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Saúde

14 de Abril de 2014

Cabeçadas

Ontem, enquanto assistia a algumas acrobacias do JM em cima do sofá, lembrei-me que ainda não tinha aqui escrito sobre TCE. Os traumatismos cranio-encefálicos, vulgo cabeçadas, são das causas (senão mesmo a causa) mais frequente de visita à sala de pequena cirurgia. Um dia dedicarei um só texto às feridas, mas hoje limito-me à contusão cerebral propriamente dita.

As quedas, por mais aparatosas que sejam, por mais esmorrada que a criança se apresente, podem não ter importância clínica nenhuma. O crânio é uma estrutura muito rígida e, lá dentro, o cérebro é amortecido por uma camada de líquido (chamado cefalo-raquidiano). Mais, se houver um traumatismo de uma outra parte do corpo (braço, joelho, etc) antes, o amortecimento é ainda maior. O cérebro está muito bem protegido. Faz sentido que assim seja, pois, a par do coração, é uma das estruturas mais nobres que o organismo tem.
Quando cai, a criança pode ter reacções imediatas muito diferentes. A maioria desata num pranto estridente, mas outras ficam muito paradas, outras mesmo inanimadas, outras ‘reviram’ os olhos (o que pode ser interpretado como uma falsa convulsão), outras vomitam. Apesar de estas reacções assustarem, elas têm pouca importância na avaliação do impacto da queda. Interessa mais se a criança ‘veio a si’ espontaneamente e o que acontecerá nas primeiras horas a seguir ao evento. Assim, e durante as primeiras 24 horas, eis os sinais de alarme que devem fazer com que os pais procurem um médico:

  1. vómitos que persistem após a queda;
  2. cefaléia intensa, ou seja, dor de cabeça generalizada (e não apenas a dor local)
  3. sono difícil de despertar após a queda (não confundir com o cansaço natural de quem chorou muito);
  4. convulsões;
  5. alterações do comportamento normal da criança: irritabilidade, perda de equilíbrio, alterações de humor, discurso incoerente, etc.

Para além dos sinais de alarme descritos, qualquer TCE em menores de 1 mês, ou de uma criança maior com um distúrbio hematológico ou neurológico conhecido, ou ferida com necessidade de sutura (as escoriações/raspões precisam apenas de desinfecção local) deverão ser avaliados imediatamente.

Os hematomas (extra-cranianos) per si não constituem motivo de preocupação médica. Aliás, eles são até enganosos. Um ‘galo’ exuberante corresponde a sangue que se acumulou entre a pele e o crânio. Assim, dificilmente haverá fractura óssea, pois, se houvesse, o sangue passaria através dela para dentro do crânio. Pelo contrário, quando passados um ou dois dias se sente uma pequena flutuação mole na região do traumatismo, é provável que haja uma fractura que passou despercebida. A própria existência ou não de fractura tem pouca importância, porque ela resolve sozinha. Interessa mesmo é saber se existem alterações lá dentro, isto é, hematomas intracranianos, edema, etc. Estes não aparecem no Rx (tantas vezes ‘exigidos’ pelos pais), mas sim na TAC cerebral, que, por implicar uma quantidade grande de radiação, é feita muito selectivamente (e na presença dos sinais de alarme descritos acima).
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