adianta dissertar apenas sobre a liberdade de escolha. Ele vai prestar atenção à dinâmica da casa. E isso também vale para os meninos, afinal, podem desenvolver interesse por seguir a carreira de chef de cozinha de tanto observarem os pais a preparar o jantar para a família. Mas claro: o revezamento de afazeres domésticos precisa ser um consenso amigável entre o casal.

Outra forma interessante para estimular a quebra dos estereótipos é apresentar aos filhos alguns filmes que suscitem a discussão. A partir dos 10 anos, a criança terá discernimento e maturidade intelectual para observar as ideias de Mulan, por exemplo. Ela terá contato com uma história em que a protagonista é uma menina, mas que pretende cumprir papéis e/ou tarefas que são designados aos homens. No filme  A Pequena Sereia, a personagem principal não aceita ser quem o pai quer que ela seja. Depois de assistir aos filmes, converse sobre o assunto com as crianças, pergunte o que elas entenderam e chame  à atenção para a quebra de papéis – uma mulher pode ser muito feliz ao seguir a profissão de lutadora, por exemplo.

Liberdade de escolha

Se você e seu companheiro seguem profissões típicas de cada gênero, não se preocupe. Há outras formas de transmitir a igualdade dos sexos na rotina: o marido pode fazer compras no supermercado e levar os filhos ao médico. Também não há problema caso, apesar de você dividir as tarefas em casa, sua filha sonhe em seguir alguma carreira tipicamente feminina. “O importante é não aprisionar as crianças. As vontades e habilidades delas precisam ser respeitadas”, afirma Calegari.
Por isso, se o seu filho manifesta interesse em cozinhar, jamais o intimide. Chame-o para preparar a salada consigo ou façam um bolo juntos. Se ele pedir um jogo de panelas de brinquedo como presente de aniversário, não há problema algum.Principalmente até 6 anos, as crianças terão vontade de viver experiências novas.

E se os colegas da escola hostilizarem o seu filho por conta das suas preferências, converse com ele: “Nesse momento, é melhor falar a verdade e explicar que os amigos estão sendo preconceituosos”, aconselha Calegari. Perante a reação de estranheza dos colegas de turma, pode ser que o seu filho prefira guardar as panelas de plástico  em casa e só brincar com elas quando estiver sozinho. Tudo bem, como pai/mãe vai precisar entender que é difícil não ser aceite e que essa foi a estratégia de defesa que o seu filho encontrou. Porém, se o quadro se agravar e houver bullying, converse com a escola. Cada vez mais as instituições têm tentado quebrar estereótipos.

Tanto a escola quanto a família precisam de colaborar para que a criança possa ter asas para sonhar. Tenha em mente que as vontades da criança não necessariamente representam a profissão que ela seguirá no futuro. Por exemplo: se a sua filha diz que vai ser cantora, mas percebe que ela desafina, não a critique. Ou, se quer ser jogadora de futebol, mas não tem muito jeito, evite também desanimá-la. Aos poucos, a criança perceberá quais são seus talentos. Não cabe aos pais nem aos professores tentar interferir precocemente nas aspirações infantis.
Se tentar ser flexível e permitir a experimentação, seu filho crescerá sabendo que o importante é tentar. Mais tarde, na fase académica, pode não gostar tanto do curso e trocar de profissão. Nessa altura, sim, poderá e deverá ajudá-lo, mostrando sugestões de carreiras, por exemplo. “Precisamos ser felizes. Um adulto que faz suas escolhas sem interferências, pensando em seu bem-estar, será mais dedicado e, consequentemente, mais bem sucedido”, afirma Calegari.

Abaixo, confira um anúncio da empresa de comunicações Verizon, dos EUA. O vídeo mostra a história de uma menina que tem interesse por ciências e engenharia. Mas, sempre que tenta se divertir com planetas ou furadeiras, é impedida pelo pai. Se brinca com os animais na areia, é alertada para que não suje o vestido. De acordo com a campanha, 66% das crianças, no quinto ano, gostam de matemática e ciências – mas somente 18% dos alunos das faculdades de engenharia são mulheres.

Fonte: Crescer