Mães e Pais na 1ª Pessoa

Catarina Beato 

Dias de uma Princesa

ciclo vicioso

Os trabalhadores com salários em atraso, greves e processos de despedimento sempre me levantaram uma questão existencial: porque é que estas pessoas, com tantos meses de salário em atraso, nunca fizeram nada? Porque não se revoltaram há mais tempo?
É verdade que cresci num mundo protegido. Os meus pais tiveram o mesmo emprego, o mesmo local de trabalho e o ordenado pago em dias certos, desde que me lembro de ser gente. Nunca soube quanto ganhavam porque era uma regra lá de casa, assuntos de adultos eram assuntos de adultos. De dinheiro a única coisa que precisava de saber era o valor da minha semanada.
Tive consciência de alguns momentos mais complicados porque via os meus pais murmurarem, enquanto o meu pai mostrava umas folhas com contas muito certinhas à minha mãe que abanava a cabeça. Mas, para mim, esses momentos nunca passaram da tensão que espreitava pela porta encostada.
Nos meus dias nunca existiram luxos, mas nunca passei por dificuldades: sempre estudei em escolas públicas, mas tinha todo o material escolar que queria, nunca escolhi as lojas onde comprava a roupa, mas nunca me faltava nada, tínhamos comida e bifes de vaca e almoçávamos fora aos domingos.
Serve isto para contextuar a ingenuidade da minha questão existencial, que nem os valores de esquerda alguma vez esclareceram: porque é que os trabalhadores ficam tantos meses com salários em atraso sem fazer nada?
Juntando à ingenuidade uma importante dose de sabedoria absoluta, pensava: se fosse eu, e não me pagassem um mês de salário, ia lá e refilava, aliás, trabalhar de graça nunca, e o passo seguinte seria mudar de emprego.
Já fui acusada de saudosismo. Não tenho nada de saudosista porque, coitada, não me julgo suficientemente adulta para que o meu tempo tenha sido antigamente. Mas, na verdade, percebo que sou adulta quando aplico provérbios. E aqui fica: não cuspas para o ar porque pode cair-te em cima.
Não sabia que trabalhar e não receber é parte de um ciclo vicioso de medo e abuso. Quem não recebe continua a trabalhar com medo de, se deixar de trabalhar, ter ainda menos hipóteses de vir a receber. Quem trabalha não quer perder o emprego que tem, porque o medo de nunca mais ter trabalho está sempre presente, mais ainda com as taxas de desemprego a chegar aos 18%. E quem mantém pessoas a trabalhar não lhe pagando o trabalho que fazem, não dando satisfações sobre aquilo a que têm direito, abusa do medo.
Mesmo depois de perder a ingenuidade e as certezas absolutas sobre como agir em cada situação, esta é daquelas realidades que preferia manter fora do meu mundo privilegiado.
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