Mães e Pais na 1ª Pessoa

Lénia Rufino 

Not so fast

Abrandar

No dia em que o meu marido me disse “quero a minha Lénia de volta” percebi que alguma coisa estava errada. Aquilo foi um a espécie de balde de água fria. Olhei e percebi que ele tinha razão e que esta não sou eu. Afoguei-me no cansaço. Não tenho tempo para nada. Não consigo ir ao ginásio. Passo dias seguidos sem almoçar, a petiscar porcarias ao longo do dia. Vou às compras a correr, tenho tempos cronometrados para tudo. Durmo uma média de três horas por noite. Nas noites em que posso dormir mais não descanso, porque acordo mil vezes. Ando pálida, com olheiras fundas, sem brilho nenhum. Esta não sou eu.
O que é que se passou?

Trabalho. De Agosto (que é quando começa a minha época) para cá, fiz 43 bolos decorados. Passei muitas noites em claro, a moldar pastas de açúcar. Deixei de conseguir ter a minha casa apresentável. Pior: deixei de ter a minha casa operacional. Há coisas dos bolos por todo o lado. Balanças na sala, caixas no sofá, velas na minha secretária. Junte-se a isto o problema de saúde da minha mãe e está feita a festa. Há três meses que não descanso. E eu, que sou um tractor e aguento tudo, desabei. No sábado fiquei sem voz. Hoje é quinta-feira e eu continuo rouca. Não me lembro de ter demorado tanto tempo a curar uma maleita destas. Ando a xaropes e comprimidos e nada faz efeito. E eu sei onde está o problema.

Uma alimentação muito deficiente. Falta de descanso. Sistema imunitário em baixo. Defesas inexistentes. Cocktail molotov prontinho a explodir.

Já nem falo do resto: da falta de vontade para tudo, da pouca paciência para os miúdos. Nem para isso tenho forças. Sinto-me mesmo, mesmo em baixo. Claro que amo o facto de ter sempre imensas encomendas. Sei que é bom sinal. Mas também sei que não aguento muito mais. Sei que preciso de abrandar e de recuperar, para depois voltar a 100%. Não posso dar-me ao luxo de cair doente a um cama, porque tenho duas pessoas pequeninas que dependem de mim, e um marido que, trabalhando cerca de 14 horas por dia, não me pode dar apoio logístico com os miúdos.

Por isso, chegou a hora de abrandar. As encomendas que estão tratadas serão feitas. Até dia 13, tenho bolos a acontecer (com a festa de anos da minha filha pelo meio – ela, no meio disto tudo, saiu muito prejudicada porque já se sabe que casa de ferreiro, espeto de pau, e a festa dela vai ser em modo serviços mínimos porque eu não dou para mais). Depois disso, e até ao fim do ano, vou descansar. Vou reorganizar-me. Vou aproveitar as férias dos miúdos com eles, que se têm queixado imenso da minha falta de tempo para eles – e têm razão. Eu não quero ser a mãe que não está lá, apesar de estar em casa. Não quero mesmo.

Em Janeiro, volto a trabalhar fora de casa e muita coisa vai mudar. Tem que mudar. Preciso de me reencontrar, preciso de cuidar de mim. Ninguém aguenta muito tempo no ritmo que eu tenho tido e se por um lado é muito bom estar em casa, por outro é muito fácil a coisa descambar. Ainda ontem comentava com uma amiga que, para levar mais longe isto dos bolos, eu precisava de uma cozinha fora de casa. Para ter um horário que não implicasse madrugadas, para separar as águas. Não vai acontecer.

Isto tudo para dizer que estou aqui a tirar o pé do acelerador e a deixar a máquina perder velocidade. Para ver se não me espeto na próxima curva.

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