Mães e Pais na 1ª Pessoa

João Moreira Pinto 

E os Filhos dos Outros

As crianças absorvem mais radiações dos telemóveis que os adultos. E agora?

Este artigo do  Journal of Microscopy and Ultrastructure deixou-me algo apreensivo. Os autores pertencem ao Environmental Health Trust, uma ONG americana que se dedica a estudar os perigos para a saúde pública do tabaco e, mais recentemente, das radiações dos telemóveis e outros dispositivos móveis. Apesar de poder haver algum viés de avaliação, o artigo cita estudos científicos claramente independentes e algumas conclusões deixam-nos a pensar:

  1. As crianças absorvem mais radiações micro-ondas do que os adultos. Isto não é completamente novo, pois pela sua composição, já sabíamos que a exposição a radiações ionizantes (como as presentes nos Rx e TAC) eram mais absorvidos pelos cérebros das crianças.
  2. As radiações micro-ondas penetram mais profundamente nos cérebros das crianças. Isto acontece porque as crianças têm pele menos espessa, o crânio mais fino e uma cabeça mais pequena.

Quais as consequências destas micro-ondas? Segundo os autores as radiações micro-ondas provocam cancro e alterações irreversíveis no sistema nervoso central. Este tipo de radiações são emitidas por telemóveis e todos os dispositivos wireless e foram classificados pela OMS como carcinogéneos classe 2B (possible). Nesta classe estão produtos como o clorofórmio, DDT, chumbo, gasóleo ou gasolina. Em boa verdade são produtos que não temos a certeza que sejam carcinogéneos, mas que, ‘pelo sim, pelo não,’ convém evitar exposições prolongadas.

Os autores chamam também a atenção para os efeitos das micro-ondas sobre os organismos vivos. Num exemplo, a exposição de fetos de ratos a telemóveis durante a gestação resultaram em alterações do tipo das encontradas em crianças com hiperactividade e défice de atenção. Os autores também citam alguns estudos que relacionam o início precoce da utilização/propriedade de um telemóvel em crianças e adolescente com o aparecimento de tumores cerebrais. Em adultos, a exposição do telemóvel pode estar relacionada com tumores da mama (aparentemente, existe um hábito muito americano de as raparigas o usarem preso no sutiã), tumores das glândula salivares e infertilidade.

Como disse anteriormente, este artigo foi escrito por membros de uma ONG que está convicta que os telemóveis estão a aumentar a incidência de cancro na população. Apesar de ter passado pelo crivo dos revisores duma revista prestigiada como oJournal of Microscopy and Ultrastructure, os autores não citam uma série de artigos que contradizem esta teoria (ver por exemplo este e este) e, a páginas tantas, dão a entender que são as empresas telefónicas que tentam calar os investigadores (o que também não abona a favor da credibilidade de quem escreve um artigo que se quer científico).

Para mim é ponto assente que toda a tecnologia que dispomos hoje – sejam telemóveis, computadores ou outros dispositivos wireless, têm feito mais para salvar vidas do que as eventuais consequências negativas para a saúde que estão por provar. De qualquer forma, e não havendo conclusões claras sobre se a exposição aos telemóveis e outros equipamentos wireless são ou não prejudiciais é preferível tomarmos a atitude da OMS e tê-los como eventuais carcinogéneos.  Assim, não custa nada ter em mente algumas recomendações que os autores deixaram em entrevista à Medscape.

  • A distância ao corpo destes equipamentos deve ser mantida sempre que possível, a mais de 15 cm, mesmo em conversação. «Um telemóvel a 15 cm da orelha reduz o risco de carcinogénese em 10 mil vezes». Suponho que falar em alta voz seja preferível. Na mesma linha, parece-me preferível ter um tablet pousado numa mesa do que no colo.
  • Os telemóveis transmitem sempre radiação, mesmo quando fora de conversação, pelo que devem ser guardados na bolsa ou na mochila. Evitar os bolsos das calças. E, à noite, mantê-los longe da cabeceira.
  • Tablets e telemóveis devem ficar fora dos quartos das crianças. Muitos, especialmente os mais velhos, adormecem com eles debaixo da almofada.
  • Os monitores de bebé não devem ficar dentro do berço da criança.
  • Routers e outros dispositivos wifi-fi devem ficar longe dos locais onde adultos e especialmente crianças permanecem a maior parte do tempo.
[fonte: ehtrust.org]