Espaço Família | Vem aí um irmão

Cirurgia Pediatrica

21 de Abril de 2013

Bola vermelha

O B. estava inconsolável…pensei que pudessem ser cólicas. Ao tirar a fralda para  massajar a barriga vi que a zona dos testículos estava muito encarnada… fiquei petrificada!  liguei de imediato ao pediatra e foi entre o choro angustiante do B.  e o meu aperto no coração que chegámos ao hospital…

Dói que se farta e assusta os pais. Quando o pequeno aparece com um dos testículo vermelho e inchado, tecnicamente, chamamos-lhe escroto agudo. Os três sinais clássicos são: dor, rubor e edema.   Podem aparecer os três ao mesmo tempo ou dois a dois e são mais que motivo de recorrer ao médico, pois pode tratar-se de uma emergência cirúrgica.

Existe um pequeno capítulo sobre escroto agudo escrito por mim para o Livro de Orientações Clínicas da UPIP (Urgência Pediátrica Integrada do Porto). Está disponível aqui (páginas 561 a 566), mas posso trocar por miúdos. O escroto agudo, isto é, a dor testicular súbita e/ou vermelhão e/ou inchaço do mesmo pode ser o (ou os) sinal (ou sinais) de uma torção testicular. A torção testicular acontece quando o testículo roda sobre o cordão espermático – conjunto de vasos (que o alimenta), ao qual se junta o canal deferente (por onde passam os espermatozóides). Dêem uma volta de 360º ao ‘pescoço’ de um balão e tentem enchê-lo (não dá), ou esvaziá-lo (também não dá). O mesmo acontece ao sangue que irriga o testículo: não chega lá. O que lá está fica parado e trombosa. Se o deixarmos assim torcido, o testículo acaba por morrer ‘asfixiado’ e necrosar. Não é boa ideia.

os filhos dos outros1

A forma de ver se o sangue chega ou não ao testículo é através de ecografia com Doppler. Quando é diagnosticada uma torção, a destorção imediata tem de ser imediata. Há quem a faça, manualmente com um movimento de ‘abertura de livro’ (uma vez que 2/3 dos testículos rodam medialmente, isto é, para dentro). Esta manobra pode ser tentada pelo médico antes de enviar ao cirurgião pediátrico e exige sempre um controlo ecográfico, para se certificar que a vascularização melhorou ou, pelo contrário, piorou. O cirurgião pediátrico terá sempre que destorcer o testículo (cirurgicamente) e certificar-se que ele não volta a torcer, fixando-o bem na bolsa escrotal (orquidopexia).  Como muitas vezes, a causa da torção é uma má implantação do testículo (há quem os chame de ‘badalo de sino’), aconselha-se a fixação também do testículo do outro lado.

Isto assusta, mas não é preciso estar sempre a olhar para as bolas dos meninos. Esta situação acontece (geralmente) à entrada da adolescência, pelo que o rapaz já se queixa (ai se queixa!). Nos mais pequenos (porque a torção testicular pode acontecer desde o recém-nascido), a dor vai dar desconforto e choro intenso. Daí que, perante um bebé com choro inconsolável, deve abrir-se sempre a fralda. O testículo vermelho pode ser sinal de torção mas também de outras coisas mais benignas, como a epidedimite/orquiepidedimite (duas formas de inflamação testicular que resolvem apenas com anti-inflamatório), a hérnia e/ou hidrocelo (falarei delas num futuro post, mas que raramente são urgências cirúrgicas) ou situações mais raras como apendicite aguda, dermatite, púrpura de Henoch-Schönlein, entre outros. Contas feitas, quando vir uma bola vermelha, o melhor é consultar o médico/pediatra assistente para ele rotular a coisa e encaminhar da melhor forma.

Dr. João Moreira  Pinto
E os filhos dos Outros