Mães e Pais na 1ª Pessoa

Inês Simões 

Eu, Mãe

AS MARAVILHAS DA MATERNIDADE | CHEGOU O DIA

Algum dia tinha de ser. Foi ontem que um filho meu foi parar ao hospital por se espatifar na brincadeira. O Pedro andava empoleirado no triciclo do amiguinho, ele acelerou e o Pedro caiu para trás, a cabeça a bater no passeio.

Quando recebi o telefonema do colégio, foi o suor frio, só de ver no ecrã o nome do colégio tremo logo, alguma coisa aconteceu! Até hoje tinha sido sempre febres, ontem foi o que eu mais temia. “Vem cá ter ou encontramo-nos no hospital?” Encontramo-nos no hospital, não havia tempo a perder.

Quando lá cheguei já lá estavam eles, o Pedro com gelo na nuca. Foi apenas aí que eu percebi que tinha sido na parte de baixo da cabeça, mesmo perto da nuca, até então imaginava a testa aberta. Fiquei ainda mais preocupada por ser onde foi, mas felizmente não foi nada grave, o corte foi pequeno, estancou bem, nem teve de levar pontos, o Pedro apenas estava com miminho, já nem tinha dores.

Mas como houve um traumatismo na cabeça, começou o martírio do meu marido. O protocolo obrigava a raio-x no caso do Pedro, para despistar sequelas da queda. O meu marido, sendo médico, sabe melhor do que todos por aqui o que se esconde atrás de um diagnóstico, mas muitas vezes, quantas vezes, o que se esconde atrás de um meio de diagnóstico.

Ora, o Pedro parecia bem, mas o raio-x tinha de ser feito. O raio-x tinha um risquinho que levantou uma dúvida, a mínima dúvida de ser um traumatismo mais grave. Queriam uma TAC, para ter a certeza. Veio a TAC. E não era nada.

Toda a gente quer uma TAC, até parece que o médico é mau se não passa uma TAC, se não manda fazer um examezinho, se não receita nada. No caso do meu marido, ele foge como o diabo da cruz de TAC, raios-x e afins. É que para se fazer um diagnóstico, dá-se um passeiozinho por Chernobyl, leva-se com umas radiações bárbaras para se despistar um traumatismo craniano. O meu marido fica doente com isso e eu compreendo a sua preocupação, as implicações que esse tipo de procedimento podem ter, ainda por cima sobre o corpo de uma criança. Neste caso, mais uma vez, como na maioria dos casos, não era nada, mas e se fosse? E ficar nesse limbo?

Diz-se que quando se ouvem cascos, deve-se pensar em cavalos, não em zebras. O problema é que as zebras existem, e por uma excepção, podem ser elas, não cavalos. O mesmo se passa na medicina. Geralmente uma queda é apenas uma queda, sem consequências, mas há sempre aquela probabilidade, ainda que pequenina, de haver consequências escondidas. E os médicos cada vez mais são pressionados a encontrar essa consequência por mais escondida que esteja, a assegurar-se de que nada fica por peneirar.

Com o avançar da medicina, dos meios de diagnóstico, aumenta também a responsabilidade em encontrar o que está errado, em acertar o diagnóstico, em escrutinar tudo para lá chegar. Mesmo que isso signifique chumbar o paciente em radiações, furá-lo todo, passar uma catrefada de exames. Para mais rápido e seguro diagnóstico do doente, para descanso do médico.

Eu fico preocupada com o Pedro, que em 4 anos de vida já levou com 3 raios-x em cima e uma TAC. Mas talvez ficasse mais preocupada se ele não tivesse sido ontem mais uma vez peneirado. Porque las hay, las hay.

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