Espaço Família | Como Cresceram

Psicologia

5 de Dezembro de 2015

Algumas tradições ainda são o que eram…

A propósito do Natal, pensemos sobre a importância dos rituais familiares

 Já em plena contagem decrescente para o Natal, torna-se especialmente relevante compreender a função que a celebração de datas como esta pode cumprir para a união e coesão das famílias, e que muitas vezes, escapa à reflexão por entre o frenesim das compras, escolha de presentes, planeamento de quem vai passar que refeições e em que casas – com especial significado com a cada vez maior variabilidade de tipologias familiares – e outros aspetos de natureza prática que inundam esta época do ano.

tradições

As famílias distinguem-se entre si precisamente pelos seus rituais, isto é, pela forma como vivenciam as diferentes atividades partilhadas, sejam elas de carácter quotidiano, sejam datas festivas, mais esporádicas e pontuais. Os rituais são parte essencial da vida familiar, podendo ser entendidos como hábitos de vida relativamente estruturados e repetitivos, através dos quais os elementos de uma família comunicam entre si a um nível manifesto, simbólico e, até, inconsciente. Os rituais permitem a expressão de algo que não conseguimos exprimir por meras palavras, ou cujo significado se encontra para além das palavras; constituem recursos fundamentais para o fortalecimento da família, para a elaboração do significado da vida e para a segurança da comunidade envolvente.

Considera-se a existência de quatro categorias de rituais familiares: rotinas diárias, tradições, celebrações e rituais ligados ao ciclo de vida. Quando pensamos numa época festiva como o Natal, estamos tanto perante uma tradição, como uma celebração, sendo que as tradições correspondem a uma dimensão na vida das famílias em que as suas idiossincrasias se manifestam, com a cultura a ocupar um papel de menor relevo. As tradições constituem um meio a partir do qual cada família revela a sua identidade e exprime as suas crenças. Podemos apontar como exemplo as famílias que têm a tradição de colocar sapatos debaixo da árvore de Natal.

As celebrações – comemoração de eventos que são partilhados pela cultura onde a família está integrada – constituem-se como uma espécie de calendário externo da família, que contribui para fomentar a interligação com a comunidade envolvente. O seu carácter estandardizado e a sua repetição ano após ano criam uma sensação de continuidade. As épocas festivas mais comuns na nossa cultura são precisamente o Natal, o Ano Novo, o Carnaval, a Páscoa ou os Santos Populares.

Apesar do carácter universal dos rituais, a sua expressão vai diferir de família para família, com cada uma a descobrir e a construir os seus rituais, moldando-os à sua imagem. Repletos de simbologias, também os rituais, a exemplo do que sucede com a comunicação, constituem recursos extremamente importantes para a manutenção e fortalecimento da família. Constituem ainda momentos no tempo e no espaço em que se torna possível viver ligações afetivas, fortalecer e reconstruir ligações intra e extra familiares e alimentar a coesão familiar; são um espaço para refletir sobre o significado da vida (vida familiar e comunitária; vida enquanto indivíduo) e sobre os eventos de transformação, servindo de suporte para a família transitar para etapas seguintes do seu ciclo de vida.

A perda progressiva dos rituais familiares a que vamos assistindo nas sociedades ocidentais tem vindo a acarretar consequências de vária ordem. As famílias vão perdendo a sua identidade, coesão e cada vez mais existem pessoas que vivem num quase total isolamento. O contexto familiar desprovido de rituais pode abrir as portas a formas ritualizadas disfuncionais, como sejam os consumos alcoólicos ou a toxicodependência. De igual modo, o afastamento dos elementos das famílias é cada vez maior, seja pelo aumento das taxas de divórcio, pelo aumento da população idosa, a emigração ou a precaridade e instabilidade a nível profissional. Os membros da família extensa vivem cada vez mais longe uns dos outros. Perante estas circunstâncias, muitas famílias podem perder o seu fio condutor, sentindo-se desamparadas e forçadas a recorrer a diversos tipos de apoio externo. O reatar de rituais familiares, ou mesmo a criação de novos rituais que façam sentido à família, pode inverter esta situação e proporcionar a estas famílias o fio condutor abalado ou mesmo perdido, tornando-as mais coesas e autónomas, fortalecendo as famílias e cada um dos seus elementos per si. Por tudo isto, pelo bem-estar, coesão e união das famílias e pelos benefícios infindáveis que estes trazem a cada indivíduo que integra uma família e para a sociedade em que a família se insere, vale realmente a pena que cada família, à sua maneira, comemore o seu Natal.

 

Rita Fonseca de Castro

Psicóloga Clínica e Terapeuta Familiar

* Artigo exclusivo para Barrigas de Amor®

logo oficina da psicologia horizontal

 

Uma sugestão:

BA horiz