Mães e Pais na 1ª Pessoa

Lénia Rufino 

Not so fast

As crianças e a adoção de animais

Há algum tempo, começamos a ponderar a adoção de um gatinho. Achamos que seria bom para os miúdos, que aprenderiam algumas coisas acerca de responsabilidade e que perderiam o medo de animais – esta parte é exclusiva da minha filha, que tem medo de tudo o que mexe.

Começamos a procurar um gato – ou dois, porque consideramos a hipótese de adotar dois, caso encontrássemos uns que não devessem ser separados. Comprar um animal estava absolutamente fora de questão. Teríamos de encontrar um para adoção. Tínhamos apenas um critério incontornável: teria de ser um gato meigo e sociável, que ajudasse a minha filha a perder o medo. E não queríamos um gato bebé ou juvenil, porque queríamos perceber a sua personalidade e não queríamos arriscar num gato arisco, que assustasse os miúdos.

Vimos dezenas de gatos em vários sites de associações. Houve ​alguns que nos chamaram a atenção, mas esta é uma daquelas decisões que só se toma ao vivo, conhecendo os animais, interagindo com eles. Visitamos uns quantos que não eram sociáveis e que não deixavam os miúdos chegarem-se a eles. Por muito que achássemos que íamos conseguir “domar as feras”, optámos por não arriscar​.

E, finalmente, encontrámos numa associação ​uma gatinha que encaixava no que procurávamos. Mas a gata tinha sido mãe há pouco tempo e demoraria mais um mês até podermos trazê-la para casa. Nesse mesmo dia, insisti para que fôssemos à União Zoófila. Chegámos mesmo em cima da hora de fecho mas ainda conseguimos ver os gatinhos.

A Susana, que é a pessoa responsável pelas adoções, acompanhou​-nos​ na visita e​ foi-nos mostrando os gatos. Nenhum dos que nos cativaram eram sociáveis. Os gatos mais meigos são mais facilmente adotados, claro, e acabam por não estar tanto tempo na UZ como estes mais… independentes​.

Eram gatos óptimos para casas sem crianças, mas com os miúdos não quisemos arriscar. Entretanto, a Susana fez-me a pergunta-chave: se estávamos dispostos a ver os gatos doentes.

​Explicou-nos que os gatos mais meigos que tinham estavam ali, quase esquecidos precisamente por causa das doenças que tinham. ​

Claro que, quando começamos à procura do nosso gato, não planeamos adotar um gato doente – alguém planeia? Queríamos um gato saudável, com 2 ou 3 anos, que viesse a estar connosco durante muitos e bons anos. Naquele momento, parada em frente ao gatil dos gatinhos Felv+, disse que sim, que queria ver os gatos. Não sabia o que ia encontrar. Não sabia sequer o que era Felv nem as implicações que a doença teria. Só que, do lado de lá do vidro, estava um gatinho amarelo com o ar mais doce do mundo e eu não resisti. Entrei, o gato saltou-me para o colo, fiz-lhe festas. Entretanto os meus filhos entraram, mas ficaram intimidados com a desenvoltura do gato amarelo, que se mexia muito à vontade. Perguntei se havia mais gatos Felv além daqueles. Havia. Assim que vi aquela gata, eu soube: seria incapaz de me vir embora sem ela. Fizemos-lhe festas, ela ronronava sem parar, numa meiguice deliciosa. A minha filha encantou-se com a gata. Mas era uma gata Felv+…

Conversamos e, na hora de decidir o que fazer, dei por mim com as lágrimas a correrem-me pela cara – não ia mesmo ​ser capaz de sair dali sem a gata! O meu marido foi buscar a transportadora e, assim que a abriu… o gato amarelo instalou-se. Mas os miúdos continuavam assustados e decidimos que traríamos a outra gata – com muita pena minha, que ainda hoje me lembro do amarelinho!

Assim que chegamos a casa, ela instalou-se. Saiu logo da transportadora, não estava nada assustada. Deu uma volta à casa, continuou a ronronar sempre que lhe fazíamos festas e parecia que sempre tinha estado ali.

​ Ambientou-se muito rapidamente, não reagiu mal a nada, não fez disparates nenhuns. Acho que percebeu que estava em casa e que podia confiar.​

Ela vinha um bocadinho constipada, coisa que se curou sem grande dificuldade no espaço de uns dias. Levámo-la à veterinária, que assegurou que ela está bem e que, dentro da doença que tem, está tão bem quanto possível. Está perfeitamente adaptada, anda por todo o lado, dorme aos pés da minha cama, está sempre onde eu estiver. Adora festinhas e mimos, anda atrás de mim a miar quando quer comer e adora estar deitada ao sol. Deixa que os meus filhos brinquem com ela, não os magoa, não foge deles. É a minha filha que trata da limpeza da caixa e que, todos os dias, quando chega da escola, cuida do assunto.

A nossa Surigata – nome que encurtamos para Suri – é uma gata absolutamente normal, com um comportamento normal. É sociável, muito dada e não estranha nada quando temos visitas. Não temos de ter nenhum cuidado especial com ela – optámos apenas por lhe dar uma boa ração, para evitar que ela tenha problemas no futuro. Caso queiramos adoptar mais um gatinho, será um gato Felv+. Depois desta experiência, percebemos que estes gatos são exactamente iguais aos outros e merecem o melhor do mundo.

De vez em quando penso em como ela estaria, se ainda estivesse no gatil. Era muito bem tratada lá, claro, mas está muito melhor numa casa onde tem todos os mimos e onde é feliz. Acabamos por desistir da outra gata que, sendo saudável, terá com certeza facilidade em ser adotada, e escolhemos dedicar-nos a esta gatinha que é um doce e que, só por ter uma doença crónica, não merecia passar o resto da vida lá, num sítio que, sendo uma casa, não é um lar.

Estamos muito gratos à Susana, que nos ajudou em tudo e que nos desmistificou a questão da doença. Aplaudimos o trabalho da UZ, que é incansável com os animais que acolhe. Obrigada por tudo!!

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