Atualidade

23 de Setembro de 2015

Amamentar no supermercado, no aeroporto ou em qualquer local público

Irmina e Sávio fotografam mulheres a amamentar em espaços públicos. Contra o preconceito e pela naturalização deste acto — porque é um direito e tem benefícios para bebés e mães

Quando o segundo filho de Irmina Walczak e Sávio Freire nasceu, o casal viu-se a regressar no tempo. Quatro anos depois do nascimento da primogénita, nada tinha mudado. Olhares de desaprovação, comentários desagradáveis, assédio — a amamentação em público continuava a gerar as mais “absurdas” reacções. O casal — ela polaca, ele brasileiro — pôs-se a imaginar quantas mulheres passariam pelo mesmo. E decidiu agir: “Mamaço no Espaço” são fotografias a bater-se pela “naturalização” deste acto. Porque amamentar é um direito — e bebé e mãe ganham com isso.

 

A ideia deles, iniciada em plena Semana Mundial de Aleitamento Materno, teve impacto imediato. Publicaram uma chamada para a realização de retratos na página do Facebook e, de repente, caíram mais 100 emails de voluntárias. “Fizemos as primeiras fotos e logo vimos a importância do projecto para as mulheres, tanto as fotografadas como outras que se encontravam nos locais”, contaram ao P3.

 

A maioria das mulheres fotografadas — foram, até agora, 19 — relatam alguma vergonha em amamentar. Há “troca de olhares ou frases curtas” capazes de deixarem marcas. Como contou ao casal uma mãe que precisou de amamentar a filha de um ano no táxi, a caminho do aeroporto, e foi repreendida pelo motorista. “Se o senhor se incomoda, pode parar que nós vamos sair”, terá respondido. A viagem seguiu. A verdade, perceberam Irmina e Sávio, é que nem sempre as mulheres têm essa “coragem”, sobretudo quando são mães de primeira viagem. “Ainda ficam inseguras na sua nova função e deixam-se levar pelos outros”, relatam.

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O “Mamaço no Espaço” usa a arte para tornar natural a amamentação — têm sido vários, aliás, os projectos a bater-se por esta causa. Afinal, a amamentação “um dos actos mais primários do ser humano” e só passou a ser visto como “estranho ou provocativo” pelas sociedade de influência ocidental, onde “a conotação sexual fala mais alto, mesmo quando a mulher se torna mãe”. “É preciso devolver ao seio feminino sua função primordial que é a de amamentar a cria”, defende o casal, junto há uma década.

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O desconforto de “olhares de desaprovação” foi algo que Irmina sentiu na pele. Nunca se coibiu de amamentar em público ou na presença de alguém, mas em algumas situações sentiu-se constrangida. Acredita que a censura alheia acontecia porque mostrava o peito e por acharem que a filha era grande demais para mamar. Isto apesar de Yasmin, a primeira filha, ter bebido leite materno durante o tempo recomendado pela Organização Mundial de Saúde: dois anos.

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Nas imagens dos dois fotógrafos, as mulheres aparecem olhos nos olhos com a objectiva, como se de um protesto se tratasse, e frequentemente em lugares inusitados como um supermercado ou no meio do trânsito. Para já, a dupla — responsável pelo projectoPanoptes Fotografia — está a fotografar apenas em Brasília, onde vive. Mas a ideia de alargar o mapa do “Mamaço no Espaço” passeia-lhes pela cabeça: querem alargar a outras cidades brasileiras e pensam até em internacionalizar, caso consigam um patrocinador. Certo é que querem fazer uma “intervenção urbana” com estas imagens, fazendo-as circular por vários espaços a derrubar preconceitos.

 

No Brasil, algumas cidades — como o Rio de Janeiro, São Paulo ou Teresina — aprovaram leis que protegem as mães que amamentam em público e multam estabelecimentos comerciais que o proíbem. Mas, para o casal de fotógrafos, mais do que punir, é preciso educar. “Não se veêm campanhas educacionais esclarecedoras”, lamentam. As recomendações de amamentação até aos dois anos de idade, feitas pelo Ministério de Saúde brasileiro, estão espalhadas pelos postos de saúde e em alguns rótulos de alimentos para bebés. Mas não chega: “Toda a sociedade tem de saber dos benefícios do aleitamento materno prolongado para apoiar o acto, inclusive nos espaços públicos. Só assim as mães vão continuar.”

 

Fonte: Público