Atualidade

13 de Junho de 2013

Chaves para perceber as etapas da amizade infantil e sua importância

Estudos demonstram a importância da vida social das crianças. É, segundo os especialistas, o indicador mais fiável de felicidade futura, muito mais do que o sucesso académico ou económico.Harry Stacke Sullivan, psiquiatra norte-americano, acredita que um bom amigo na adolescência é condição essencial para o desenvolvimento da personalidade, um passo vital para a maturidade.

 

 

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Das oito coisas que uma criança necessita para a sua vida social, sete resultam da amizade e apenas uma do grupo. Esta componente favorece o afeto, a intimidade e o sentido de aliança, ao passo que o grupo providencia o sentido de inclusão.

Por que é que os filhos detestam que os pais se imiscuam nos seus assuntos, desconfiam deles e até respiram fundo quando saem do seu quarto? É um facto confirmado que as crianças não gostam que os pais interfiram nas suas amizades e relações sociais, pois estão convencidas de que a ajuda que querem dar só agravará as coisas. No entanto, a atitude colaboradora destes e dos professores é sempre necessária, embora tenha de ser exercida com subtileza para não parecer o que é, para estar a par do que se passa e saber pôr as coisas no seu devido lugar sem dramatismos nem agressividade. A traição de um amigo, a crueldade dos colegas de escola, a competitividade material em vez do repto intelectual, constituem parte inevitável do processo da aprendizagem social das crianças, mas muitas vezes os pais desconhecem os problemas dos filhos, motivados pelo afastamento ou dificuldade em integrar-se no seu ambiente escolar.

Um estudo levado a cabo nos Estados Unidos, com câmaras ocultas, revelou que, em determinada altura, entre os três e os quatro anos as crianças em grupo têm comportamentos diferentes quando estão com adultos e quando estão sós. Provavelmente, não por querem ocultar alguma coisa mas pelo desejo de serem elas próprias e desfrutar à sua vontade. Como é a vida social das crianças? Qual o papel dos adultos nela? O psicólogo Michael Thompson aconselha que se fale com as crianças não só quando estas têm problemas ou sofrem por qualquer motivo. O diálogo quotidiano, desde que nascem, tece fios invisíveis muito poderosos, de afecto e confiança, que mais tarde lhes darão segurança em si próprias.

A criança e a crueldade
Podem prevenir-se as crianças contra a crueldade humana – mesmo reconhecendo que, por vezes, estas sabem ser refinadamente cruéis -, mas não se pode nem se deve evitar-lhes a dor. O sofrimento social é até necessário para entender as pessoas. As más experiências servem, pois, para entender o poder social e a vida real. Tal como diz o provérbio árabe, “a voz da experiência é a mais sábia”. Contudo, é preciso estar alerta para entender esses maus momentos na vida de cada criança. Também o papel do professor, sempre pouco valorizado, é decisivo nestes assuntos. Para isso deve conhecer os amigos e a vizinhaça, estar familiarizado com o ambiente familiar e cultural da criança e ganhar a sua confiança e respeito.

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A importância do grupo
Estatisticamente está provado que as crianças postas de parte pelos seus colegas, ou que não são aceites pelo grupo, têm muito mais probabilidades de falharem nos estudos e de sofrer transtornos mentais na idade adulta. Aos pais que afirmam categoricamente não se interessarem com a vida social dos filhos, pois o que importa é o seu rendimento escolar, é preciso dizer-lhes que estão completamente enganados. A vida social dos seus filhos é um assunto vital, o seu êxito depende em grande medida de sentir-se popular e queridos pelos demais.

Willard Hartup, um psicólogo que dedicou grande parte da sua carreira a estudar a amizade entre as crianças, afirma que são necessárias relações co-igualitárias para aprender o que significa comunicação, para conter a modular a agressividade, a formar valores e a ter uma vida sexual normal. Mas infelizmente os adultos continuam a esquecer esta vertente do seu papel. Muitas crianças comunicam perfeitamente com os adultos, no entanto não são capazes de articular palavra com os seus pares. Muitas vezes parecem pequenos professores, não podem falar a língua infantil e apresentam sérias desvantagens em relação aos seus colegas. Ao contrário do que alguns adultos possam pensar, estamos perante um comportamento “problemático”. Porquê? Porque isto significa que estamos perante uma criança incapaz de negociar a resolução de um conflito ou de expressar as suas necessidades para ser aceite.

Alguns progenitores sentem necessidade de controlar as tendências agressivas dos seus filhos, vigiando-os excessivamente. Mas, são os próprios colegas quem melhor resolve um caso de agressividade através da exclusão e marginalização da criança em questão. A socialização sexual decorre também a cargo dos próprios colegas. Toda a criança procura o respeito e a admiração dos outros. O elogio de um colega tem sempre um efeito muito mais importante do que o de um pai, visto serem os primeiros a porem-se em dia com as novas descobertas. Mas antes de chegar à adolescência, para que uma criança cresça feliz precisa desfrutar um certo grau de aceitação por parte do grupo, ter a experiência da reciprocidade e lealdade nas suas amizades.

A amizade é um fenómeno que acontece entre duas crianças que brincam ou falam de uma forma diferente e mais estreita do que com as outras. E é a relação mais importante da vida social de uma criança. No entanto, é preciso distinguir entre amizade e popularidade. Por vezes, o ser muito popular impede que se tenham bons amigos e fundamenta-se no consenso do grupo de que uma criança tem certas qualidades desejáveis. Pode ser um estatuto mais atraente, mas não é sinónimo de carinho e confidência, como acontece com a amizade. No entanto, a pertença a um grupo é de facto uma referência. A maior parte das pessoas quer ser identificada dentro de um grupo, quer sejam crianças ou adultos, e é já sabido que em nome do grupo são possíveis as maiores atrocidades, como se observou mais de uma vez nas devastadoras guerras nacionalistas. É o “nós” contra o “eles”. Os especialistas encontram a resposta na sócio-biologia humana, que explica a necessidade do homem se agrupar para sobreviver desde o princípio dos tempos.

É de facto durante a infância que as crianças acreditam que os seus amigos do grupo serão os de toda vida, embora os vão trocando em cada ano letivo. Nas escolas oficiais os grupos são menos estáveis, pois a composição das turmas muda constantemente, o que não acontece tanto nos colégios particulares onde as relações são mais duradouras e os grupos mais unidos. Os pais têm de compreender que cada criança precisa de ter o seu melhor amigo todos os anos, sobretudo as que têm entre os quatro e os sete anos. Os progenitores costumam ser quem mais sofrem se veem que o filho passa despercebido na sua turma, porque confundem amizade com popularidade e não dão valor a uma boa relação que este possa ter com outra criança.

Sabe-se que existem quatro estágios na amizade durante a infância: desde que nascem até aos 3 anos; dos 3 aos 7; dos 7 aos 12 e dos 12 à idade adulta. Cada um deles constrói-se sobre as vantagens do anterior, vindo a possibilitar uma amizade íntima, recíproca e de longa duração. O desejo de escolher um amigo começa muito cedo, até mesmo antes de a criança completar o seu primeiro ano. À primeira vista, pode parecer que um bebé não tem controlo suficiente sobre a sua vida ou o interesse suficiente nos outros para escolher um amigo. Inclusivamente, sempre se disse que as crianças com menos de três anos preferem brincar sós ou em paralelo, em vez de o fazerem com um companheiro. Contudo, qualquer pessoa familiarizada com crianças sabe que elas se sentem fascinadas umas pelas outras.

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Veer / Diego Cervo

 

A alegria de um amigo
Trabalhos recentes sobre a amizade entre crianças, efetuados com vídeos nos quais se veem em interação, revelam que as do grupo de um e dois anos dão provas nítidas e fortes preferências por outras quando se encontram num contexto social. Os seus intercâmbios com um amigo escolhido são mais fortes, mais recíprocos e afetivos, no sentido mais sensorial possível. As crianças de dois anos emocionam-se quando sabem que o seu melhor amigo os vai visitar a casa e expressam a sua alegria de forma notável. Esperam-nos à porta, abraçam-se à chegada, embora logo a seguir se ponham a brincar separadamente. Em tão tenras idades costumam brincar em paralelo, mas não há dúvida de que entre elas existe uma proximidade emocional muito clara. São definitivamente amigos.

Dos três aos sete, a amizade consiste no prazer de brincar juntos. Nesta idade as são capazes de pôr de lado as suas próprias necessidades e apetências para partilhar uma brincadeira com outro amigo, mais do que com vários ao mesmo tempo. Quando duas meninas de cinco anos passam a tarde a brincar juntas, demonstram uma maturidade muito desenvolvida. De início custa-lhe dividir, mas quando conseguem sentir-se mutuamente atraídas e perfeitamente integradas tornam-se um modelo invejável. Contudo é uma amizade que pode desfazer-se em questão de segundos, passar da adoração à zanga. Nessas alturas é natural ouvir uma das meninas dizer: “É que estou farta de ser sempre eu a fazer de noivo e ela de noiva”. Um pai pouco experiente poderá tentar intervir na brincadeira, mas embora pareça que pode ajudar, raras vezes uma criança recebe estas intervenções de bom grado. As intrusões dos adultos apenas atrasam o processo de reconciliação. Mas os mais experientes sabem que a melhor solução é introduzir um elemento novo e fora do contexto do género “então meninas, querem tomar um refresco?”. Graças a essa mudança inesperada, o forte ego de uma menina de cinco anos acalma e, pouco depois, ambas voltam a brincar como se nada fosse.

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A adolescência
Enquanto que a fantasia é a nota que caracteriza as brincadeiras entre os três e os sete anos, a partir desta fase a conversação e a “mexeriquice” começam a fazer parte integrante da amizade. Não só porque nesta idade já são capazes de manter conversações com mais substância, mas também porque têm mais assuntos de que falar, nomeadamente o ambiente social da escola, as histórias de bairro têm um estatuto e hierarquias. Os bons amigos tornam-se conselheiros uns dos outros. Analisam e opinam sobre as respectivas apetências, problemas e relações, estipulando os seus próprios objectivos.

Por volta dos sete anos, em qualquer escola ou centro de reunião comunitário, igreja, clube desportivo etc., onde se misturam os dois sexos, os grupos começam a dividir-se segundo o género. Nessa idade, e até antes, produz-se a descoberta universal do “outro”, esse alguém estranho e diferente. Para isto não há ajuda possível. É pois nesta faixa etária que se produz uma consciência clara das diferenças biológicas e começa um período de exclusividade do grupo, dentro do qual se tende a estabelecer um estatuto de hierarquia e poder em relação ao mesmo sexo.

É um processo rigoroso e muitas vezes cruel, no qual se estabelecem os critérios de liderança e as normas de comportamento. Os rapazes tendem a apoiar-se uns nos outros para reforçarem a sua posição e estão dependentes dos mesmos para zombar das suas debilidades ou admirar o seu poder. As coisas mudam ao chegarem aos 12 anos no que se refere à amizade.

A obrigação de querer deslumbrar o grupo dá lugar a relações mais estreitas e emocionais. É no início da adolescência que os jovens parecem necessitar desse amigo único em quem podem confiar sem reservas. É quando começam a contar os seus segredos e as mágoas do coração, os seus medos e as suas expetativas. As raparigas normalmente falam mais sobre estes assuntos. O estoicismo masculino exige que os rapazes conheçam as preocupações do seu amigo, mas sem necessidade de entrar em grandes pormenores. Todas estas etapas são os alicerces que constroem as amizades adultas, nas quais se partilham atividades ou jogos, mexericos, cooperação e proximidade emocional.

É importante salientar que o que interessa não é o número de amigos que as crianças têm mas sim a qualidade das amizades que mantêm. Os primeiros sinais de formação de um grupo podem observar-se logo aos oito ou nove anos, mas são mais percetíveis aos 11 e claramente visíveis aos 12, 13 e 14, tornando-se o motivo principal das suas vidas. Contudo, os “bandos” desmembram-se por altura dos 17 anos e apenas as que foram realmente populares tentam sobreviver, para não esquecer a magnífica sensação de prestígio e o poder que dá pertencer a um. É precisamente durante esta etapa que se vivem grandes medos e complexos. Nestes grupos de raparigas, os modelos de aceitação são dados pela roupa, aspeto e magnetismo social; nos rapazes, pela capacidade atlética, pela força e liderança verbal. É também altura da exigência de marcas.
Fonte: ABCriança