Mães e Pais na 1ª Pessoa

Catarina Beato 

Dias de uma Princesa

[carta para a Joana…]

Tenho muitos defeitos, aliás sou um poço deles, eu e todas as pessoas que vês em fotografias e posts neste estranho mundo das redes sociais. Eu tenho dias vazios, tenho dúvidas e tenho angústias. Aceito isso como parte dos meus dias mas também me custa respirar. Também quero, nessas alturas, a vida daqueles que vejo nas redes sociais e me parece perfeita. Sou um poço de defeitos, já disse? Não cheguei solteira aos 37 anos por coisa nenhuma. Sou preguiçosa quando acordo, perco o cartão multibanco todos os dias, detesto cozinhar e nas manhãs em que o meu filho mais novo não quer sair de casa suborno-o com um doce [isso, açúcar]. Dou muitas gralhas quando escrevo e tenho muita vergonha disso. Tenho uma memória terrível [e estou neste momento a pensar onde pus o cartão multibanco]. Há dias em que me apetece mandar toda a gente à merda mas tenho medo que não gostem de mim, desde miúda. Verões inteiros com medo que a minha melhor amiga não quisesse sentar-se ao meu lado quando chegasse Outubro. E depois, culpa deste mundo estranho das redes sociais, nem sequer sei dela. Detesto o meu olho torto e nunca acredito quando me dizem que estou bonita. Detesto vestir-me bem porque talvez nesse dia reparem que não faz grande diferença para os dias em que visto as mesmas calças rasgadas de sempre. Não gosto de usar saltos porque não sou feminina. Há muitos dias em que quero ser como as pessoas que vejo nas fotos do Instagram em vidas brancas e limpas. Mas sabes Joana são filtros. Eu também uso filtros para iluminar os dias em que as coisas parecem escuras. Os vazios da vida fazem parte. Custam mas fazem parte. Ninguém é melhor do que ninguém. Nem nas formas do corpo nem naquilo que fazem. A perfeição não existe. Já te disse, só aos olhos de que gosta e mesmo esses sabem onde estão os defeitos.

Não tenho medo. Só isso. Não tenhas medo.

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