Atualidade

27 de Novembro de 2015

CARTA AOS MEUS FILHOS por Sara Rodi

Meus queridos filhos,

 

às vezes, depois de vos abraçar e vos desejar boa noite, pergunto-me o que recordarão vocês de mim, um dia, quando eu já cá não estiver. E vejo-vos a rir dos dias em que eu, alucinada, resolvia abrir os vossos manuais da escola e resmungava com o ensino, enquanto vos falava dos estudos científicos mais improváveis e das teorias mais alucinadas que tinha lido aqui e acolá, implorando-vos no final, com um rebate de consciência: “Não escrevam nada disto nos vossos testes, por favor!”

E os nossos brainstormings para mudar mundo! Cada um de nós decidindo o que fazer no planeta do qual seríamos soberanos por um dia (e a vida era uma festa!).

E as regras cá de casa, coladas no frigorífico, onde a mãe decretou, entre muitos outros disparates, que era expressamente proibido baixar as calças quando se ouvia o Gangnam Style

Ou o Fireball ouvido no volume máximo, a caminho da escola, com as nossas vozes e os nossos batuques a assustar os vizinhos de estrada. “Agora com os vidros abertos, mamã!”

As histórias de boa noite, que até os gatos vinham ouvir, e as nossas meditações improvisadas, onde tantas vezes acabávamos a rir à gargalhada, viajando literalmente na maionese.

Nunca me recordarão como a mãe que vos preparou um bolinho para o lanche, é verdade. Arranjaram uma mãe que é fã da macrobiótica e passa o dia a impingir-vos comida saudável, às vezes com nomes esquisitos e aspeto duvidável. E que acha que perder horas de volta dos tachos, a preparar comida que desaparece em minutos, é uma grandessíssima perda de tempo. Recordar-me-ão talvez como uma mãe Bimby, adepta do microondas, das máquinas para lavar e secar tudo, da serra elétrica e de tudo o mais que lhe poupe trabalho.

E não, também não se lembrarão de mim como a mãe da eterna paciência. Vão recordar (e os vizinhos também) alguns dos meus sermões dados em decibéis que tocaram no limiar do suportável pelo ouvido humano.

E também não me recordarão como a mãe das tarefas domésticas, não. Antes como a mãe que, sendo obrigada a fazer de tudo um pouco, exigiu sempre a vossa ajuda, resmungando que a casa é de todos e que, se vocês queriam ver televisão, eu também tinha coisas melhores para fazer.

E vão lembrar-se, também, dos dias em que a mãe acordava vaidosa. Em que ia ao cabeleireiro e pintava as unhas. E, nos dias em que tinha eventos importantes, até se fechava na casa de banho para sair de lá transformada. “Ui! Onde é que a mãe vai assim vestida?!”

E talvez também se lembrem das vezes em que a vossa mãe vos explicou que precisava de ficar uns dias sem vocês. Os dias em que a mãe e o pai vos despejavam em casa dos avós, com um valente Yessss, ainda que ao virar da esquina já estivéssemos cheios de saudades vossas outra vez…

Não terão lindos álbuns de fotografias da vossa infância, não (desisti no primeiro ano de vida do primeiro filho). Mas em compensação têm um blogue a contar todas as vossas gracinhas, que é coisa que as vossas avós nunca fizeram e as vossas bisavós nunca sequer souberam o que era.

E vão recordar também o que a vossa mãe adorava trabalhar. Como se não chegasse todo o trabalho que já tinha com vocês, ainda teimou em fazer uma data de coisas que lhe davam um imenso prazer, o que tantas vezes se traduzia numas grandes olheiras, quilos a menos e ainda menos paciência. Não vão lembrar-se, porque talvez nunca venham a sabê-lo, de todos os trabalhos que, apesar de tudo, tive de recusar para ter tempo para vocês, mas se não o saberão é porque, na verdade, nunca me arrependi de o fazer, porque vocês foram sempre uma grande escola para mim, e um trabalho extremamente compensador, em tudo aquilo que me importou.

Talvez os vossos amigos tenham outros tipos de mães, também com as suas qualidades e os seus defeitos. E não quero nunca que, perante eles ou sozinhos, procurem apagar os meus defeitos, ou que pensem, na ilusão da saudade, que eu fui uma mãe melhor do que as outras. Gente que é gente tem defeitos, mãe que é mãe é um poço de contradições. Não precisam de fazer de mim melhor do que fui. Espero é que acreditem, meus amores, que nunca vos trocaria por nada deste mundo. E que, por mais que às vezes vocês não me compreendessem, ou que nem eu própria me tivesse compreendido, procurei dar-vos, em cada dia louco, o melhor de mim que consegui…

Sara Rodi, In Maria Capaz.pt