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Psicologia

2 de Maio de 2013

As crianças e os pesadelos

Foi uma noite para esquecer! O B. continua com os pesadelos… garante que o “senhor muito grande azul” que corre atrás dele no sonho, vai entrar no quarto! Acorda a chorar e quase aterrorizado. Fico tão aflita, a M. com a idade dele também teve alguns pesadelos, mas nunca tão dramáticos. Fico com o coração apertado e nunca sei o que devo ou não devo  fazer….

A ocorrência de pesadelos nas crianças é um problema que preocupa com alguma frequência os pais. Acontecem durante o sono profundo, mais para o final da noite e a diferença entre os pesadelos e os terrores nocturnos é que nos pesadelos a criança acorda assustada, muitas vezes a chorar e lembra-se do que sonhou.
As crianças começam a ter sonhos simbólicos por volta dos dois anos e, normalmente, só começam a relatá-los por volta dos três. Mesmo nesta idade podem não ser capazes de distinguir com facilidade o sonho da realidade, mas conseguem denunciar algum conteúdo do sonho. Aos cinco anos serão capazes de entender que tiveram um pesadelo ao acordar, embora ainda sintam os efeitos do sonho por mais algum tempo depois de terem despertado.
Os pesadelos são sonhos assustadores que geralmente são o reflexo de conflitos emocionais das crianças e que estão particularmente relacionados com as etapas de desenvolvimento. Por exemplo, as crianças que estão a “trabalhar” a angústia de separação podem ter sonhos sobre a perda dos pais, não ser capaz de vê-los, ou não ter acesso físico a eles. Os que estão a deixar as fraldas ou a aprender a utilizar o penico podem ter sonhos que simbolicamente reflectem a decepção dos pais, ou uma perda de aprovação e amor, podendo intensificar-se se a criança está a ter alguma dificuldade em controlar os descuidos e aos olhos dos pais é mal sucedido. Entre os três e os seis anos, há uma onda de pesadelos provocados por dois aspectos particulares do desenvolvimento emocional: a consciência de impulsos agressivos e impulsos sexuais. Atenção! eu disse “consciência”, isto porque, as crianças exibem comportamentos agressivos antes dos três anos, mas não têm consciência de que essa agressão vem de dentro delas, o que só acontece algum tempo depois dos três. O aumento da consciência anda de mãos dadas com o desenvolvimento de um auto–conceito que está cristalizado em torno do mesmo tempo. Como as crianças se tornam conscientes de si mesmas como seres individuais com a sua própria vida emocional, também se vão familiarizando com as próprias emoções negativas, como a raiva, o ciúme, a inveja, etc… E, neste sentido, os pesadelos servem um propósito em particular na relação dos impulsos agressivos. Eles permitem que a criança projecte no sonho a intensidade das emoções que o oprimem. O monstro não é nada mais nada menos que uma representação de impulsos agressivos da criança.
Nos impulsos sexuais é um pouco diferente. Por volta dos cinco anos, as crianças tornam-se muito conscientes das diferenças de género. Por um lado, percebem que são um menino ou uma menina e começam a fazer as identificações com o mesmo sexo, por outro lado, podem sentir alguma atracção pelo sexo oposto, que no princípio é visível nas suas relações com os pais, em que os meninos falam sobre crescer e casar com a mãe, colocando o pai de lado e as meninas tendem a namoriscar com o pai, vestir-se para ele, enfeitar-se na frente dele, dizer que o pai é o princípe, enquanto a mãe está excluída. Os pesadelos relacionados com esta etapa de desenvolvimento são normalmente chamados de pesadelos edipianos e giram em torno do conflito de alternância de querer substituir o pai do mesmo sexo aos olhos do outro progenitor e a culpa por ter tais sentimentos. Ás vezes os sonhos refletem o medo da criança ou do reconhecimento de que o progenitor a quem ela deseja substituir é maior, mais forte e mais poderoso e, finalmente, capaz de vencer a batalha. Mais uma vez, a representação do sonho poderoso em forma de monstros, criaturas gigantescas e enormes servem o propósito de actuar em função dos conflitos da criança.
Deixo aqui algumas sugestões, no sentido de ajudar os pequenos (e pais) a lidar com os pesadelos:

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Tranquilize o pequeno, mostrando-lhe que nada lhe aconteceu, nem acontecerá porque tal como nas histórias os pesadelos fazem parte da imaginação;
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Diga-lhe que tal como nas histórias e nos desenhos animados também nos sonhos só vencem os bons. Em que ele é a personagem boa que vencerá todos os monstros que se atravessarem no seu caminho;
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Uma vez que os pesadelos estão geralmente associados a situações de grande ansiedade, tente durante o dia falar com ele sobre as situações que pensa poderem estar a gerar ansiedade. Desta forma estará a ajudá-lo a lidar de uma forma mais eficaz com a situação. 
Além disso, as crianças entre os três e sete são particularmente afectadas quando expostas a discussões ou comportamentos agressivos por parte de familiares e isso fará com que haja um aumento de pesadelos;
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Uma rotina na hora de deitar é muito importante, e com a ajuda de uma história, sem monstros nem fantasmas pode ser uma boa estratégia para que possa adormecer calma e serenamente;
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Deixe-o dormir com um objecto preferido e especial que ele veja como protector. Colocar uma fotografia de um dos pais ou de ambos, junto à mesinha de cabeceira, também pode ser um bom apoio;
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Ensine-o desde cedo a dormir sozinho. Se o fizer estará a incutir-lhe confiança e segurança. Se o tempo que o seu filho dorme consigo se prolongar demasiado no tempo ou se for sempre para junto dele até que adormeça, só facilitará o aparecimento de medos;
• Tente não demonstrar preocupação relativamente aos pesadelos. Se o fizer, o pequeno sentirá que eles constituem realmente razão de preocupação. A atitude de desdramatização é sem dúvida a mais correcta.

Uma coisa das coisas que costumo fazer à Nônô quando tem pesadelos e que resulta, depois de a tranquilizar, viro a almofada e digo: – “Que chatice! esquecemo-nos de virar a almofada para os sonhos bons! Pronto, agora já podes dormir e sonhar com coisas lindas e maravilhosas.”
O importante para os pais é reconhecer que a maioria destes pesadelos são normais e passam com o tempo, por volta dos sete/oito anos de idade, não havendo por isso razão para grandes preocupações. No entanto se estes se tornarem muito frequentes e impedirem de uma forma sistemática que a criança repouse poderá ser importante consultar um especialista.

 

Drª Olga Reis
Psicóloga clínica
oreivainu.blogspot.pt